
Não Sou Mais Seu Cachorro
Capítulo 2
Eu estava navegando nas redes sociais, esperando Patrícia chegar em casa, quando vi o vídeo que ela tinha acabado de postar. Era um clipe curto, mostrando a vista do novo escritório dela, um arranha-céu no centro da cidade. A legenda dizia: "Um novo começo!".
Eu sorri, feliz pelo sucesso dela. Cliquei para assistir. A câmera passeava lentamente pela janela, exibindo a paisagem urbana. Mas ela esqueceu de silenciar o áudio.
Uma voz masculina, que eu não reconheci, soou clara e um pouco brincalhona no fundo.
"Com um escritório desses, você nem precisa mais daquele seu namorado para te ajudar, não é? Mas você ainda usaria as mãos para ajudá-lo com as coisas dele?"
Houve uma pausa, seguida pela risada de Patrícia, uma risada que eu conhecia bem, mas que agora soava diferente, cheia de desprezo.
"Não", ela respondeu, com a voz nítida e cruel. "Eu ganho milhões por ano, ele é só um cachorro que eu sustento."
O telefone quase escorregou da minha mão. O sangue pareceu sumir do meu rosto, e um frio intenso tomou conta de mim. Eu rebobinei o vídeo. Ouvi de novo. E de novo. "Um cachorro que eu sustento." As palavras ecoavam na minha cabeça, cada uma delas um golpe surdo no meu peito.
Por cinco anos, eu tinha feito de tudo por ela. Abandonei a empresa da minha família, briguei com meu pai e me mudei para esta cidade para apoiá-la em sua carreira. Eu cozinhava, limpava, cuidava de todas as tarefas domésticas para que ela pudesse se concentrar no trabalho. Eu era o seu porto seguro, ou pelo menos era o que eu pensava.
Agora, eu entendia. Para ela, eu não era um parceiro. Eu era um animal de estimação.
A amargura subiu pela minha garganta, densa e sufocante. Levantei-me do sofá, caminhei até o nosso quarto em um transe. Abri a gaveta da minha mesa de cabeceira e peguei a pequena caixa de veludo. Dentro, o anel de noivado de diamante rosa que eu havia comprado com meses de economia brilhava, zombando de mim. Era o anel que eu planejava dar a ela em nosso casamento, em dez dias.
Sem hesitar, caminhei até a janela, abri e joguei a caixa na escuridão da noite. Observei-a desaparecer, um ponto minúsculo caindo na vastidão lá fora. Não senti arrependimento, apenas um vazio gelado.
Peguei meu celular novamente. A primeira mensagem foi para o meu pai.
"Pai, aceito o casamento arranjado. Demita Patrícia da empresa."
A resposta dele foi quase imediata. "Ótimo. Finalmente."
Em seguida, disquei o número da empresa de eventos que organizava o nosso casamento.
"Olá, aqui é Pedro. Preciso fazer uma alteração no casamento agendado para daqui a dez dias."
A voz do outro lado era profissional. "Claro, Sr. Pedro. Qual seria a alteração?"
"A noiva", eu disse, com a voz firme. "A noiva precisa ser trocada. Sim, é outra pessoa."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha, mas eu não me importei. Desliguei o telefone e me sentei na escuridão, esperando.
Uma hora depois, a porta se abriu. Patrícia entrou, cantarolando uma melodia qualquer. Ela usava um roupão de banho e seus cabelos estavam úmidos. Ela não me viu sentado no escuro e acendeu a luz.
"Ah, você está aí, meu amor", ela disse, sorrindo. "Estava tão cansada, tomei um banho rápido no spa perto do escritório. Vem, me ajuda a secar o cabelo?"
Era o nosso ritual. Todas as noites, eu secava o cabelo dela. Ela dizia que minhas mãos eram melhores que as de qualquer cabeleireiro. Agora, a simples visão do secador na penteadeira me causava náuseas.
"Faça você mesma", eu disse, sem me mover.
Ela parou, o sorriso congelando em seu rosto. "O que deu em você? Está de mau humor?"
"Estou cansado", respondi, a voz vazia de qualquer emoção.
Ela me encarou por um momento, desconfiada, mas depois deu de ombros. "Tudo bem, seu chato. Mas amanhã você não escapa."
Ela pegou o secador e começou a secar o próprio cabelo, reclamando do barulho. Eu a observei, cada movimento, cada palavra, agora tingidos pela verdade que eu havia descoberto. Ela era uma estranha para mim.
Quando ela finalmente terminou e foi para a cama, eu esperei ela dormir. O som de sua respiração tranquila enchia o silêncio do quarto, um som que antes me trazia paz e agora me enchia de repulsa.
Fui para a sala e liguei para minha mãe.
"Mãe?" minha voz falhou pela primeira vez naquela noite.
"Pedro? Filho, o que aconteceu? Por que sua voz está assim?"
"Eu terminei com a Patrícia", disse eu, e as palavras, ditas em voz alta, tornaram tudo real. "Eu... eu estava errado sobre ela. O tempo todo."
Eu contei a ela sobre o vídeo, sobre as palavras dela. Pude ouvir meu pai pegar o telefone no fundo. Senti uma onda de vergonha, lembrando de como eu havia lutado com eles, de como eu havia dito que eles não entendiam o nosso amor.
"Nós entendemos, filho", disse minha mãe, a voz suave e cheia de alívio. "Nós sempre soubemos. O importante é que você voltou para casa. Nós estamos aqui por você."
Naquela noite, pela primeira vez em cinco anos, eu não me senti como um cachorro. Eu me senti como um filho que finalmente estava voltando para casa.
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