
No Altar da Traição
Capítulo 3
Ricardo desceu lentamente os degraus do altar.
Seus movimentos eram calmos, deliberados.
Ele não olhou para Juliana ou Marcelo.
Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer no final do salão.
Essa calma inesperada incomodou Juliana.
Ela esperava gritos, acusações, um escândalo.
A reação contida dele era um anticlímax que a deixava desconfortável.
"Ricardo, eu...", ela começou a dizer, com uma falsa expressão de arrependimento.
"Não diga nada, Juliana", ele a interrompeu, a voz baixa, mas firme. "Está tudo bem."
Marcelo riu, um som desagradável e arrogante.
"Claro que está tudo bem. Ele finalmente entendeu o lugar dele."
Juliana, querendo encerrar o assunto e talvez aliviar uma pontada de culpa, abriu sua bolsa.
Ela tirou um pequeno maço de notas e estendeu na direção de Ricardo.
"Tome. É para... compensar pelo seu tempo. Pelos gastos com essa festa ridícula."
A oferta era um insulto tão grande, tão cruel, que um silêncio chocado caiu sobre o salão por um segundo.
Até mesmo os parentes fofoqueiros de Juliana pareceram constrangidos.
Ricardo olhou para o dinheiro na mão dela e depois para o rosto dela.
Pela primeira vez, uma emoção brilhou em seus olhos: não era dor, mas uma espécie de clareza fria.
Ele não pegou o dinheiro.
Ele simplesmente balançou a cabeça lentamente.
Dentro de sua mente, um segredo recente começou a pulsar.
Há algumas semanas, um casal elegante bateu à sua porta.
Eles eram seus pais biológicos.
Roubado na maternidade e criado em um orfanato, Ricardo nunca soube de suas origens.
Seus pais, uma das famílias mais ricas e influentes do país, nunca pararam de procurá-lo.
Eles o encontraram.
Eles lhe contaram a verdade, mostraram fotos, documentos, um teste de DNA incontestável.
Eles pediram que ele voltasse para casa, para assumir seu lugar como herdeiro de um império.
Ricardo ficou chocado, confuso.
Ele pediu um tempo.
Ele queria se casar com Juliana primeiro, queria contar a ela de uma forma especial, queria que ela o amasse por quem ele era, não pelo que ele tinha.
Ele queria ter certeza de que o amor dela era real.
Agora, ele tinha sua resposta.
A ironia era brutal.
Enquanto Juliana o humilhava por ser pobre, ele era, na verdade, infinitamente mais rico do que Marcelo jamais sonharia ser.
Essa revelação interna deu a Ricardo uma força que ele não sabia que possuía.
A dor da traição ainda estava lá, mas estava sendo coberta por uma camada de gelo.
"Não, obrigado, Juliana", disse ele, a voz ainda calma. "Pode ficar com o dinheiro. Você vai precisar mais do que eu."
Ele se virou para a família dela.
Ele olhou para o Sr. Carlos, que o encarava com olhos gananciosos, provavelmente calculando quanto poderia tirar de Marcelo.
Ele olhou para os tios e primos, cujos sorrisos zombeteiros agora pareciam patéticos.
Ele sentiu o nó que o prendia a essas pessoas se desfazer.
Não havia mais obrigação, não havia mais amor, não havia mais nada.
Ele estava livre.
"Eu desejo a vocês... tudo o que vocês merecem", disse Ricardo, e havia um peso em suas palavras que ninguém ali, exceto ele, conseguia entender.
Ele se virou e começou a caminhar em direção à saída, de costas para o altar desfeito, para a noiva traidora e para a vida que ele pensava que queria.
O Ricardo que entrou naquele salão, o jovem humilde e apaixonado, estava morrendo.
O Ricardo que saía era outra pessoa, alguém forjado no fogo da humilhação, com uma nova e poderosa realidade esperando por ele do lado de fora.
Ele não olhou para trás.
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