
Nas Amarras do Sheik
Capítulo 3
Porém, ainda não era hora. Natasha precisava colocar algumas roupas quentes antes que Kazim pensasse que seu tremor se devia a ele. Era arrogante o suficiente.
— Na verdade, Izzy, preciso tirar estas roupas. Poderia me dizer onde fica meu quarto?
Izzy sentiu-se imediatamente culpada.
— Claro. Você deve estar congelando.
— Já estive mais quente — concordou Natasha. — Na verdade, eu ficaria feliz se pudesse pegar um suéter emprestado também. Não sabia que ia precisar de um.
— É, claro, você fez sua mala totalmente bá-si-ca. — Izzy riu e olhou para a maleta de Natasha.
— Há quanto tempo você está vivendo só com essa malinha?
Natasha sorriu. Era uma velha piada entre elas.
— Uma semana.
— Então um suéter não é tudo que você vai precisar pegar emprestado — disse Izzy.
— O hotel tinha serviço de lavanderia — retrucou Natasha — Um suéter basta, realmente.
— Vou procurar algumas roupas boas e quentes para você. E botas de borracha também.
— Fique com seus convidados. Posso mostrar a srta. Lambert o quarto dela. Há muitos suéteres sobressalentes no quarto egípcio.
As sobrancelhas de Izzy ergueram-se, como se algo no tom de Kazim a surpreendesse.
Talvez fosse a desaprovação fria, pensou Natasha com ironia. Provavelmente mordomos não deveriam sentir antipatia instantânea pelos convidados de seus patrões, mesmo se o patrão atual estivesse apenas pegando seus serviços emprestados durante o fim de semana.
— Os fogos de artifício vão começar a qualquer momento — disse Kazim, como se aquilo bastasse.
Natasha preferia o encontro com Izzy e as amigas que tinha prometido a si mesma. Mas sabia de suas obrigações sociais.
— Vá e cuide dos fogos de artifício — pediu ela a Izzy. — Se... Kazim, não é isso? ...vai apenas me mostrar aonde ir... — lançou um sorriso manso na direção dele, com cuidado para não encontrar seus olhos — ...eu consigo me arrumar bem rápido.
— Tudo bem — disse Izzy vagarosamente. — Vinho quente aqui depois, então.
— Oops. Vejo você num instante — disse Natasha e correu atrás dele, o mais rápido que seus pés calçados apenas com meias permitiram.
Ele pegou o caminho que subia para um grande terraço pavimentado. Natasha seguiu-o. A grama molhada grudava fria sob seus pés. Ela se arrependeu do impulso que a fizera jogar os sapatos fora. Explosões temperamentais sempre se voltam contra nós, pensou com tristeza. Mas agora era tarde demais e, pelo menos desta vez, ela estava conseguindo prosseguir sem deslizar e escorregar por toda parte!
Ele ainda estava seguindo em frente sem falar nada. Ela decidiu abrir a sessão de hostilidades. — Então a identificação foi adequada? — perguntou para as costas dele. Ele olhou por cima do ombro.
— Foi.
— Que alívio!
— Deve ser mesmo.
Ela percebeu subitamente que havia um leve sotaque estrangeiro na voz profunda, esquivo como um perfume. Talvez não fosse nem um sotaque. Apenas uma leve imprecisão na pronúncia.
Natasha disse, abruptamente:
— Quando foi que você decidiu não gostar de mim?
Ele continuou andando.
— Se sou o mordomo Tropeço, não faz parte de meu trabalho não gostar de você.
Aquilo foi bastante neutro. Indiferente, até. Então, por que ela subitamente teve certeza de que
ele estava rindo dela? E por que um homem com um quociente de arrogância de cem por cento decidiu se empregar como mordomo?
Antes que pudesse perguntar, ele abriu a porta da casa para deixá-la passar à sua frente. Ela o olhou enquanto passava e surpreendeu-se com a força absoluta de sua presença física. Sim, ele era grande. Maior até do que ela tinha percebido do lado de fora. Mas não era sua altura que fazia todos os seus instintos acenderem o alerta vermelho.
