
No Altar da Traição
Capítulo 2
O salão de festas estava decorado de forma simples, mas com o cuidado de quem depositou ali todos os seus sonhos.
Ricardo olhava para o altar, o coração batendo forte, não de nervosismo, mas de pura felicidade.
Ao lado dele, Juliana, sua noiva, parecia uma princesa em seu vestido branco barato, mas que para ele era o mais lindo do mundo.
Por anos, Ricardo trabalhou em dois empregos para sustentar não apenas a si mesmo, mas toda a família de Juliana.
O pai dela, o Sr. Carlos, um homem que vivia de bicos e mais tempo bêbado do que sóbrio, a mãe doente, os irmãos mais novos que precisavam de material escolar.
Ricardo nunca se importou, ele fazia tudo por amor a Juliana.
O padre começou a cerimônia, sua voz ecoando pelo salão modestamente preenchido por amigos e familiares.
"Estamos aqui hoje reunidos para celebrar a união de Ricardo e Juliana..."
As palavras eram música para os ouvidos de Ricardo.
Ele se virou para sorrir para Juliana, mas o sorriso dela não estava ali.
Ela olhava fixamente para a porta do salão.
De repente, as portas duplas se abriram com um baque surdo.
A música parou.
Todos os convidados se viraram.
Um homem alto, vestindo um terno caro que brilhava sob as luzes fracas, entrou no salão.
Seu sorriso era arrogante, seus sapatos italianos faziam um som caro no piso de cerâmica barata.
Ricardo não o conhecia.
"Marcelo!", a voz de Juliana soou como um sussurro surpreso e feliz.
Para o choque de Ricardo e de todos os presentes, Juliana levantou a barra de seu vestido e desceu os degraus do pequeno altar.
Ela caminhou, quase correu, em direção ao homem.
Ela o abraçou na frente de todos, um abraço que não era de um amigo.
Ricardo ficou paralisado no altar, o sorriso congelado em seu rosto, agora parecendo uma máscara patética.
O padre pigarreou, sem saber o que fazer.
"Juliana, o que está acontecendo?", Ricardo finalmente conseguiu perguntar, a voz fraca.
Juliana se soltou de Marcelo e se virou para Ricardo, seu rosto agora era uma máscara de desdém.
"Ricardo, me desculpe, mas eu não posso fazer isso."
Ela disse as palavras em voz alta, para que todos ouvissem.
"Eu não posso me casar com você."
O murmúrio entre os convidados aumentou, se transformando em um zumbido de fofocas e risos abafados.
Marcelo colocou um braço possessivo ao redor da cintura de Juliana e a puxou para perto.
Ele olhou para Ricardo de cima a baixo, com um desprezo óbvio.
"Você realmente achou que ela se casaria com um Zé Ninguém como você?", Marcelo disse, sua voz cheia de zombaria.
O rosto de Ricardo ficou pálido.
A humilhação era uma onda física, quente e sufocante.
Ele olhou para a família de Juliana.
O Sr. Carlos, que estava sentado na primeira fila, apenas deu de ombros e tomou um grande gole de uma garrafa que tinha escondido.
Os outros parentes, tios e primos que Ricardo ajudou tantas vezes, agora o olhavam com pena e um pouco de desprezo.
Eles pareciam saber o que estava acontecendo.
Ricardo sentiu-se como um palhaço no seu próprio circo.
Seu coração, que momentos antes estava cheio de felicidade, agora parecia um buraco vazio e frio em seu peito.
Ele não conseguia sentir nada além de um zumbido nos ouvidos e o peso dos olhares de todos.
Tudo pelo que ele trabalhou, todos os sacrifícios, tudo desmoronou em um único instante de traição pública.
Ele permaneceu ali, em pé no altar, sozinho, enquanto sua noiva anunciava ao mundo que o estava trocando por um homem mais rico.
A dor era tão intensa que parecia irreal.
Ele apenas observava a cena, como se estivesse assistindo a um filme ruim sobre a sua própria vida.
A passividade dele era quase assustadora.
Ele não gritou, não chorou, não implorou.
Ele apenas aceitou o golpe, o corpo imóvel, a mente em branco.
O casamento havia acabado antes mesmo de começar.
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