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Capa do romance Nas Amarras do Sheik

Nas Amarras do Sheik

Natasha afirma categoricamente que não há lugar para um homem em sua vida, mas sua convicção é testada por um sheik sedutor. Com um toque sutil e carregado de intimidade, ele desafia sua resistência, sussurrando que bastaria apenas uma noite para transformar seus sentimentos. Diante da promessa audaciosa que a deixa sem fôlego e sem palavras, ela não consegue reagir a tempo. Antes que Natasha encontre uma resposta, ele desaparece na escuridão.
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Capítulo 2

Para alívio pessoal dos conselheiros de Kazim, não havia nenhuma loura à vista quando os convidados de Dom começaram a chegar a Serenata Place, naquela sexta-feira. A noiva revelou-se uma ruiva adorável.

— Síndrome do casarão — disse Dom afetuosamente, enquanto ela subia as escadas para se

trocar.

— Como assim?

— Izzy entrou em parafuso quando a levei à minha casa para conhecer meus pais. Agora qualquer coisa que pareça com o retrato de um ancestral a faz ficar nervosa.

Um decorador especializado nos anos 20 tinha coberto as paredes do saguão de entrada de Serenata Place o com gravuras de caçadas vitorianas. Kazim olhou para a gravura mais próxima, com homens gordos de rostos vermelhos, cavalgando pelas montanhas.

— Eles não são meus ancestrais — disse ele, indignado.

Dom sorriu.

— Vou dizer isso a ela. Devo acalmá-la.

Kazim, recebendo telefonemas freqüentes de um nervoso oficial de segurança, não teve muito tempo para fazer social naquela noite. Mas até para ele era óbvio que a ruiva Izzy ficava cada vez mais perturbada conforme os convidados chegavam. Finalmente ele saiu do gabinete para encontrar Dom, que parecia preocupado.

— A melhor amiga não chegou — disse Dom. — Não podemos anunciar o noivado até que ela chegue.

— O que você quer fazer? — perguntou Kazim.

— Matar a mulher.

— Tirando isso?

Dom franziu a testa.

— Adiar tudo. Anúncio do noivado, champanhe, fogos de artifício. Deixar tudo em suspenso até amanhã e esperar que a maldita mulher chegue até lá.

Kazim piscou. Mas tudo o que disse foi:

— Então todos os seus convidados vão ficar para passar o fim de semana.

— Sim, graças a você — Dom deu um suspiro sentido e deu um leve soco em seu braço. — Definitivamente tenho amigos melhores do que Izzy.

— Você conheceu a amiga perdida, então?

— A Senhorita Eficiente? — Dom sacudiu a cabeça. — Ainda não. — Ela parece intrigante — disse Kazim, educadamente.

Dom riu.

— Não faz o seu tipo.

— Achei que você não a conhecia.

— Não preciso. Sei que é uma chata. Uma daquelas mulheres bem-sucedidas do século XXI.

Kazim sacudiu a cabeça com pena.

— Não sei por que você está dizendo que ela não faz o meu tipo.

— Porque você acha que o lugar de uma mulher é recebendo rosas e poesia — disse o amigo. — Antes de mandá-la para casa, para que você continue salvando o mundo.

Kazim não se ofendeu.

— Muito engraçado — disse calmamente. O telefone locou novamente. — Desculpe.

A mensagem de texto de Tom era inequívoca. Kazim devia ligar para ele imediatamente. Novas informações estavam chegando sobre ameaças às negociações de paz, e a Kazim em particular. Tom precisava de conselhos.

— Desculpe, Dom. Vou cuidar disso e encontro você mais tarde.

Dom assentiu. Os amigos de Kazim estavam acostumados a tais interrupções.

— Vou convencer Izzy a descer e abrir algumas garrafas. Vamos começar essa festa.

— E cuide para que o pessoal dos fogos de artifício volte amanhã — Kazim lembrou.

Natasha tivera um dia ruim. Primeiro, o gráfico roxo não tinha funcionado bem. E nem seu maravilhoso arquivo de apresentação. David Frankel queria sua menção pessoal e indivisível. Não havia jeito de deixá-la sair, de preferência até que concordasse em jantar com ele.