Nem sua aparência. Embora a luz da casa revelasse que ele era um dos homens mais bonitos que Natasha já conhecera. Era algo mais duro, mais feroz. Os olhos escuros podiam ser frios. Mas havia um fogo queimando sob aquela fachada imperturbável, pensou ela.
Não gostaria de brigar com ele.
Natasha estremeceu com o pensamento e imediatamente sentiu raiva. Não importava com quem brigaria. Podia cuidar de si mesma. Mais importante, podia cuidar do inimigo! Podia cuidar de tudo. Sempre pudera. Sempre poderia.
Relaxe, disse ela a seus instintos.
A porta levava a um laranjal à moda antiga, todo em madeira clara e vidro. Era quente e cheio de árvores cítricas. Impressionada, ela parou à porta, todos os sentidos ligados no aroma.
E Kazim tropeçou nela.
Foi como uma agressão, um choque elétrico diretamente nos nervos. Ela pulou, tropeçou... E praguejou. Ele a pegou pelo cotovelo e a colocou de pé.
— Cuidado.
Seus dedos estavam frios da noite gelada, mas não sua forma de pegá-la. Natasha sentiu como se um fogo dentro dele passasse, como uma corrente elétrica, e acendesse algo dentro dela também. Aquilo literalmente tirou sua respiração.
Ele olhou para ela, surpreso.
— Você está bem?
Ela estremeceu novamente e não respondeu.
— Você está nervosa?
Natasha voltou à Terra.
— Experimente perguntar se estou congelada até a morte — disse ela de modo agradável.
Ele não pareceu acreditar muito naquilo. Mas deu de ombros e continuou andando, abrindo caminho entre as árvores de laranja e limão como se formassem uma rota de obstáculos que ele poderia correr com os olhos vendados. Abriu a porta da casa com um floreio.
O que ele sabe que eu não sei? Mas não ia deixá-lo ver que a estava atingindo. Passou pela porta que ele estava segurando e olhou friamente para o saguão forrado de carvalho.
— Impressionante!
As paredes estavam cheias de gravuras vitorianas e retratos gigantescos de cidadãos em vestes de gala. Ela deu um assovio silencioso.
— Quem é o dono deste lugar? Deve ser um fóssil completo.
A coluna dele ficou rígida feito aço.
— O dono certamente valoriza a tradição. — Seu tom dizia que ela era uma coisinha moderna e inútil, incapaz de compreender.
Natasha decidiu que era hora de um pouco de gozação.
— Gente engraçada — observou ela, olhando um grupo familiar. — Até o cão de caça parece estar usando um colete.
— Não é amante das artes, srta. Lambert?
— Não sou fã de esnobes cheios de pompa — rebateu ela.
— O dirigente parece mesmo estar em seus melhores trajes — admitiu pensativamente, para surpresa dela.
Porém, antes que Natasha pudesse se aproveitar de sua pequena vantagem, ele a levou escadas acima e virou num corredor discretamente iluminado.
— A srta. Dare achou que você gostaria do quarto egípcio. Disse que gostaria do lustre. E há um banheiro dos anos 20 de verdade.
— O que há de tão especial num banheiro dos anos 20? — perguntou ela com desdém.
A expressão de Kazim não mudou. Mas Natasha soube que tinha cometido outro erro. De alguma
forma, ela o deixara marcar um ponto.
— Ficarei feliz de lhe mostrar. — Ele foi muito suave. Como alguém fazendo o papel de mordomo no palco.
As sobrancelhas dela se uniram com uma rápida suspeita. Mas antes que o pudesse desafiar, ele tinha aberto uma grande porta de carvalho. Acendeu a luz e recuou para deixá-la entrar primeiro. Ela parou à porta, piscando sem acreditar.
O aposento tinha tudo. Não apenas um lustre, mas uma cama com dossel de veludo, alguns baús realmente antigos e uma pintura que parecia um Monet original.
