
Noivado Rompido, Fuga para Berlim
Capítulo 2
O mundo inclinou em seu eixo. Bianca Medeiros. O nome ecoava em minha mente, um sussurro venenoso. Bianca, a amiga socialite "indefesa". Bianca, a estudante "cheia de ansiedade". Bianca, a "pobre menina rica" de quem Gabriel costumava reclamar.
Ele sempre a pintou como uma "estudante herdeira" carente e privilegiada que não conseguia encontrar o caminho para a sala de aula sem escolta. — Ela é tão incompetente, Catarina — ele resmungava nas videochamadas. — Sempre precisa de alguém para segurar a mão dela. — Ele desabafava sobre as demandas constantes dela, sua incapacidade de entender conceitos simples, seu talento estranho para transformar cada pequeno inconveniente em uma crise total exigindo a intervenção imediata dele. Eu ouvia, assentia, oferecia simpatia, nunca pensando que fosse algo mais do que uma sessão de desabafo sobre uma colega de classe problemática.
Nunca prestei muita atenção. Gabriel sempre tinha algum drama acontecendo, e eu confiava nele. Ele era o meu Gabriel.
Mas então, as ligações começaram a ficar mais curtas. As respostas dele, mais lentas. Uma noite, ele não ligou. Fiquei acordada, olhando para o meu celular, um pavor frio rastejando em meu coração. Na manhã seguinte, ele finalmente ligou, a voz grossa de sono. — Desculpe, Catarina. Bianca teve um ataque de pânico depois de uma sessão de estudos tarde da noite. Tive que levá-la para casa e ficar até ela se acalmar.
As palavras dele estavam carregadas de uma preocupação que era nova, desconhecida. Uma possessividade que não era dirigida a mim. Senti uma pontada aguda de ciúme, um gosto amargo na boca. Foi a primeira vez que realmente me senti substituída.
Depois disso, as reclamações dele sobre Bianca assumiram um tom diferente. Ele ainda a chamava de incompetente, ainda a descrevia como um fardo, mas agora havia uma nota estranha, quase terna, em sua voz. Como um pai reclamando de um filho problemático que secretamente adora. Eu vi a mudança. Eu senti. O abismo crescente entre nós.
Noites sem dormir tornaram-se minha companhia constante. Minha mente girava, desesperada e aterrorizada. Ele estava se apaixonando por ela? Era isso? A longa distância, o afastamento inevitável? Eu não podia suportar o pensamento. Precisava vê-lo, olhar em seus olhos, entender. Precisava de um encerramento, de uma forma ou de outra. Fosse para lutar por nós, ou para finalmente deixar ir.
Então, comprei a passagem. Arrumei minhas malas. E voei meio mundo, armada com um presente surpresa de aniversário e um coração cheio de esperança desesperada.
Agora, sozinha neste quarto de hotel estéril, o frio da traição infiltrava-se em meus ossos. Esperei. Esperei pela ligação dele, uma mensagem, qualquer coisa. Mas o celular permaneceu em silêncio. Os minutos se estenderam em horas.
Finalmente, pouco antes do jantar, o nome dele piscou na tela.
— Catarina, oi. Então, sobre hoje à noite... Bianca está fazendo uma pequena celebração com alguns amigos. Pela ansiedade dela estar melhor. Eu realmente não posso faltar. — A voz dele era apologética, mas eu podia ouvir a excitação subjacente. Uma celebração pela ansiedade dela. Meu aniversário. O contraste foi um soco no estômago.
— Ah — eu disse, minha voz mal passando de um sussurro. — Posso... posso ir? — As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las. Um apelo desesperado para ser incluída, para ver por mim mesma.
Uma pausa. Um silêncio longo e constrangedor que falava muito. Eu podia praticamente ouvi-lo pesando suas opções, calculando o dano.
— Hum... Catarina, é só uma coisa pequena e íntima. Sabe, para os amigos próximos da Bianca. Realmente não é... a sua praia. — Ele tropeçou nas palavras, claramente desconfortável.
Meu coração afundou. Minha pergunta tinha sido um teste. E ele tinha falhado. Espetacularmente. Essa não era uma escolha que ele estava fazendo por mim, era uma escolha que ele estava fazendo contra mim.
— Não, tudo bem — interceptei rapidamente, tentando salvá-lo, salvar a nós dois do constrangimento. — Você vai. Eu vou apenas... pedir serviço de quarto. — A mentira parecia pesada na minha língua. O autossacrifício parecia uma sentença de morte.
Um suspiro longo e prolongado de alívio escapou dele. — Graças a Deus. Ok. Passo aí para te pegar em uma hora. Vamos comer alguma coisa antes. — O alívio na voz dele era palpável. Ele nem tentou esconder.
Quando ele chegou, era o mesmo charme ensaiado, os mesmos olhos distantes. Ele me levou a um pub movimentado, o tipo de lugar que você vai quando não quer ter uma conversa real. O ar estava denso com música alta e risadas forçadas.