Enquanto Frankel fazia pergunta após pergunta sem objetivo, ela viu sua chance de pegar o primeiro vôo noturno, e depois o outro, desaparecer. Sorrindo com dificuldade, desculpou-se e ligou para Izzy do banheiro das mulheres. Izzy não atendeu.

Natasha deixou um recado.

— Izzy, vou chegar atrasada. Desculpe, querida. Vejo você assim que puder.

As horas frustrantes que se seguiram formaram um padrão repetitivo. O último vôo atrasou; havia neblina e ele acabou sendo desviado. Natasha calculou as diferenças de fuso horário e telefonou muitas vezes, mas Izzy não atendeu nenhuma.

Finalmente, era uma noite escura de sábado quando a limusine alugada por Natasha alcançou as estradinhas estreitas da região de Sussex. O silêncio do motorista era mais eloqüente do que uma torrente de reclamações. Já tinham passado por um vilarejo de dez casas pelo menos três vezes, quando Natasha avistou um caminho íngreme e estreito à esquerda.

— Aqui.

Aborrecido, o motorista fez o que lhe foi dito. O aquecedor crepitou e desligou.

Natasha estremeceu. Ela não estava viajando com um vestido Prada, mas também não estava com roupas de expedições ao Ártico. Com meias finas e sapatos de saltos altíssimos feitos à mão, seus dedos dos pés estavam vagarosamente se transformando em gelo.

— Espero que não esteja longe. Estamos a quilômetros de lugar nenhum.

À direita, havia cercas e campos escuros; à esquerda, uma alta cerca de louros muito bem podada.

— Parece algum tipo de mansão imponente — disse Natasha. — Espero que não tenhamos errado novamente.

E então surgiu uma placa. "Serenata Place. Estritamente Particular."

— Que amigável — notou Natasha. O lugar era grandioso. Ela estava assustada, embora não dissesse isso em voz alta.

O que importava o tamanho do lugar?, perguntou-se.

Podia lidar com qualquer coisa. Mas quando a limusine passou a cerca viva e foi parada por enormes portões de ferro batido, Natasha sentiu sua confiança balançar pela primeira vez.

Trincou os dentes e não demonstrou o que sentia. Ao contrário, baixou o vidro elétrico e falou rispidamente para a câmera na entrada.

— Srta. Lambert para srta. Dare. Estou sendo aguardada.

Não havia nenhuma voz do outro lado. Nenhuma resposta. Apenas uma longa e sinistra pausa.

Depois, finalmente, os portões se abriram para o lado de dentro. Silenciosamente.

Natasha estremeceu novamente; e não era só por causa da temperatura.

— Ah, que ótimo. Só falta o mordomo Tropeço, da família Adams, sair oscilando das sombras — murmurou, sentindo-se totalmente desconfortável.

Estavam passando por um local realmente grandioso. O caminho de entrada era maior que a pista de decolagem de um jumbo. E então chegaram à casa...

— Há torres suficientes para deixar os estúdios Disney com inveja — disse Natasha, com franqueza. — E toda a floresta da Bela Adormecida para protegê-las! Por que será que Izzy não me disse que tinha pegado emprestada uma mansão gótica?

A limusine parou. Por mais irritado que estivesse, o motorista tinha sido bem treinado. Retirou a pequena bagagem dela e levou-a até os degraus da entrada. Tocou uma campainha impressionante antes de voltar para abrir a porta da limusine. Se ainda estivesse chovendo, ele teria segurado um guardachuva sobre a cabeça dela.

— Obrigada — disse Natasha, saindo do carro como uma princesa.

Tinha a estranha sensação de estar sendo observada. Mas a porta da frente permaneceu fechada e as janelas estavam escuras. Não havia qualquer sinal de vida.

Ela subiu os degraus da entrada. Eles batiam frios como gelo nas solas de seus modernos sapatos de bico fino. Mármore, pensou, resignada. Definitivamente mármore. Uma mansão de verdade.

— Acredito que este realmente seja o lugar correto... — começou ela.

No entanto, o motorista já tinha ido embora. Ela observou a limusine sair por entre as árvores e descobriu que o coração estava apertado.