Ela engoliu em seco. Mas não tinha tempo para reverenciar o quarto. Seus pés estavam doendo muito agora. Na verdade, sua sola esquerda estava queimando. Devia tê-la ferido enquanto tropeçava atrás dele no cascalho e na grama cheia de gravetos. Recusando-se a deixá-lo ver em que estado ela estava, entrou rapidamente no quarto, concentrando-se totalmente em não mancar.
Kazim seguiu-a. Colocou a pequena mala, com muito mais cerimônia do que merecia, num banco ao pé da cama. Deu uns tapinhas na rica colcha de brecado, como se estivesse testando a maciez da maldita cama, pensou Natasha, indignada.
— Obrigada — disse ela rispidamente, dispensando-o.
Ele não pareceu notar. Apenas assentiu, reconhecendo seu agradecimento. Estaria rindo dela novamente?
Kazim abriu uma gaveta, depois outras, em rápida sucessão. Seu nariz cocou com o cheiro de lavanda e naftalina.
— Realmente tradicional — disse ela, quase para si mesma. — A casa de minha avó tinha esse cheiro.
Kazim não gostou daquilo.
— Você vai encontrar suéteres aqui. E camisas. Por favor, sinta-se à vontade.
Natasha voltou para o presente com um pulinho.
— Obrigada — repetiu ela com ênfase e abriu a porta, ficando ao lado dela de maneira clara.
Ele ignorou a dica. Em vez de sair, cruzou o grande quarto e abriu largamente um par de portas duplas que ela não tinha notado antes.
— E aqui está a resposta para sua pergunta. Seu banheiro!
Quase podia ouvir o soar de trombetas, pensou Natasha. Estava claro que ele não ia sair até que ela o tivesse inspecionado.
— Realmente não há necessidade de fazer uma visita guiada. Sei como torneiras funcionam.
— Mas estas torneiras são excepcionais.
Os lábios dele se curvaram? Ela o encarou com suspeita. Ele a encarou de volta, um mordomo sem expressão. Ela desconfiava profundamente dele. Mas não ia deixá-lo levar a melhor.
Um banheiro era algo íntimo demais, claro. Mas não mais íntimo do que aquela batidinha de dono na colcha. Tinha muita certeza que ele sabia daquilo e estava deliberadamente se divertindo.
Natasha fixou no rosto um sorriso tão enganador quanto o dele e mancou até ficar ao lado de Kazim. Mas não muito perto.
— Obrigada. Muito bom. Isso...
Depois ela percebeu o que era o banheiro e parou, congelada. Seu queixo caiu.
— Decadente, você diria? — perguntou, satisfeito.
— Eu nunca... — Ela se controlou. Não ia deixar aquele maldito sujeito fazê-la perder a calma tão facilmente. — Que interessante — disse com a voz fraca. — Egípcio?
— Bem, egípcio de Hollywood — concordou Kazim. — Foi criado por um diretor de arte de cinema. Impressionante, não é?
— Só falta o sheik — disse ela emocionada, esquecendo-se novamente de ser fria.
Por um instante, ele não ficou mais impassível. Seus lábios curvaram-se perceptivelmente. — Isso pode ser arranjado.
— Desculpe. O quê?
Ele estava dando largas passadas em torno do banheiro, indicando sua decoração única com comentários prestativos. Natasha mal escutava o que ele dizia.
Todas as superfícies horizontais do banheiro eram de mármore brilhante: chão, teto, toucador, até o peitoril da janela. As paredes, onde não eram decoradas com espelhos brilhantes, estavam cobertas de hieróglifos e figuras de virgens sagradas egípcias estilizadas, com mais maquiagem nos olhos do que vestimentas. A banheira era circular; na beirada de mármore havia entalhes que ela percebeu, de repente, que eram descansos de cabeça. Dois descansos de cabeça, para ser mais precisa.
