
Noivado Rompido, Fuga para Berlim
Capítulo 3
A tela iluminada do celular de Gabriel queimou minha retina. O aniversário de Bianca. O mundo girou. Meu aniversário tinha sido irrelevante, esquecido. O dela era a chave.
Meus dedos, frios e dormentes, navegaram para o aplicativo de mensagens. A enxurrada de mensagens entre eles confirmou meus piores medos. Não era recente. Não era uma indiscrição passageira. Era um ano. Um ano inteiro de conversas secretas, encontros escondidos e intimidade emocional que lenta e insidiosamente me substituíram.
As trocas começaram inocentemente, reclamações triviais sobre a universidade, piadas compartilhadas sobre professores. Mas com o tempo, o tom mudou. O casual "como você está" se transformou em "bom dia, raio de sol" e "durma bem, meu amor". Eles tinham um tesouro de piadas internas, memes bobos e emojis personalizados que faziam meu estômago revirar. Ele até salvava os GIFs de reação ridículos e exagerados dela.
"Esse novo lugar italiano parece incrível", Bianca tinha mandado, seguido de um link. "Devíamos experimentar neste fim de semana! Por minha conta."
A resposta de Gabriel: "Parece perfeito. Mal posso esperar."
Uma semana depois, fotos deles naquele mesmo restaurante, rindo sobre massas, apareceram no histórico de bate-papo. Ele tinha me dito que estava "estudando até tarde na biblioteca" naquele fim de semana.
E então havia os marcos turísticos. A London Eye, o Museu Britânico, a Torre de Londres. Todos os lugares que ele prometeu me levar quando eu finalmente chegasse. Fotos deles, lado a lado, radiantes, apareciam em suas conversas, acompanhadas de legendas como "Criando memórias!" e "Melhor dia de todos com minha pessoa favorita". Ele tinha me enviado fotos dos mesmos lugares, mas apenas da paisagem, me dizendo que tinha ido sozinho para "esvaziar a cabeça". A mentira era tão cuidadosa, tão deliberada.
Mesmo quando a carga de trabalho acadêmica dele se tornou esmagadora, as mensagens entre eles nunca pararam. "Durma bem, B", ele mandava à meia-noite. "Você também, G", ela respondia quase instantaneamente. As mensagens diárias de "boa noite", aquelas que um dia foram exclusivamente nossas, tinham sido redirecionadas para ela. Eu não recebia uma há meses, ignorando como ele estando "muito ocupado" ou "muito cansado".
Um clique repentino da porta do banheiro me assustou. Gabriel saiu do banho. Bloqueei rapidamente o celular e o coloquei de volta na mesa de cabeceira, minhas mãos tremendo. Ele emergiu, toalha enrolada na cintura, olhos ainda nebulosos com o vapor. Ele deu uma olhada no meu rosto, meus olhos provavelmente inchados e vermelhos, e seu comportamento casual evaporou.
— Catarina, o que houve? Você está chorando? — A voz dele estava carregada de algo que parecia preocupação genuína, mas eu sabia a verdade agora.
Limpei rapidamente os olhos, forçando um sorriso trêmulo. — Só... senti tanto a sua falta, Gabriel. Estar aqui, finalmente, depois de todo esse tempo... — A mentira veio fácil, um caminho desgastado de autoengano. Era mais fácil do que contar a verdade. Mais fácil do que lidar com o confronto inevitável.
Ele me puxou para um abraço, a pele molhada fria contra a minha. — Ah, Catarina — ele murmurou, acariciando meu cabelo. — Senti sua falta também. Prometo compensar você. Vou tirar alguns dias de folga, vamos explorar Londres, exatamente como sempre planejamos. — Ele parecia sincero. E por um segundo fugaz, uma parte estúpida e desesperada de mim quis acreditar nele.
— Lembra daquele pequeno café que dissemos que iríamos, aquele com os melhores scones? — ele relembrou, a voz cheia de uma nostalgia que parecia uma piada cruel. — E a galeria de arte que você sempre quis visitar?