Natasha controlou-se. Era uma mulher ou um rato?

— O mordomo provavelmente terá de sair do caixão para chegar à porta da frente — disse a si mesma, sarcástica. — Grande idéia, Izzy. Um fim de semana temático!

Apertou a campainha, várias vezes. Com força.

A sensação de estar sendo observada se intensificou. Ela inclinou a cabeça, escutando...

Aquilo seria um ruído...?

Não, disse a si mesma. Não era um ruído real. Não conseguia ouvir nada além do vento nas árvores. Mas algo dentro dela sabia que ele estava ali. Seu sangue pareceu ficar mais pesado; mover-se mais devagar. Seus ossos latejavam.

Cuidado.

Natasha engoliu em seco. A atmosfera gótica estava realmente tomando conta dela! Tocou novamente a campainha muitas vezes, o coração batendo forte.

Depois ouviu o ruído de folhas secas pisadas.

Ela congelou. Imaginação era uma coisa. Seus instintos gritando para ficar em alerta eram algo totalmente diferente. Natasha tinha aprendido a confiar em seus instintos. Eles já haviam salvado sua vida uma vez. Seu olhar varreu o local rapidamente.

— Quem está aí?

Ela vasculhou as sombras, como se cada uma escondesse um assassino.

O homem surgiu da escuridão entre dois grandes arbustos. Não estava se escondendo, mas pisava levemente. Era alto e usava roupa escura.

A primeira impressão de Natasha foi de que era muito profissional. Reconheceu as características: tenso, concentrado, controlado. Sua segunda impressão, que mandou a primeira para longe como uma explosão de total arrogância.

Natasha conhecia a arrogância em todas as suas formas. Trabalhava com ela todos os dias e, uma vez, aquilo quase tinha custado sua vida. Ela detestava arrogância. Por puro reflexo, ficou na defensiva. Sua coluna se travou e seu queixo se ergueu.

O homem olhou para ela. E não disse nada. As luzes refletidas da entrada mostravam maçãs do rosto grandes e olhos penetrantes. Apenas por um instante, ela pensou num gato selvagem, alerta e contido. E perigoso.

Perigoso? Ela lutou consigo mesma. Aquilo era apenas uma sombra do passado, pura e simplesmente. Não ia deixar a paranóia tomar conta dela depois de todos esses anos. Trincou os dentes.

— Boa noite — o tom era agradável. Bem, suficientemente agradável. Significava que ela se reservava o direito de atacá-lo se ele não prestasse atenção. Companheiros de trabalho mais próximos teriam reconhecido o tom.

— Sim? — Ele não era nada caloroso.

Aquilo teria intimidado uma mulher menos valente. Mas não intimidou Natasha. E ela não perdeu mais tempo com civilidades.

— Estou sendo aguardada — disse rispidamente. Aquilo também não o impressionou.

— E você é quem?

— Srta. Lambert, para ver a srta. Dare. — Falou como se estivesse telefonando para um daqueles grandes arranha-céus de Nova York e ele fosse o homem da recepção. — Preciso ficar repetindo? Eu disse isso no interfone.

Natasha sentiu uma pequena satisfação. Mas não o suficiente para compensar o fato de estar de pé, ali fora, no vento frio de novembro com uma roupa de grife que definitivamente tinha sido criada para interiores. Ela se recusou a tremer, entretanto.

— Lambert?

— Natasha Lambert. — Ela estava quase rangendo os dentes. — A srta. Dare me convidou para o fim de semana.

Ele fingiu pensar sobre aquilo, com uma vagareza insultuosa.

— O fim de semana que começou na noite passada?

Se não estivesse tão frio, Natasha teria dito que seus arranjos de viagem só diziam respeito a ela.

Mas estava desesperada para entrar e fugir do vento cortante.

— Eu me atrasei. — Esforçou-se para parecer razoável. Não estava acostumada a se desculpar.

Contudo, ele não parecia estar interessado em desculpas. — Por quê? — A pergunta a atingiu como um raio.

— Meu cliente em Nova York exigiu uma reunião extra.

Ele a olhou, mas era quase como se não a visse. E franziu o cenho.