Então, lá estava ela. Bianca.
Ela era exatamente como eu imaginara: esbelta, com olhos arregalados e inocentes e uma cascata de cabelos loiros. Usava um vestido delicado que a fazia parecer frágil, como uma boneca de porcelana. Sua risada era leve, tilintante, atraindo toda a atenção para ela. Os amigos de Gabriel, que eu mal conhecia, me cumprimentaram com sorrisos rígidos e silêncios estranhos. O ar ao redor deles estava denso com um conhecimento que eu não possuía, um segredo do qual todos eram cúmplices.
— Catarina! Ai meu Deus, você é a Catarina Hicks! — Bianca exclamou, correndo para frente, os braços abertos para um abraço. A voz dela era pura sacarina, pingando falsa inocência. — É tão bom finalmente te conhecer! Gabriel fala de você o tempo todo. — Ela me puxou para um abraço que foi apertado demais, longo demais. O perfume dela, doce e enjoativo, grudou em mim.
— Oi, Bianca — consegui dizer, minha voz tensa.
Gabriel, vendo minha postura rígida, interveio rapidamente. — Bianca, não seja boba. Essa é a Catarina. Minha namorada. — As palavras dele foram firmes, mas seus olhos disparavam nervosamente entre nós. Ele colocou um braço em volta da minha cintura, um gesto possessivo que parecia vazio. Era tudo para o show.
Mas Bianca simplesmente fez bico. — Ah, sinto muito! Eu só ouço falar tanto da Catarina, sinto que já somos família. — Ela riu, um som que ralou meus nervos. Então, para meu horror, ela deu um tapa brincalhão no braço de Gabriel. — Não é verdade, Gabriel? Você sempre diz que sou como sua irmãzinha!
Gabriel gaguejou, pego de surpresa. — Hum, é, algo assim. — Ele me deu um sorriso tenso, tentando amenizar as coisas. Mas o estrago estava feito. A maneira como ela o tocou, a brincadeira íntima, a história compartilhada em seus olhos quando ele olhava para ela... Estava tudo claro demais.
O olhar dele, toda a sua atenção, gravitava em direção a ela. Como uma mariposa para a chama. Ele ria das piadas dela, os olhos enrugando nos cantos de uma maneira que não faziam para mim há meses. Ele a corrigia gentilmente quando ela falava errado, a voz suave, quase terna. Eu assisti, uma observadora silenciosa, enquanto meu mundo desmoronava ao meu redor. Eu era invisível. Um fantasma na minha própria celebração de aniversário.
Comi em silêncio, cutucando minha comida, os sabores insossos e sem gosto. Cada olhar, cada palavra sussurrada trocada entre eles, era uma faca girando no meu coração. Não foi para isso que vim. Isso não era amor. Isso era uma morte lenta e agonizante.
Mais tarde, de volta ao hotel, Gabriel perguntou: — Você está bem? Não comeu muito no jantar. A comida daqui não é do seu gosto? — Ele tentou parecer preocupado, mas seus olhos já estavam em outro lugar, indo para o celular.
— Não, está tudo bem — menti, minha voz plana. — Só um pouco de jet lag. E a comida era um pouco... pesada para o meu estômago. — Uma desculpa conveniente, uma que ele não questionaria.
Ele apenas assentiu, satisfeito. Ele não insistiu. Ele realmente não se importava. Ele só queria seguir em frente. Pegou o celular, o rosto se iluminando enquanto digitava furiosamente. Um sorriso floresceu em seus lábios, um sorriso genuíno e não forçado. O tipo que eu costumava receber. Ele provavelmente estava mandando mensagem para Bianca. Ou talvez estivesse ligando para ela. A profundidade da conexão deles, a facilidade da comunicação, era um abismo que eu não conseguia cruzar.
Ele foi para o banheiro tomar banho. O celular dele, deixado descuidadamente na mesa de cabeceira, vibrava implacavelmente. Notificações de um aplicativo de bate-papo piscavam na tela. Meu coração batia forte. Eu não devia. Eu realmente não devia. Mas eu precisava saber. Eu tinha que saber. A engenheira lógica em mim exigia dados. A parte quebrada de mim ansiava por provas inegáveis, mesmo que isso me destruísse.
Meus dedos tremiam quando alcancei o aparelho. Hesitei, minha consciência guerreando com meu desespero. Então, uma nova mensagem piscou. Bianca. Um emoji de coração.
Foi isso. Minha determinação desmoronou.
Peguei o celular. A tela de bloqueio era uma foto nossa, um sorriso forçado no rosto dele, mas seus olhos estavam distantes mesmo naquela época. Tentei nossa data de aniversário. Incorreto. Meu aniversário. Incorreto. Meu estômago despencou. Tentei o aniversário de Bianca.
A tela desbloqueou.
Você pode gostar