Se estivesse com Izzy, elas teriam se sentado na beira daquela banheira absurda e rido até chorarem. Mas aquela não era uma piada que podia compartilhar com esse mordomo. Não com Kazim, com seus olhos indecifráveis e sua risada reservada. E sua mordomia teatralizada.
A verdade é que ele era muito sexy para ser mordomo. Ele a desafiava. Deixava-a constrangida. Fazia-a pensar. E precisava falar sobre aquilo tudo com algumas boas amigas e uma garrafa de vinho.
Natasha sentiu um toque agudo de tristeza. Ah, sim, realmente tinha aguardado ansiosamente aquele fim de semana com as garotas. Teria sido bom retirar a armadura por um tempo. Oscilou imprudentemente e estremeceu, enquanto seu calcanhar machucado reclamava.
Descobriu que ele a estava olhando estranhamente. Será que havia percebido? Não queria que esse homem reconhecesse aquele momento pouco característico de fraqueza.
— Obrigada por me mostrar o quarto. Agora eu gostaria de trocar de roupa.
Entretanto, ele não saiu. Ao contrário, não mostrou sinal nem mesmo de ter notado que tinha sido dispensado.
— Você está machucada?
Ela se assustou.
— O quê?
— Você estava se encolhendo.
— Não estava.
Ele não a contradisse. Só olhou. Subitamente estava cheio de arrogância masculina de novo. Natasha reagiu àquilo. Seus olhos se estreitaram e seu queixo elevou-se perigosamente.
— O que foi?
— Agora que estou pensando no assunto, você também estava mancando no laranjal.
— Tudo bem, talvez eu estivesse. E daí?
— Daí que eu quero saber como você se machucou.
— Bem, essa é uma boa pergunta. Poderia ter algo a ver com o fato de ter sido obrigada a marchar por um caminho acidentado no escuro à velocidade da luz? Certamente não!
— Está dizendo que é minha culpa?
Natasha caiu na gargalhada.
Por um instante ele pareceu furioso. Depois aquilo passou e ele era o mordomo cortês novamente.
— Então devo fazer o que puder para ajudá-la.
— Por que você se incomodaria? — perguntou Natasha, rude como sempre.
— Você é minha convidada.
Ela mostrou os dentes num sorriso desafiador.
— Sou convidada de Izzy Dare.
Os olhos dele piscaram com um ar de aborrecimento, palpável como fumaça.
Isso! Natasha marcou um ponto para a guerreira feminina. Um ponto pequeno, mas merecido.
Contente com a vitória, ela fez um gesto na direção da porta.
— Agora, se você puder sair, descerei em alguns minutos. — O tom superior a agradava. Pela segunda vez ele ignorou que ela o estava dispensando.
— Obriga...
Ela não continuou. Ele a levantou do chão.
— Coloque-me no chão — exigiu Natasha furiosamente, não se sentindo mais superior.
Ele o fez. Mas não da maneira que ela queria. Não mesmo. Kazim a largou num banco e olhou sem expressão para suas meias arruinadas.
— O que você fez?
Natasha não se sentia tão imunda desde que tinha arranhado o joelho no playground e sua mãe a havia repreendido. Ela o olhou com raiva.
— Perdi meus sapatos, não foi?
Ela tentou reaver os pés. Mas não conseguiu. Ele os examinou rigorosamente.
— O que acha que está fazendo? — Natasha estava trêmula.
Kazim girou o tornozelo dela. Ele era gentil, mas firme.
— Nada de ossos quebrados — decidiu.
Natasha estava mexida. Para disfarçar, perguntou com desagrado:
— Você também é médico?
Ele levantou os olhos, com um lampejo surpreendente de brincadeira nos olhos.
— Não, mas já corri riscos físicos o suficiente para saber o básico.
Ela aproveitou a oportunidade para resgatar o pé.
— Nada de ossos quebrados — disse ela laconicamente. — Você mesmo o disse. Agora por favor, você poderia...?
Ele levantou o outro pé.
Não havia nem um vestígio de meias rasgadas entre suas peles desta vez. E aqueles dedos eram tão quentes que ela pôde sentir o sangue pulsando contra sua pele fria.