— Quando foi a reunião?

Uma pequena rajada de ar gelado fez as folhas dançarem. Seu interrogador nem pareceu notar. Mas aquilo passou pela roupa de Natasha como um raio laser.

— Quinta-feira à noite.

— Por que não pegou um vôo noturno?

— Estavam lotados. Depois, meu vôo foi adiado e desviado por causa da neblina... — Natasha tomou novo fôlego. — Olhe, o que é isso? Eu deveria estar passando o fim de semana com meus amigos, e não fazendo um relatório de meus compromissos recentes a... a... — ela olhou para cima, aquele rosto impassível, o corpo impenetrável ao frio, os olhos concentrados no nada, e o insulto perfeito surgiu, vindo diretamente de sua infância — ... ao mordomo Tropeço — terminou com alívio.

— O quê?

Agora ele estava olhando para ela de verdade. Diretamente para ela. Dentro dela, quase.

Natasha o viu observar seu traje preto de corte perfeito, os sapatos nova-iorquinos finos e ultra polidos, os belos cabelos louros e curtos. E o viu decidir que não gostava nem um pouco da embalagem.

Ela começou a se sentir melhor, apesar do frio.

— Como disse — perguntou ele, vagarosamente.

— Você é o mordomo, não é? — perguntou ela. — Quer dizer, alguém tem de apertar o botão para abrir esses portões. É você? Então você já sabe que estou sendo esperada — lembrou ela, triunfante. E acenou com a mão para a maleta. — Poderia carregar minha bagagem, por favor?

Ele olhou para a maleta com... Seria aquilo espanto? Ela não pôde resistir a provocar toda aquela desaprovação glacial.

— Não se preocupe, eu viajo com pouco peso.

A boca do homem formou uma linha fina e feroz. Ela viu dois profundos vincos correrem por suas faces.

Ai, pensou Natasha. Talvez tivesse ido um pouco longe demais, chamando-o de Tropeço. Talvez ele fosse sensível ao fato de ser mordomo, por alguma razão.

— Então, onde está a srta. Dare? — perguntou num tom mais amigável. — Por que não posso entrar na casa?

Ele não reagiu ao tom amigável. Mal abrindo os lábios, disse:

— A festa é no jardim.

— Bem, graças a Deus há alguma festa acontecendo em algum lugar.

— Você tem alguma identificação?

— Iden... ? — Todo o desejo de ser amigável foi embora abruptamente. — Você deve estar brincando.

Ele avançou, rápida e repentinamente, como aquele gato selvagem ao qual ela o havia comparado. Subiu os degraus como uma onda rápida. Sem perceber, Natasha recuou. Aquilo a fez salivar de raiva, mas não conseguiu se controlar.

Ela parou apenas ao encostar as costas na grande porta.

— Que diabos você pensa que está fazendo?

Ele ignorou aquilo e estalou os dedos.

— Passaporte. Você deve ter um passaporte, se acaba de chegar de avião.

— Claro. Acabo de chegar de avião — respondeu Natasha, rapidamente.

— Prove.

Tremendo agora de fúria tanto quanto de frio, ela tirou todos os documentos de sua bolsa: passaporte, o canhoto do bilhete de avião, o itinerário impresso da licença de viagens.

— O que você era antes de ser mordomo? — o tom de Natasha era venenoso. — Oficial da alfândega? Inspetor da receita federal?

Ele ignorou aquilo também. Estava examinando o passaporte.

Ela odiava a foto do passaporte. Tinha sido tirada quase 10 anos atrás, quando acabara de voltar da selva. Parecia uma estudante, toda cheia de cachos despenteados e sem maquiagem.

— Não se parece muito com você — comentou ele. Havia um tom de diversão na voz cortante?

A antipatia de Natasha pelo homem intensificou-se ainda mais. Como ousava rir dela? Arrancou o passaporte de volta, com a mão trêmula.

— Satisfeito?

Ele deu de ombros.

— Contanto que a srta. Dare a reconheça.

— O quê?

— Existem passaportes forjados.

— Você assiste muita televisão.

Aquilo foi demais. Natasha puxou o telefone celular da bolsa e o abriu.

