
Não Sou Mais Sua Sobra
Capítulo 2
A festa de aniversário de Dona Celeste, minha sogra, enchia a casa com um barulho que me deixava tonta, a música alta e as risadas forçadas se misturavam no ar pesado de perfume e fritura. Eu me movia pela sala com uma bandeja de salgadinhos, oferecendo aos convidados com um sorriso que não alcançava meus olhos, um sorriso que eu praticava há anos. Meu olhar procurava constantemente por João, meu marido, e o encontrava onde ele sempre estava ultimamente, ao lado de Patrícia.
Patrícia, minha cunhada, irmã de João, tinha voltado para a casa da mãe há alguns meses, trazendo consigo seu filho pequeno, Pedrinho. Desde a sua chegada, a dinâmica da casa, que já era tensa para mim, se tornou insuportável. Ela era a filha pródiga, a favorita de Dona Celeste, e sua presença parecia iluminar a casa de uma forma que a minha nunca conseguiu.
Eu os observei de longe, João ria de algo que Patrícia sussurrava em seu ouvido, a mão dele pousada de forma casual, mas demorada, na parte inferior das costas dela. Era um toque íntimo, um gesto que ele raramente me dirigia em público. A proximidade deles criava uma bolha, um mundo particular onde eu não era bem-vinda, e a sensação de ser uma estranha na minha própria vida familiar se aprofundou.
"Maria da Graça, os copos acabaram na mesa de bebidas", a voz ríspida de Dona Celeste cortou meus pensamentos. Ela não me pediu, ela ordenou.
"Já estou indo, sogra", respondi, minha voz mais baixa do que eu gostaria.
Enquanto eu reabastecia os copos, vi João se aproximar de Patrícia com duas taças de champanhe, entregando uma a ela com um sorriso que eu conhecia bem, o mesmo sorriso que ele usou para me conquistar. Ele não me ofereceu nada, nem sequer olhou na minha direção, como se eu fosse parte da mobília. A dor daquilo foi aguda, uma pontada seca no peito que me deixou sem ar por um instante.
O ar da sala de estar de repente ficou rarefeito, as paredes pareceram se fechar sobre mim. Senti uma náusea subir pela minha garganta e precisei sair dali. Fui para a varanda dos fundos, o ar frio da noite batendo no meu rosto quente. Respirei fundo, tentando acalmar o tremor em minhas mãos. Eu me sentia patética, uma esposa ciumenta e insegura, mas o que eu podia fazer? O que eu estava vendo não era imaginação minha.
"Amor? O que você está fazendo aqui sozinha?" A voz de João soou atrás de mim, cheia de uma preocupação que soava completamente falsa.
Ele tentou me abraçar, mas eu me encolhi.
"Não é nada, só precisava de um pouco de ar", murmurei, sem olhá-lo.
"Você trabalha demais, Maria. Sempre se preocupando com tudo", ele disse, sua voz suave, manipuladora. "Patrícia estava comentando como você é esforçada."
A menção do nome dela vindo dele me causou um calafrio. Ele a usava como um escudo, como uma prova de que tudo estava bem. Mas eu sabia, no fundo da minha alma, que ele estava mentindo. O amor que eu acreditava que ele sentia por mim, o amor que era o alicerce da minha vida, de repente pareceu uma farsa bem construída, e eu era a única que não tinha o roteiro. Eu olhei para ele, para o homem com quem me casei, e pela primeira vez, questionei tudo.
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