Meu coração apertou. Aquela lista. Nossa lista. Lugares que juramos ver juntos. — Sim — sussurrei, a palavra presa na garganta. — Vamos. Amanhã. Em tudo. — Olhei para ele, encontrando seus olhos, um desafio não dito nos meus.
O sorriso dele falhou. O corpo dele endureceu quase imperceptivelmente. — Hum... amanhã? Eu já fiz planos... com a Bianca. Nós íamos... — Ele parou, preso em sua própria teia.
Eu apenas o encarei. Meu olhar era firme, inabalável. Sem raiva. Sem lágrimas. Apenas uma avaliação fria e dura. O silêncio pairava pesado, sufocante. Ele se contorceu sob meu olhar, os olhos correndo pelo quarto, em qualquer lugar, menos nos meus.
Finalmente, ele exalou, um suspiro longo e derrotado. — Tudo bem — ele cedeu, a voz relutante. — Amanhã. Só nós.
Na manhã seguinte, notei que a pulseira de prata havia sumido. Um pequeno lampejo de algo parecido com esperança, ou talvez apenas uma curiosidade mórbida, acendeu dentro de mim. Ele realmente a tirou? Havia uma chance?
Chegamos ao pequeno café charmoso, aquele que sonhávamos visitar. O ar estava quente, cheio do cheiro de doces frescos e café. Pedimos nossos scones e, por um momento, pareceu os velhos tempos. Uma normalidade frágil e fabricada.
Então, o sino da porta do café tocou. Meu sangue gelou.
Bianca.
Ela entrou, os olhos inocentes examinando o local, pousando em nós. Um sorriso brilhante e artificial iluminou seu rosto. — Gabriel! Catarina! Que surpresa! — Ela praticamente saltitou em direção à nossa mesa. — Eu estava na vizinhança, pensei em pegar um café antes da aula.
Gabriel parecia um cervo pego pelos faróis. O rosto dele perdeu a cor. — Bianca! O que você está fazendo aqui? — A voz dele era um sussurro frenético.
— Ah, Gabriel, você esqueceu! — Bianca fez bico, cutucando o braço dele de brincadeira. — Você me contou sobre este lugar, lembra? Disse que tinha os melhores scones de Londres. Disse que tínhamos que experimentar juntos. — Ela se virou para mim, o sorriso inabalável. — Mas é tão doce da sua parte vir com a Catarina! Você é um namorado tão bom, Gabriel. Catarina, você não se importa se eu me juntar a vocês, não é? Gabriel disse que você queria ver toda Londres, e eu adoraria te mostrar meus lugares favoritos.
Gabriel interveio rapidamente, tentando amenizar as coisas. — Bianca é apenas... ela é muito boa em planejar, Catarina. Ela achou que seria legal você ter uma guia local. — Ele me ofereceu um olhar desesperado e suplicante.
Eu apenas sorri. Um sorriso quebradiço e insensível. — Claro que não, Bianca. Quanto mais, melhor. — Minha voz estava uniforme, calma. Uma calma arrepiante. Por dentro, eu estava gritando.
Bianca, alheia ou simplesmente indiferente, deslizou para o assento ao lado de Gabriel, efetivamente me encurralando contra a parede. Ela conversava animadamente, nos presenteando com histórias de seus lugares favoritos em Londres, a voz um fluxo implacável de entusiasmo superficial. Ela até pediu meu Instagram, me adicionando com um floreio.
Gabriel, enquanto isso, era uma pilha de nervos, os olhos constantemente disparando entre nós. Ele tentava conduzir a conversa, torná-la sobre mim, mas Bianca facilmente a redirecionava de volta para si mesma, para eles.
Em um ponto, Gabriel se levantou para comprar mais café para nós. Bianca se inclinou para mais perto de mim, a voz caindo para um sussurro baixo e conspiratório. — Sabe, Catarina — ela começou, um brilho predatório em seus olhos inocentes — Gabriel está tão estressado com os estudos. Ele precisa de alguém calmo, alguém que entenda as necessidades dele. Não alguém que aumente as preocupações dele. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras penetrarem. — Ele só quer ser feliz. Você não acha que ele merece isso?