— Ah, chega. Vou ligar para Izzy agora...

O pequeno aparelho foi arrancado de sua mão e jogado no caminho de cascalho.

— Meu telefone... — foi um gemido de puro ultraje.

Gemido? Ela estava furiosa consigo mesma. Devia ter rugido como um vulcão. Aquela voz ofegante nem parecia a dela. Fraca, fraca, fraca. Natasha odiava ser fraca. Aquilo não acontecia há muito tempo.

— Como ousa? — Ela estava engasgada.

— Você não precisa de um telefone. Se é que isso é mesmo um telefone.

Natasha sentiu o volume de sua maleta de rodinhas pressionando a parte de trás de seus joelhos. Percebeu que havia recuado novamente. Aquilo era demais. O simples amor-próprio mandava que ela lutasse.

Tentou chutá-lo. Aquilo foi infantil e deselegante, e ela estava sem equilíbrio. Acabou chutando a mala, que caiu para o lado e depois vagarosamente tombou, degrau por degrau, escada abaixo.

— Afaste-se de mim — ordenou, furiosa.

Porém, ele não estava escutando. Nem mesmo olhando para ela. Olhava por cima do ombro dele, para a mala, como se estivesse viva.

Ela tinha caído no facho de luz no pé dos degraus.

— O que está esperando? — perguntou Natasha acidamente. — Uma explosão?

Ele voltou os olhos para ela. Por um instante, foi como se uma persiana se abrisse. Seus olhos eram duros. Sua testa se franziu. Finalmente a persiana se fechou de novo, com força.

— Acho que não.

— Você realmente pensou que ia explodir — disse Natasha vagarosamente. Sua raiva evaporou, transformando-se em algo bem mais complicado. Sem perceber, ela estremeceu.

Ele a libertou daquela inspeção penetrante e deu um passo para trás. Natasha soltou um suspiro trêmulo. Estava preocupada agora. No que será que Izzy estava metida?

Abruptamente, ele se virou e desceu os degraus para pegar a maleta. Natasha esforçou-se para banir a sensação de que ele a pegara como se estivesse lidando com dinamite.

— Venha comigo — disse ele por cima do ombro. E saiu, sem olhar para trás.

Natasha alcançou-o num caminho mal iluminado que dava a volta pela lateral da casa. Tinha recuperado a sensação de ultraje a essa altura.

— Me diga — disse ela com afabilidade dissimulada. — Quando eles o demitiram da academia de polícia, foi por ser muito perspicaz?

Caminhava com passos rápidos, que não podiam ser acompanhados por sapatos de Manhattan, em caminhos irregulares que desciam para a escuridão. Natasha era orgulhosa demais para lembrar isso a ele. Quando achou que estava ficando muito para trás, trincou os dentes e deixou os sapatos nas moitas. E emparelhou com ele.

Depois disso, ela prosseguiu muito bem, dada as circunstâncias. Seus sapatos, mesmo que conseguisse encontrá-los novamente, provavelmente estariam arruinados, pensou ironicamente. Sem contar as meias finas e caras. Mas aquilo era um preço pequeno a pagar para não ter de admitir que precisava de ajuda. E, pelo menos, ele estava carregando a mala.

Era uma grande festa. Devia haver mais de vinte pessoas ali. Eles riam e conversavam à luz bruxuleante da fogueira. As garotas usavam jaquetas quentes; os homens estavam com suéteres grossos. Menos aquele que tinha encontrado na entrada, claro. Ele usava um terno, sem fazer nenhuma concessão ao frio de novembro.

Natasha olhou para as pessoas em volta e suspirou. Gente demais para um fim de semana de garotas! A imagem reconfortante de sentar-se no tapete, à frente do fogo, com Izzy, mais umas duas amigas e muitas garrafas de vinho evaporou. Era como uma visão perdida do paraíso. Mas se era isso o que Izzy queria... Natasha endireitou os ombros e fixou no rosto um sorriso social.

A fogueira era grande e brilhava alegremente à beira de um pequeno lago. O ar cheirava a vinho quente, salsichas na brasa e batatas assadas.

