
"No Limite da Sedução e do Medo"
Capítulo 3
O tempo parecia ter parado desde que Astaroth estendeu a mão. Selene a encarava, imóvel, como se sua alma estivesse sendo puxada em direções opostas - uma, tentando protegê-la, a outra, implorando para se perder nele.
- Está hesitante - disse Astaroth, sua voz aveludada cortando o silêncio. - Gosto disso. Significa que ainda resta algo em você que luta... mas por quanto tempo?
Selene respirou fundo, reunindo forças que ela não sabia que ainda possuía.
- Isso não é um jogo, Astaroth. Eu não sou uma peça para você manipular. Não vim buscar isso.
- Ah, minha doce Selene... - ele respondeu, com um sorriso que dançava entre o afeto e a malícia - ninguém vem buscar o que encontra no abismo. Mas uma vez que você o encara... ele devolve o olhar. E o que vê, jamais será esquecido.
Ela fechou os olhos por um instante. O cheiro dele a envolvia, quente e inebriante, como incenso proibido. A sensação era perigosa... viciante. Quando abriu os olhos, ele ainda estava ali - real, tangível, esperando.
- Eu não confio em você - ela murmurou.
- Nem deveria - ele respondeu, aproximando-se a um passo. - Sou a personificação da tentação. Um anjo caído que aprendeu a amar o desejo tanto quanto odeia o céu. Mas posso fazer você sentir... coisas que ninguém mais pode.
- Por que eu? - Selene perguntou novamente, sua voz quase quebrando. - Dentre tantas almas... por que escolher justo a minha?
Astaroth a observou por alguns segundos. Pela primeira vez, sua expressão perdeu um pouco da arrogância sedutora e se tornou mais... introspectiva.
- Porque você tem o dom raro de ver a beleza na escuridão. Porque há dor em seus olhos... e fome em seu coração. Você deseja algo que a maioria nega até para si mesma. Liberdade. Intimidade verdadeira. Entrega sem máscaras.
- Isso não é justo. - Selene desviou o olhar. - Você fala como se me conhecesse mais do que eu mesma.
- Talvez eu conheça. - Ele ergueu a mão, não para tocá-la, mas para deixá-la perto o suficiente de seu rosto, fazendo com que sentisse o calor irradiando. - Você passou a vida tentando se encaixar, apagando sua intensidade para não assustar os outros. Mas aqui... comigo... você pode ser inteira.
Selene mordeu o lábio, o corpo tremendo não só de medo, mas de excitação e dúvida. Aquilo era loucura. Era perigoso. E mesmo assim, uma parte dela gritava para que dissesse "sim".
- E se eu me render? - sussurrou. - O que acontece comigo?
Astaroth inclinou-se, os lábios quase roçando os dela. Sua respiração era quente, e cada sílaba saiu como uma carícia:
- Você vive. Finalmente... vive. Sem correntes, sem mentiras, sem limites. Eu não prometo salvação, Selene. Prometo intensidade. Verdade. Prazer. Mas também dor. O tipo de dor que desperta... e não destrói.
Por um segundo, tudo ficou em silêncio. Nenhum som lá fora. Nenhum pensamento claro em sua mente. Só aquele momento entre o sim e o não. Entre a luz e a escuridão.
Selene ergueu os olhos, encostando os dedos nos de Astaroth, sem ainda segurá-los.
- E se eu mudar de ideia? - perguntou.
- Então você aprenderá que o desejo, quando tocado, não se desfaz... ele se transforma. Mas nunca desaparece.
Ela fechou os dedos, envolvendo os dele.
- Então me mostre... quem você é de verdade.
Astaroth sorriu, e naquele sorriso havia algo mais profundo. Não apenas luxúria. Havia respeito. Admiração. E, talvez, algo mais perigoso ainda... afeto.
- Com prazer, Selene.
Ao toque das mãos, uma onda de energia percorreu o corpo dela. As velas tremeram, e o ar da sala se aqueceu num segundo. Imagens passaram por sua mente - visões de lugares desconhecidos, mundos em chamas, memórias que não eram suas. Era como ser atravessada por mil existências ao mesmo tempo.
Ela caiu de joelhos, ofegante, sentindo o chão girar.
Astaroth ajoelhou-se à sua frente, colocando a mão em sua nuca, sustentando-a com cuidado.
- Calma... isso é só o começo. Está sentindo o peso da verdade. Não é leve, eu sei.
- O que você fez comigo? - ela sussurrou.
- Abri seus olhos. Agora você verá o mundo como ele realmente é.
Selene ergueu o rosto lentamente, e ao olhar para ele, já não era mais a mesma. Algo dentro dela havia sido despertado. Algo que não poderia mais ser esquecido.
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