A boca de Natasha ficou seca. Esqueceu o que ia dizer; quase esqueceu como pensar. Tudo o que conseguia fazer era ficar ali sentada, sem ar, olhando para a cabeça abaixada dele, e pensar como seus cabelos eram crespos e escuros, como seus ombros eram surpreendentemente largos. Como suas mãos eram sensíveis...
Natasha endireitou-se. Estava horrorizada. Aquele era o tipo de coisa que se pensava sobre um amante. Mas nunca sobre um estranho.
Eu devo estar fora de mim.
— Pare com isso — ordenou ela rispidamente.
— Você está sangrando.
— O quê?
Ela se abaixou para espiar o pé. Seus rostos de repente ficaram muito próximos. Ela sentiu o cheiro de uma colônia muito cara. Desde quando mordomos usam Amertage?
Distraído, Kazim disse:
— Ah, aqui está. Você parece ter rasgado a pele. Fique parada um instante.
— O quê? Por quê? Ai!
Ela se encolheu com a dor aguda. Ele levantou um espinho de rosa de aparência selvagem e ofereceu-o a ela.
— Uma fera e tanto — disse ele, satisfeito.
— É — concordou Natasha fracamente.
Ele ainda estava concentrado em sua tarefa.
— Você precisa de um curativo. Vou procurar alguém para... — Ele parou abruptamente.
Natasha estava desesperada para ficar sozinha.
— Não se preocupe. Tenho gaze e esparadrapo na mala. Eu mesma faço o curativo.
— Então eu pego para você.
Natasha encolheu-se por dentro. Ela realmente não queria esse homem mexendo em suas coisas. Viajava muito que quase tudo na mala era profundamente pessoal. O conteúdo revelava muito sobre ela, da simples roupa de baixo de algodão até os lenços de seda colorida; sem contar aqueles ridículos chinelos felpudos.
No entanto, ela não podia dizer isso, podia? Aquilo apenas mostraria o quanto ele a fazia se sentir exposta, até o instigaria a investigar mais. Então ficou observando, enquanto ele voltava para o quarto e abria a pequena mula.
Tentando parecer indiferente, ela disse:
— Há uma pequena bolsa de primeiros socorros em algum lugar.
Kazim começou a esvaziar a mala, colocando suas roupas em pilhas caprichadas sobre a cama. — Muito eficiente, viajar com seu próprio kit médico.
— Sou eficiente.
Seu estômago revirou ao ver aqueles longos dedos entre suas sedas e cashmeres. E quando encontrou os amassados chinelos de gatinhos, ele fez uma pausa, olhando-os como se não pudesse acreditar em seus olhos. Ele não disse nada. Mas Natasha sentiu o rosto queimar.
Ela olhou em torno ferozmente procurando uma distração. Encontrou-a na decoração egípcia. — Quem decorou isto aqui? Banheiros Egípcios Produções Ltda.? É ultrajante.
Ele colocou os chinelos no chão e riu.
Era um som sexy. Tão sexy que os cabelos de Natasha se arrepiaram suavemente na nuca. Aquilo a surpreendeu. Arrogância e sensualidade não andavam juntas. Não normalmente. Esse homem parecia estar revolucionando todas as suas reações normais.
— É puro art déco — disse ele. — Eu já falei. Foi encomendado a um especialista de Hollywood.
— Tinha de ser. Ou isso ou então nós teríamos um sério caso de roubo de túmulos aqui.
— Ah, aqui está. — Ele voltou ao banheiro com a bolsinha de primeiros socorros.
Ela ainda podia sentir os vestígios do rubor. Era tudo sua culpa também! Que tipo de mulher profissional pensava que chinelos felpudos de gatinhos eram indispensáveis para uma viagem internacional de negócios?
O que ele pensaria dela? E o que importava o que ele pensava? Mas ela não admitira que tivesse aqueles chinelos para ninguém, nem para a mãe, nem mesmo para Izzy. Muito menos que os levava sempre que viajava. E agora esse homem gozador, imprevisível e sexy era a única pessoa no mundo que sabia de seu segredo vergonhoso. Bem, pelo menos desse segredo. Ela estremeceu.