— É uma festa de fogos de artifício!

— Natasha. Natasha. Achei que você ia me dar um bolo.

Izzy surgiu do meio das pessoas em torno da fogueira e abraçou-a com força.

— Desculpe. Tentei mandar um recado. — Natasha devolveu o abraço até ficar sem ar. Engasgando, ela lutou para respirar. — O que você está usando, Izzy?

— Uma jaqueta forrada de pele e encerada — disse ela, com ar profissional. — O que montanhistas usam.

— Por quê? — perguntou a melhor freguesa de Prada, confusa. — Você quase me sufocou com essa coisa. E faz você parecer uma bola de futebol.

— Ela me aquece — disse Izzy de maneira inquestionável. — Não ligo para minha aparência.

Vamos ter fogos de artifício mais tarde. As pessoas não vão ficar olhando para mim.

Natasha gemeu.

— Você é um caso perdido. Ninguém pensaria que você trabalha com moda.

— E ninguém pensaria que você não trabalha — replicou Izzy. Ela olhou por sobre os ombros da amiga e o viu. — Onde você a encontrou, Kazim?

— Na porta — disse o adversário de Natasha, secamente.

— Como um presente de Natal — disse Izzy, brilhando de felicidade.

— Ou uma pizza que você não pediu — murmurou Natasha. Izzy ficou supresa.

— O quê?

Natasha não estava olhando para ela. Olhava para o homem chamado Kazim.

— Acho que estou tão atrasada que você pensou que eu estava fora da lista de convidados.

Os olhos dele se estreitaram à luz do fogo e cintilaram maldosamente.

— Se você tivesse telefonado... — ela falava como um juiz.

Izzy se desculpou.

— É verdade, Tasha. Quando você não apareceu na noite passada, achei que não viria.

— Mas deixei um monte de recados.

— Nessa animação toda, esqueci de olhar meu telefone.

Natasha sacudiu a cabeça.

— Então você não recebeu nenhum dos meus recados? O que você acha que eu estava fazendo? — Achei que algo mais importante tinha aparecido.

Natasha estava sinceramente chocada.

— Não sou tão mal-educada assim, sou?

— Não — disse Izzy, em tom de desculpas. — Só muito ocupada.

Horrivelmente aquilo era verdade. Natasha não podia negar.

— Não importa — disse Izzy alegremente. — Você está aqui agora.

Mesmo à meia-luz da fogueira, estava claro que Kazim Quem-Quer-Que-Fosse não concordava. A consciência culpada de Natasha mudou rapidamente para algo bem mais combativo.

— Bem, agora estou, depois de conseguir passar pelo teste da segurança na porta da frente — concordou ela, fervendo por dentro. — Mas meu telefone ficou por lá.

Izzy pareceu confusa.

— O que aconteceu com seu telefone? Ai, Natasha, não diga que você foi assaltada. Natasha olhou diretamente para Kazim Quem-Quer-Que-Fosse.

— É. Foi um assalto.

Os olhos piscaram, mas ele não disse nada. Izzy abraçou-a de novo, aflita.

— Que horrível.

Natasha não tirou os olhos de Kazim.

— Nada de que eu não possa cuidar — disse ela.

Falava sério. E podia ver em seus olhos que ele sabia. As narinas dele se inflaram. Ninguém jamais tinha dito que poderia cuidar de Kazim antes. Ele estava ultrajado. O suficiente para fazer alguma coisa a respeito? Natasha não tinha certeza.

Então viu a rigidez em sua boca. Ah, definitivamente estava ultrajado o suficiente para fazer alguma coisa.

Por um instante, ela sentiu um pequeno arrepio de alarme. Mas se segurou. Ela nunca corria de um desafio.

Bem, mostre suas armas, ela o provocou silenciosamente.

As narinas dele se inflaram.

Uma corrente de alguma coisa, que poderia ser medo, correu pela espinha de Natasha. Medo ou excitação. Subitamente todos os seus sentidos estavam em alerta.

Ninguém mais pareceu notar. Mas ela sabia o que estava acontecendo. E ele também.

Era como um vinho forte. Ou um vento forte.

Ou a sensação de voltar à vida.

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