
Noiva Abandonada, Ilusão Despedaçada
Capítulo 2
Juliana olhou para Davi, sua expressão indecifrável. Ela sempre fora a que estava no controle, a patrona, a mulher poderosa que construiu a carreira dele do nada. Ele estava acostumado com seus humores, mas essa calma era nova. Era desconcertante.
"Sim", disse ela, com a voz neutra. "Eu ouvi."
Ela tomou um gole lento de seu vinho, seus olhos nunca deixando os dele.
"Foi só conversa, Juliana", disse ele, tirando o casaco e jogando-o em uma cadeira. Era um gesto familiar e casual que ele havia feito mil vezes naquele apartamento. "A Carla fica emotiva. Você sabe como ela é."
Ele foi até o bar, seus movimentos relaxados. Ele pensou que este era mais um de seus testes, um momento de drama antes do casamento. Ele pensou que ela estava fazendo joguinhos, fazendo beicinho. Ele se serviu de um uísque, o gelo tilintando contra o copo.
"Eu acalmei as coisas. Está tudo bem", disse ele, virando-se para ela. "Nós ainda vamos nos casar amanhã."
"Não, não vamos", respondeu ela.
Ele finalmente pareceu registrar a seriedade em seu tom. Ele se aproximou dela, a testa franzida. "O que você quer dizer? Não seja assim, Juliana. É a noite antes do nosso casamento."
Ele estendeu a mão para ela, um movimento que geralmente a acalmava. Ela se encolheu ao seu toque. Foi um movimento pequeno, mas foi tão definitivo quanto uma porta batendo.
Ele parou, a mão pairando no ar. "O que há de errado com você?"
"Não quero que você durma aqui esta noite", disse ela, levantando-se. "Você pode usar o quarto de hóspedes."
Ele a encarou, completamente perplexo. Em seus quatro anos juntos, ela nunca lhe negara sua cama. Ela era possessiva, exigindo sua presença todas as noites. Era parte do acordo deles.
"O quarto de hóspedes?" ele repetiu, um toque de incredulidade em sua voz. "Você está falando sério?"
"Você não disse à sua família que se sentia controlado?" ela perguntou, sua voz tingida com uma ironia fina e afiada. "Que estar comigo era como estar em uma gaiola dourada? Considere isso um momento de liberdade."
Seu rosto endureceu. Ele sentiu uma onda familiar de ressentimento. Ele odiava quando ela jogava suas próprias palavras de volta para ele. Odiava que ela sempre parecesse saber o que ele estava pensando.
"Tudo bem", disse ele, com a voz fria. Ele se virou e caminhou em direção ao quarto de hóspedes sem outra palavra. Ele ainda acreditava que esta era uma tempestade temporária, que pela manhã, ela voltaria ao seu eu habitual e apegado.
Juliana o observou ir. Pela primeira vez, sentiu uma sensação de libertação.
Na manhã seguinte, Juliana estava de pé antes do sol. Ela se vestiu com um tailleur simples e elegante, um contraste gritante com o elaborado vestido de noiva pendurado em seu armário.
O mordomo a informou que Davi havia saído há uma hora.
"Ele disse para onde ia, Roberto?" ela perguntou.
"Não, Srta. Lacerda. Ele apenas saiu."
"Ótimo", disse ela. "Não vamos esperar por ele."
Ela passou a manhã no cartório, finalizando a mudança de seu nome de volta para Lacerda em todos os documentos oficiais e atualizando seu passaporte. Era uma tarefa pequena e administrativa, mas parecia monumental. Era o primeiro passo para recuperar sua vida.
Depois, ela foi a um pequeno café na Vila Madalena, um lugar que Caio amava. Sentou-se perto da janela, saboreando seu café, observando a cidade acordar. Sentiu uma estranha sensação de paz.
E então ela o viu.
Davi estava andando pela rua, e não estava sozinho. Carla estava com ele, o braço entrelaçado no dele. Eles estavam rindo, suas cabeças próximas.
Ele parou em uma barraca de feira e comprou um pastel, partindo-o ao meio e dando um pedaço para Carla. Ele sabia que ela gostava com bastante recheio. Ele então limpou uma mancha de vinagrete do canto da boca dela com o polegar, um gesto tão natural e terno que fez o peito de Juliana doer.
Eles olharam vitrines, apontando para coisas nas lojas, parecendo qualquer outro casal apaixonado em uma manhã de sábado. Ele não era o artista ressentido e conflituoso que era com ela. Ele estava relaxado, feliz e completamente ele mesmo.
Com ela, ele estava sempre atuando, sempre fazendo o papel do protegido grato. Ele era um eco belo e oco do homem que ela havia perdido. Mas com Carla, ele era real.
Juliana os observou, uma profunda compreensão se instalando dentro dela. Ela viu o abismo entre ser amada e ser tolerada. Era uma lacuna que todo o dinheiro do mundo não poderia preencher.
Ela finalmente entendeu. Ele nunca tinha sido dela. Ele apenas estava pegando emprestada uma vida que ela havia pago, e agora o contrato de aluguel havia acabado.
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