
Não Sou Mais Seu Cachorro
Capítulo 3
Na manhã seguinte, acordei antes de Patrícia. A cama ao meu lado parecia um campo minado. Saí do quarto sem fazer barulho e fui para a cozinha preparar um café. O sol da manhã entrava pela janela, mas o apartamento parecia escuro e opressivo.
Meu celular tocou. Era Patrícia, ligando do quarto. Eu atendi.
"Meu amor, por que você não me acordou?", a voz dela era manhosa, o tom que ela sempre usava para conseguir o que queria. "Eu estou com saudades. Você estava tão estranho ontem à noite."
"Tive que acordar cedo para resolver umas coisas", respondi, olhando para a xícara de café preto em minhas mãos.
"Que coisas? Mais importantes do que eu?", ela insistiu, com uma pitada de irritação na voz. "Você nem me deu um beijo de bom dia."
"Estou ocupado, Patrícia. A gente se fala mais tarde."
"Pedro, não...", ela começou a dizer, mas eu desliguei.
Encostei na bancada da cozinha e respirei fundo. Cada palavra dela era uma agulha, não de dor, mas de irritação. A manipulação era tão óbvia agora. Como eu pude ser tão cego?
Meu pai me ligou logo em seguida.
"Filho, a demissão dela já foi processada. O departamento de RH vai comunicá-la hoje. Ela não terá mais acesso a nenhum recurso da empresa."
"Obrigado, pai."
"E sobre o casamento... sua mãe já falou com a família de Sofia. Eles estão felizes. Sofia também está."
Sofia. O nome dela trouxe uma sensação estranha, uma mistura de culpa e um calor há muito esquecido. Sofia era minha amiga de infância, a garota com quem eu cresci. Nossas famílias sempre quiseram nos ver juntos. Eu a magoei quando escolhi Patrícia.
"Eu sei que você ainda está processando tudo, Pedro", disse meu pai. "Mas Sofia é uma boa moça. Ela vai te fazer feliz."
"Eu sei, pai", respondi, e pela primeira vez, eu realmente acreditei nisso.
Mais tarde, naquele dia, eu estava em uma cafeteria perto do meu antigo apartamento, esperando por um corretor de imóveis para entregar as chaves, quando Patrícia apareceu. Ela estava pálida e segurava a barriga com uma das mãos.
"Pedro, eu não estou me sentindo bem", ela disse, com a voz fraca. "Acho que foi algo que eu comi. Minha chefe me liberou mais cedo."
Por um instante, um resquício do antigo Pedro, o cuidador, sentiu um pingo de preocupação. Foi um reflexo, um hábito de cinco anos difícil de quebrar.
"Você deveria ir a um médico", eu disse, a voz mais neutra que consegui.
"Você não vem comigo? Eu preciso de você", ela disse, tentando pegar minha mão.
Eu recuei. "Eu tenho um compromisso. Não posso."
A decepção em seu rosto era evidente, mas antes que ela pudesse argumentar, um jovem alto e charmoso se aproximou da nossa mesa. Eu o reconheci dos eventos da empresa. Era Tiago, o assistente dela.
"Patrícia, eu trouxe o remédio que você pediu", ele disse, a voz cheia de uma preocupação íntima. Ele colocou uma sacola de farmácia na mesa e, sem sequer olhar para mim, colocou a mão no ombro dela. "Você está melhor? Fiquei preocupado."
"Um pouco", ela respondeu, inclinando-se sutilmente em direção a ele. "Obrigada por vir, Tiago. Você é um anjo."
Tiago sorriu para ela, um sorriso que era mais do que profissional. Ele agia como se fosse o homem dela, o protetor. Ele me ignorou completamente, como se eu fosse um móvel na cafeteria.
Naquele momento, qualquer resquício de dúvida que eu pudesse ter se dissipou. A cena na minha frente era a confirmação final. O jeito que ela olhava para ele, o jeito que ele a tocava. Não era uma relação de chefe e assistente.
Ele a ajudou a se levantar, o braço firmemente em volta da cintura dela.
"Vou te levar para casa para você descansar", ele disse.
Patrícia finalmente se virou para mim, como se lembrasse da minha existência. "Pedro, eu... eu vou com o Tiago. A gente se vê em casa à noite."
Eu apenas assenti, observando-os sair juntos. Ele a ajudou a entrar em seu carro, fechando a porta para ela com um cuidado que eu reconhecia. O cuidado que eu costumava ter.
Olhei para a sacola de remédios que eles esqueceram na mesa. Um analgésico forte e um antiácido. Nada que justificasse o drama que ela havia feito. Era tudo um teatro. Um teatro no qual eu não era mais o ator principal, nem mesmo um espectador. Eu era apenas o cenário descartado.
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