— Obrigada — murmurou. — Meu... — Ele parou abruptamente. — Bem, o dono original era condenável, mas nunca foi ladrão de túmulos.
Natasha seguiu seu olhar. As virgens eram magras como caniços e se contorciam em nós graciosos com suas musculaturas elásticas. Ela as olhou azeda.
— São apenas mulheres jovens usando muita maquiagem nos olhos e não muito mais — afirmou
ela.
Eram bonitas, inteiramente confiantes em seu fingido hedonismo. Definitivamente não eram o tipo de mulher que ficava digitando num computador às cinco da madrugada.
— Já se sentiu vencido alguma vez? — O tom de Kazim ficou bem mais confortador. — Elas não representam mulheres da vida real, sabe?
Natasha pulou e voltou ao momento presente.
— Obrigada por me tranqüilizar — disse ela secamente.
— Desnecessário, tenho certeza.
— Meu Deus, você é afável.
Ela não disse aquilo alto. Um visitante educado não fazia observações pessoais para o mordomo, mesmo que fosse um mordomo emprestado, com uma atitude evasiva e um gosto extravagante para cosméticos.
Ela quase arrancou a bolsa de primeiros-socorros da mão dele e rapidamente encontrou um curativo. Retirou o papel protetor e inspecionou o calcanhar.
Kazim a observava com evidente desaprovação.
— Você certamente vai desinfetar a ferida antes de colocar o curativo, não?
Natasha respirou fundo.
— Olhe, foi apenas um espinho de rosa, certo? Não um dardo venenoso.
— Mesmo assim, seria mais seguro lavá-la. Seus pés estão muito sujos.
Uma vez, quando ela tinha uns 8 anos, sua mãe tinha vindo pegá-la na escola. Era verão e a mãe usava um bonito vestido de voile com cheiro de flores de maçã. Satisfeita com o prazer inesperado, Natasha tinha saído correndo da quadra de esportes e se jogado em seus braços. Claro, ela estava suada e coberta de areia. Não foi surpresa a mãe ter recuado. Mas aquilo ficou, aquele pequeno, involuntário, incontrolável momento de repulsa. E doía.
Natasha muitas vezes imaginava o que a mãe teria dito se tivesse visto a única filha vestindo camisetas e shorts que não eram mais que andrajos, sem tomar banho há dias, caminhando com dificuldade pela selva sob as ordens de um valentão arrogante. Porque sua vida dependia dele. Recuar não a teria protegido. Chinelos felpudos de gatinhos eram apenas parte das coisas que Natasha não contava a seus entes mais próximos e queridos.
E agora aqui estava Kazim, que tinha visto aqueles chinelos e usava a colônia mais cara do mundo. Certo, sua reação não foi exatamente de recuo. Mas ele não gostava de seus pés sujos, aquilo era bastante óbvio.
— Obrigada por me lembrar disso — disse ela secamente.
— Vou tocar a campainha para chamar alguém... — ele fez outra daquelas pausas abruptas.
— Não há necessidade, obrigada — disse ela baixinho. — Há lenços anti-sépticos no kit de primeiros-socorros. Posso cuidar de tudo daqui para frente.
— A ferida está num lugar chato.
— Estou bem. Não preciso de ninguém. Fiz meus próprios curativos a vida inteira. E vou tomar um banho. Vou me esfregar da cabeça aos pés, prometo. Se você simplesmente for... Embora.
Os olhos dos dois encontraram-se como espadas.
Ele não foi embora. Ele não se mexeu. Depois a surpreendeu. Profundamente.
— Quando a vi pela primeira vez — ele estava pensativo — Achei que você parecia um robô.
Naquele ambiente reluzente e voluptuoso, ele colocou um dedo na veia que pulsava na garganta dela.
— Você não parece um robô agora.
