
Não Sou Mais Sua Sobra
Capítulo 3
Mais tarde, a festa começou a esvaziar, e os que ficaram estavam visivelmente bêbados. Um tio distante de João, já com a fala arrastada, sentou-se ao meu lado no sofá e começou a divagar sobre o passado.
"Sabe, Maria da Graça, você é uma santa", ele disse, batendo no meu ombro. "Aguentar essa família... O João deu sorte. Eu me lembro, ah, como me lembro... ele era louco pela Patrícia. Completamente apaixonado. Quando ela decidiu ir embora com aquele outro cara, ele ficou arrasado, um caco. Ainda bem que você apareceu logo depois, uma moça boa, de família... curou o coração partido do meu sobrinho."
Cada palavra era como um soco no meu estômago. Eu não era o amor da vida dele, eu era o consolo, o prêmio de segunda categoria, a substituta que apareceu na hora certa. Todo o nosso namoro, o pedido de casamento, a vida que construímos... tudo foi erguido sobre as ruínas do amor dele por outra mulher. Por sua própria irmã. A náusea voltou com mais força, e eu senti um gosto amargo na boca.
Eu me levantei abruptamente, murmurando uma desculpa, e subi as escadas em direção ao nosso quarto, precisando ficar sozinha. A casa estava silenciosa agora, exceto pelas vozes baixas vindas da cozinha. Eu parei no topo da escada, meu coração batendo descontroladamente. A curiosidade, uma força doentia e masoquista, me fez descer alguns degraus, o suficiente para ver a cena sem ser vista.
E lá estavam eles. João segurava o rosto de Patrícia entre as mãos, a luz fraca da geladeira aberta iluminando a cena íntima. Ele a beijava, não como um irmão beija uma irmã, mas com uma fome desesperada, uma paixão que eu nunca tinha recebido dele em todos os nossos anos de casados.
"Eu te amo, Patrícia", a voz de João saiu embargada, um sussurro carregado de anos de desejo reprimido. "Eu sempre te amei. Você nunca devia ter ido embora."
O mundo ao meu redor desmoronou. O chão sumiu sob meus pés. Um grito silencioso rasgou minha garganta. A traição não era apenas um caso, era a negação de toda a minha existência ao lado dele.
Minha mente ficou em branco. A única coisa que senti foi uma fúria cega e primitiva. Desci o resto dos degraus, peguei o vaso de flores que estava sobre o aparador, um presente que eu mesma tinha comprado para a casa, e o atirei com toda a minha força contra a parede, perto de onde eles estavam.
O som do vaso se estilhaçando foi explosivo no silêncio da noite. Pedaços de cerâmica e água voaram para todos os lados. João e Patrícia se separaram bruscamente, seus rostos uma máscara de choque e culpa.
Dona Celeste apareceu na porta da cozinha, os olhos arregalados. "Maria da Graça! Você enlouqueceu? O que é isso?"
Ela não olhou para o filho e a filha em flagrante. Ela olhou para mim, a intrusa, a louca.
"Sua descontrolada! Quebrando as coisas dentro da minha casa!", ela gritou, correndo para o lado de Patrícia, que agora choramingava, se fazendo de vítima. João ficou parado, pálido, sem saber o que dizer. A culpa estava estampada no rosto dele, mas sua mãe só tinha olhos para a minha suposta histeria.
Você pode gostar





