
Nem Uma Palavra Sobre Mim
Capítulo 3
A minha mãe, Sofia, olhou para mim com os olhos semicerrados. Ela conhecia-me demasiado bem.
"Ele não pareceu muito preocupado na mensagem que te deixou."
Ela tinha visto. Claro que tinha.
Senti um nó na garganta.
"Mãe, ele pediu-me para levar o carro à oficina porque o gato da Cláudia foi atropelado."
A minha mãe franziu a testa.
"O gato da Cláudia? E por causa disso ele não podia ir contigo?"
Assenti em silêncio.
"E agora ele está com ela no veterinário?"
Assenti novamente. As lágrimas que eu estava a segurar começaram a escorrer pelo meu rosto.
A minha mãe não disse nada. Apenas se levantou, veio até à cama e limpou as minhas lágrimas com o polegar. O seu toque era gentil.
"Oh, minha filha."
Nesse momento, o telemóvel dela tocou.
Ela olhou para o ecrã. Era a mãe do Pedro, a minha sogra, a Dona Elvira.
A minha mãe hesitou, depois atendeu, pondo em alta-voz.
A voz estridente da Elvira encheu o quarto silencioso.
"Sofia! O que é que a tua filha fez desta vez? O meu Pedro ligou-me, muito perturbado! Ela quer o divórcio só porque ele foi um bom amigo para a pobre da Cláudia? Que tipo de mulher é essa?"
Pobre da Cláudia.
Eu estava num hospital com um braço partido, mas a vítima era a Cláudia.
A minha mãe respirou fundo, a sua calma a contrastar com a histeria da Elvira.
"Elvira, a Inês sofreu um acidente de carro. Ela está no hospital."
Houve uma pequena pausa.
"Um acidente? Bem, isso é lamentável. Mas não é desculpa para ser tão insensível. O Pedro também está a passar por um momento stressante! A Cláudia é como uma filha para ele, tu sabes disso. A Inês devia ser mais compreensiva."
Eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir.
A minha mãe, no entanto, manteve a sua compostura.
"Compreensiva? A minha filha podia ter morrido, Elvira. O carro capotou. Ela tem sorte em estar viva."
"Exageros! Vocês mulheres são sempre tão dramáticas. O importante é que ela está bem. Agora, diz à tua filha para parar com esta tolice de divórcio e para pedir desculpa ao meu filho por lhe causar mais stress."
E com isso, a Elvira desligou.
Ficámos em silêncio por um longo momento.
O mundo parecia surreal.
Eu era a vilã da história. Por ter quase morrido. Por esperar que o meu marido se importasse.
"Mãe," sussurrei. "Eu quero mesmo o divórcio."
Ela olhou para mim, os seus olhos cheios de uma tristeza que espelhava a minha.
"Eu sei, querida. E eu vou ajudar-te."
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