
Nova Vida, Novo Amor
Capítulo 3
Na manhã seguinte, a atmosfera em casa era fria e silenciosa. Helena me abordou na cozinha, sua raiva da noite anterior substituída por uma vulnerabilidade calculada. Seus olhos estavam levemente inchados, e ela segurava uma xícara de café com as duas mãos, como se buscasse calor.
"Caio, podemos conversar?", ela começou, a voz suave. "Eu pensei no que você disse. Talvez eu tenha exagerado. É que... o Lucas me lembra de mim mesma quando comecei. Cheia de talento, mas sem ninguém para me dar uma oportunidade, um empurrão."
Ela tentava pintar um quadro de mentora generosa, uma alma caridosa ajudando um jovem promissor. Mas eu via através da fachada. Era uma tentativa de se vitimizar, de transformar sua imprudência em um ato de nobreza.
"Não tente se justificar, Helena. Não é sobre o Lucas, e você sabe disso. É sobre nós", eu respondi, meu tom inflexível. "Você pegou algo que deveria ser nosso, o fruto do nosso trabalho, e deu a um estranho para se exibir. Você humilhou nosso casamento na frente dele."
Ela baixou o olhar, parecendo envergonhada.
"Não foi minha intenção..."
"A intenção não importa quando o resultado é o mesmo", eu a interrompi. "Aquele carro não era um simples presente. Era um símbolo. E você o usou para mostrar a um garoto que ele era mais importante que seu marido. Você quebrou uma regra fundamental da nossa relação."
O silêncio voltou a se instalar. Eu me aproximei, a frieza em minha voz era um aviso claro.
"O que aconteceu com o projeto da Vértice foi apenas o começo. Foi um arranhão. Se você continuar com esse comportamento, se me desrespeitar novamente, eu garanto que o próximo golpe não será tão sutil. Eu vou tirar tudo de você, Helena. Não me teste."
O medo brilhou em seus olhos. Era uma emoção que eu raramente via nela, e isso me deu uma satisfação amarga. Ela finalmente estava entendendo que eu não estava mais disposto a ser o marido complacente que engolia tudo em silêncio.
"Não vai se repetir", ela prometeu, a voz trêmula. "Eu vou manter distância do Lucas. Eu vou consertar isso. Por favor, Caio."
Eu a observei, tentando encontrar qualquer sinal de sinceridade em seu rosto. Encontrei apenas pânico. Ela não estava arrependida de suas ações, estava com medo das consequências. A semente da desconfiança já havia criado raízes profundas demais para ser arrancada com uma simples promessa.
"Veremos", foi tudo o que eu disse antes de sair para o trabalho.
Naquela noite, quando voltei para casa, o cheiro de comida caseira pairava no ar. Helena estava na cozinha, preparando meu prato favorito, algo que ela não fazia há anos. Ela sorriu para mim, um sorriso forçado que não alcançava seus olhos.
"Fiz lasanha", ela disse, tentando soar casual. "Como nos velhos tempos."
Ela estava tentando. Estava fazendo um esforço para reparar a rachadura que ela mesma havia criado. Mas era tarde demais. Eu me sentei à mesa e comi em silêncio. A lasanha estava deliciosa, mas para mim, tinha gosto de cinzas. Eu via seu esforço não como um ato de amor, mas como uma estratégia de contenção de danos.
Meu coração estava fechado. A decisão já havia sido tomada. Eu daria a ela a corda, mas sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela mesma se enforcaria com ela. E eu estaria lá para assistir. A desconfiança era um veneno que, uma vez inoculado, não tinha antídoto. Eu sabia que a promessa dela era vazia. Era apenas uma questão de tempo até que ela me provasse que eu estava certo.
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