
Não Voltes a Casa, Ricardo
Capítulo 3
A viagem de carro foi um borrão de luzes de autoestrada e ansiedade. O motorista não disse uma palavra, e eu agradeci por isso.
Cheguei ao hospital de Coimbra com o sol a querer nascer. O cheiro a desinfetante e a doença pairava no ar.
Encontrei a minha mãe na sala de espera da unidade de cuidados intensivos. Ela parecia ter envelhecido dez anos em poucas horas.
"Mãe."
Ela abraçou-me com força, a chorar silenciosamente no meu ombro.
"Ele está lá dentro. Os médicos dizem que as próximas horas são críticas. Foi muito grave, Sofia."
Sentei-me ao lado dela, peguei na sua mão. Ficámos ali, em silêncio, a olhar para a porta fechada que nos separava do meu pai.
Tirei o telemóvel do bolso. Uma chamada perdida de Ricardo. E uma mensagem.
"Calma, amor. Exagerada. Liga-me quando chegares."
Exagerada.
A palavra ficou a flutuar na minha mente. O meu pai estava a lutar pela vida, e eu era exagerada.
Apaguei a mensagem. Apaguei o registo da chamada. Senti um nojo profundo a subir-me pela garganta.
Um médico saiu da UCI. Era jovem, com ar cansado.
"Família de António Mendes?"
Levantámo-nos as duas de um salto.
"Somos nós."
"Conseguimos estabilizá-lo, por agora. O enfarte foi extenso. Ele está sedado e vai permanecer em observação intensiva. As próximas 48 horas são cruciais. Podem vê-lo, uma de cada vez, por cinco minutos."
A minha mãe olhou para mim.
"Vai tu primeiro, filha."
Entrei na sala. O som dos monitores era constante, um bip rítmico que media a vida. O meu pai estava deitado na cama, pálido, com tubos a sair dele. Parecia tão frágil.
Peguei na mão dele. Estava fria.
"Pai, estou aqui. Luta, por favor."
As lágrimas que eu tinha segurado durante horas finalmente caíram.
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