Natasha ouviu-se ofegar como um balão explodindo. Kazim sorriu e inclinou-se para ela. Vagarosamente. Os olhos de Natasha estavam cautelosos, mas ela sentia um calor ardendo em fogo lento ali. E havia uma pergunta lá no fundo, uma pergunta que ele exigia que ela respondesse...
Natasha se inclinou cada vez mais para trás até achar que sua coluna ia quebrar. Mas não o empurrou. E não ousou proferir nenhuma palavra de protesto.
Kazim procurou seu rosto. Parecia muito sério; não estava mais provocando, nem mesmo questionando. Nenhum relance agora do homem cujos lábios haviam se curvado por causa de seus pés sujos. Nada daquela arrogância de arrepiar. Ele parecia estar partindo com ela para um território desconhecido e querendo saber se podia confiar nela...
Natasha reteve a respiração, chocada. Estava excitada com a expressão dele e aquilo também a chocou.
Então, enquanto ela o observava, seus olhos piscaram e ele se endireitou. Estava sorrindo novamente, mas seus olhos estavam camuflados. O fogo lento estava apagado, como se nunca tivesse existido. A pergunta, parecia, já tinha encontrado sua resposta. Ele sorriu.
— Surpreendente.
Ele parecia estranhamente satisfeito. E, antes que ela pudesse encontrar sua voz ou pensar em algo inteligente para dizer, ele tinha inclinado a cabeça e saído.
Natasha descobriu que estava prendendo a respiração. Inclinou-se sobre o conjunto de mármore, respirando cada vez com mais força. Finalmente sua respiração voltou ao normal. Estava desnorteada. Que diabos tinha acontecido?
Ela se olhou longamente no espelho veneziano. Seus cabelos bem cortados estavam desarrumados. Mas ela os arrumaria com uma boa escovada. Depois os cabelos louros naturais voltariam à forma elegante. Era por isso que pagava uma fortuna ao cabeleireiro. Eles emolduravam seu rosto, enfatizando as maçãs do rosto sutis, diminuindo a boca grande, o nariz decidido, os olhos cinzentos assimétricos e cansados de viver. Bem, naquele instante aqueles olhos cansados pareciam inseguros.
Sim, sem sombra de dúvida, Kazim, o mordomo, a tinha desorganizado completamente. Mas ela não ia aceitar aquilo. Ninguém desorganizava Natasha Lambert. O que precisava fazer agora mesmo era tirar a roupa de trabalho. Parecer um robô, francamente! Ela se transformaria agora em Natasha, a Convidada da Festa. E então, faria o maior sucesso com cada homem solteiro da fogueira, para variar.
Incluindo Kazim Quem-Quer-Que-Seja, com seu interesse esquisito por passaportes e seu detestável senso de humor. Sem falar na maneira pomposa de realizar suas tarefas de mordomo.
Involuntariamente, Natasha olhou de novo para o banheiro voluptuoso. Tinha sido construído exatamente para atiçar fogos lentos.
— Oops. De onde aquilo tinha saído? Já faz bastante tempo desde que você resolveu seduziu alguém — disse a si mesma, pesarosa. — Hora de aplacar novamente.
Limpou os pés imundos até que estivessem rosados e macios como um bebê. E tentou não se lembrar das mãos dele. Na verdade, esfregou-se durante o banho sem olhar nem mesmo uma vez para aquele espelho feito para a sedução. Desfez a mala com eficiência enérgica.
Depois, encontrou um suéter na gaveta. Era grande demais. As mangas caíam sobre suas mãos e ela poderia puxar a gola pólo para cobrir todo o rosto, se quisesse. Havia algo tranqüilizador no cheiro: lã, sabão em pó e um toque de algo mais que ela não conseguia definir, mas era prazerosamente familiar. Serviria perfeitamente.
Por baixo, ela colocou roupa suficiente para se manter aquecida. Pegou suas luvas forradas de pele e desceu, procurando as botas que Izzy tinha oferecido.
E voltou para a festa.
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