
Não Sou Mais A Sua Sofia: A Herdeira Bilionária Renascida
Capítulo 2
O bar no Cais de Gaia estava cheio, o som das conversas e da música misturava-se com o ar quente de verão. Do outro lado do rio, as luzes do Porto cintilavam. Era para ser a nossa noite. A celebração do nosso noivado não oficial.
Mas Tiago Carvalho, o homem com quem cresci e a quem estava prometida, olhava para mim com um desprezo que eu nunca tinha visto.
"Não aguento mais isto, Sofia," disse ele, a sua voz alta o suficiente para que as mesas mais próximas se calassem.
"Não aguento mais a tua arrogância de menina rica."
O seu rosto estava vermelho, os seus punhos cerrados sobre a mesa. Os nossos amigos, os herdeiros das outras grandes famílias do vinho do Porto, olhavam, chocados.
Senti o meu rosto a queimar, mas mantive a minha postura. Anos de treino para ser a esposa perfeita de um Almeida não me deixavam desmoronar em público.
"Do que estás a falar, Tiago?" perguntei, a minha voz perigosamente calma.
Ele riu, um som feio e amargo.
"Estou a falar disto. De ti. A achares que o mundo te deve tudo porque nasceste com o nome Almeida."
Ele levantou-se de repente, a sua cadeira raspou ruidosamente no chão de madeira. O seu olhar desviou-se para um canto do bar.
Segui o seu olhar e vi-a.
Catarina Santos.
Ela estava lá, vestida com o uniforme de empregada de mesa do bar, um tabuleiro na mão, os seus olhos grandes e castanhos fixos em nós com uma expressão de medo e preocupação. Uma expressão que eu viria a saber que era completamente falsa.
Ela era filha da nossa antiga governanta, uma rapariga que a minha família tinha ajudado com uma bolsa de estudos.
"Deixa-a em paz, Sofia," disse Tiago, a sua voz agora cheia de uma proteção feroz. "Ela não tem culpa dos teus caprichos."
Eu nem sequer tinha olhado para ela com maldade. Apenas com confusão.
"Eu não disse nada," respondi, a minha calma a começar a falhar.
"Não precisas," ele cuspiu. "O teu olhar diz tudo. Achas que ela não é boa o suficiente para estar no mesmo sítio que tu."
Catarina deixou cair o tabuleiro de propósito. Copos partiram-se, o som agudo cortou o murmúrio do bar. Ela soltou um pequeno grito, como um animal assustado.
Imediatamente, Tiago correu para o lado dela, ignorando-me completamente.
"Estás bem? Ela magoou-te?" ele perguntou, a sua voz suave e cheia de preocupação. Ele ajudou-a a levantar-se, segurando as suas mãos, verificando se tinha algum corte.
A humilhação era um veneno a espalhar-se pelas minhas veias. Ele estava a acusar-me de a atacar, na frente de toda a gente.
Miguel, o meu irmão mais velho, que estava sentado connosco, levantou-se. Eu esperava que ele me defendesse. Ele sempre me defendeu.
Em vez disso, ele caminhou até Catarina.
"Catarina, estás bem? A Sofia não queria..."
"Eu sei," ela sussurrou, a sua voz a tremer. "A culpa é minha. Eu não devia estar aqui. Eu só... preciso do trabalho."
Ela olhou para mim, lágrimas a brilhar nos seus olhos. Era uma performance digna de um prémio. E eles os dois, Tiago e Miguel, caíram nela como tolos.
"É claro que não é culpa tua," disse Miguel, lançando-me um olhar de desaprovação. "Sofia, pede desculpa."
Eu olhei para o meu irmão, incrédula. "Pedir desculpa? Pelo quê? Por respirar?"
Tiago virou-se para mim, o seu rosto uma máscara de fúria. Ele agarrou num copo de vinho da nossa mesa, o nosso vinho, o vinho Almeida, e atirou-o contra a parede atrás de mim.
O vinho tinto escuro escorreu pela parede como sangue.
"Pára de ser uma cabra mimada!" ele gritou. "Acabou, Sofia. O nosso compromisso, o que quer que isto fosse, acabou. Eu não me vou casar contigo. Nunca."
O silêncio no bar era total. Só se ouvia o som dos soluços suaves de Catarina.
Tiago agarrou a mão de Catarina. "Vem, vou tirar-te daqui. Longe dela."
Ele passou por mim, puxando-a. Quando passou, parou e olhou para mim.
"Fica longe dela. Se a tocares, se sequer olhares para ela outra vez, juro que te arrependerás."
Miguel não disse nada. Apenas observou-os a sair, o seu olhar dividido entre a preocupação por Catarina e a desilusão em mim.
Fiquei ali, de pé, no meio do bar, com o vinho a escorrer pela parede atrás de mim e os olhos de todos postos em mim.
Não chorei. Não gritei.
Apenas senti algo a quebrar dentro de mim. Algo que nunca mais seria consertado.
Levantei o queixo, olhei para os nossos amigos que ainda estavam sentados, e disse com uma voz fria e clara: "Parece que a festa acabou."
Virei-me e saí, sem olhar para trás. A humilhação era uma capa pesada sobre os meus ombros, mas a minha espinha estava direita. Eles não me veriam cair. Não ali.
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