Meu sangue gelou. Isso não era sobre café. Isso era uma declaração territorial.
Encontrei o olhar dela, meus próprios olhos frios e firmes. — Felicidade é uma escolha, Bianca — eu disse, minha voz mal passando de um sussurro. — E lealdade também. — Fiz uma pausa, depois acrescentei: — Aquela pulseira, a de prata que você deu a ele? Aquela que vocês dois compraram para o aniversário de seis meses? É um design adorável. Você sabia que simboliza um vínculo inquebrável em algumas culturas? — Observei o rosto dela, um horror lento e crescente se espalhando por ele.
Os olhos dela se arregalaram. Ela olhou para mim, a boca ligeiramente aberta. — Do que você está falando? É apenas um presente de agradecimento! Vocês brasileiros são tão estranhos com suas diferenças culturais! — Ela tentou rir, mas foi um som tenso e desesperado.
Eu apenas sorri, um sorriso doce e inocente que não alcançou meus olhos. — Ah, é isso que é? Erro meu. Eu apenas presumi, porque... bem, Gabriel jogou a dele fora esta manhã. Disse que estava atrapalhando o trabalho dele. — Observei-a, a mentira uma arma afiada na minha mão.
O rosto de Bianca, já pálido, ficou cinza. Sua fachada cuidadosamente construída desmoronou. Nesse momento, Gabriel voltou, dois cafés na mão.
— O que está acontecendo? — ele perguntou, sentindo a tensão.
Bianca olhou para ele, puro veneno nos olhos. — Você jogou fora? Você realmente jogou fora a pulseira que eu te dei? — A voz dela era um sussurro sufocado, subindo em acusação. — Depois de tudo... você simplesmente jogou fora? — Lágrimas brotaram em seus olhos, e ela passou por ele, correndo para fora do café, um soluço de coração partido ecoando atrás dela.
Gabriel ficou lá, estupefato, os cafés balançando em suas mãos. — O quê? O que aconteceu? Catarina, o que você disse a ela? — Ele olhou para mim, perplexo, como se eu tivesse todas as respostas.
— Eu apenas disse a verdade a ela, Gabriel — eu disse, minha voz assustadoramente calma. — Que você jogou a pulseira dela fora.
O rosto dele registrou choque, depois um horror crescente. — Eu não joguei! Por que você diria isso? — Ele rapidamente largou os cafés e correu atrás de Bianca, desaparecendo na esquina.
Ele nem olhou para trás. Não perguntou se eu estava bem. Ele apenas correu para ela. Meu peito doeu, uma dor profunda e oca. Era isso. O golpe final. Ele a tinha escolhido. De novo.
Fiquei sentada lá, sozinha, o café morno esfriando, o cheiro doce dos scones ficando amargo. O anel de noivado, ainda no meu bolso, parecia um peso de chumbo. Caminhei de volta para o hotel, as luzes da cidade borrando através das minhas lágrimas não derramadas. Quando cheguei ao meu quarto, percebi que não tinha meu cartão-chave. Estava na jaqueta de Gabriel, que ele tinha colocado tão casualmente sobre mim, e que eu tinha devolvido a ele.
Sentei no corredor frio do lado de fora do meu quarto de hotel, esperando. E esperando. As horas se arrastaram, lentas e agonizantes. Meia-noite chegou. Depois uma. Duas. Ele nunca voltou.
Meu celular vibrou. Uma notificação do Instagram. Bianca. Uma nova postagem. Uma foto dela, aninhada ao lado de Gabriel, o braço dele em volta dela. A cabeça dela descansava no ombro dele, um sorriso triunfante no rosto. A legenda: "Tão feliz por ter você ao meu lado. Algumas pessoas simplesmente não entendem o que é amor verdadeiro."
Meu coração não apenas se partiu. Ele se desintegrou.
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