
Não Sou Mais A Sua Sofia: A Herdeira Bilionária Renascida
Capítulo 3
Cheguei a casa, o palacete da minha família no Porto, e a primeira coisa que fiz foi ir ao atelier da minha mãe. Era o meu santuário, o lugar onde ela me ensinou a amar a arte da filigrana. As suas ferramentas ainda estavam lá, a sua presença uma memória reconfortante.
Mas esta noite, o conforto não veio. Apenas a raiva fria.
Liguei a televisão, e as notícias financeiras falavam da iminente fusão entre as vinícolas Almeida e Carvalho. Uma fusão que dependia do nosso casamento.
Ri-me. Que piada cruel.
O meu telemóvel tocou. Era Tiago. Atendi, esperando um pedido de desculpas, por mais improvável que fosse.
"O meu pai está furioso," disse ele, sem qualquer preâmbulo. "Ele quer saber que raio se passou."
"Diz-lhe que o seu filho finalmente mostrou quem realmente é," respondi, a minha voz sem emoção.
"Não sejas ridícula, Sofia. Isto é sobre negócios. As nossas famílias contavam com isto."
"As nossas famílias," repeti. "E nós? O que é que nós éramos, Tiago? Um contrato?"
Houve uma pausa. Depois, ouvi a voz de Catarina ao fundo, suave e preocupada. "Tiago, não discutas. Não vale a pena."
O meu sangue gelou. Ela estava com ele. Claro que estava.
"Ela está aí contigo?" perguntei, embora já soubesse a resposta.
"Sim, está," ele disse, desafiador. "Eu levei-a para casa. Ela estava abalada. Ao contrário de ti, ela tem sentimentos."
"Sentimentos," repeti, a palavra a saber a cinzas na minha boca. "E o que é que tu sentes por ela, Tiago?"
Silêncio. Um silêncio que dizia tudo.
"Acabou, Sofia," disse ele finalmente, a sua voz mais suave agora, quase triste. "Eu amo-a. Lamento."
"Não lamentas nada," disse eu. "Tu querias magoar-me. E conseguiste. Parabéns."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Pouco depois, Miguel entrou no atelier. O seu rosto estava sombrio.
"O que é que fizeste, Sofia?" perguntou ele, a sua voz cansada.
"Eu? O que é que eu fiz?" A minha voz subiu uma oitava. "Tu estavas lá! Tu viste o que ele fez!"
"Eu vi-te a humilhar uma rapariga pobre que não fez nada de mal," ele retorquiu. "Catarina está a chorar sem parar. Tiago teve de a levar para o hospital, ela teve um ataque de pânico."
Um ataque de pânico. Claro. Ela era uma atriz talentosa.
"Ela está a mentir, Miguel. Ela está a manipular-vos a todos."
"Porquê? Porque é que ela faria isso?" ele exigiu. "Porque ela é pobre e tu és rica? Porque ela tem de trabalhar para viver e tu tens tudo na mão? És tão cega pelo teu privilégio que não consegues ver o sofrimento de outra pessoa?"
As suas palavras eram como bofetadas. Do meu próprio irmão. O meu protetor.
"Tu prometeste à mãe," sussurrei, a minha voz a quebrar. "No seu leito de morte. Tu prometeste que me protegerias sempre."
"E estou a proteger," ele disse, o seu rosto a endurecer. "Estou a proteger uma rapariga inocente da tua crueldade. A mãe ficaria com vergonha de ti."
Essa foi a facada final. A menção da nossa mãe, usada como uma arma contra mim.
Senti as lágrimas a quererem vir, mas engoli-as. Não na frente dele.
"Sai," disse eu, a minha voz baixa e trémula. "Sai do atelier da minha mãe."
Ele olhou para mim por um longo momento, o seu olhar frio e desapontado. Depois, virou-se e saiu, fechando a porta atrás de si.
Fiquei sozinha, rodeada pelas memórias da minha mãe, mas sentindo-me mais abandonada do que nunca. A traição não vinha apenas de Tiago. Vinha do meu próprio sangue. E essa doía muito mais.
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