
Não Me Procures: O Recomeço Impiedoso
Capítulo 3
Dois dias depois, deram-me alta do hospital. Pedro veio buscar-me. Ele tentou ser atencioso, ajudando-me a entrar no carro, colocando o cinto de segurança por mim.
Mas eu não sentia nada. O seu toque era o de um estranho.
O caminho para casa foi feito em silêncio. A casa, que antes era o nosso refúgio, agora parecia um mausoléu. Cada canto guardava uma memória do Leo. O seu pequeno par de sapatos à entrada, os seus desenhos presos com ímanes no frigorífico, o seu urso de peluche preferido no sofá.
A Sra. Helena estava na sala de estar, a falar ao telefone. Quando nos viu, desligou rapidamente.
"Eva, que bom que estás em casa," disse ela, com um sorriso forçado. "Preparei uma sopa para ti."
Eu não respondi. Apenas caminhei em direção ao quarto do Leo.
"Onde vais?" perguntou ela, com a voz subitamente tensa.
"Vou ver o meu filho," respondi, sem me virar.
"Não," disse ela, a sua voz firme. "Não é uma boa ideia. Precisas de seguir em frente."
Seguir em frente? O meu filho tinha morrido há dois dias.
Ignorei-a e abri a porta.
O quarto estava vazio. Completamente vazio. O berço, a cómoda, a caixa de brinquedos... tudo tinha desaparecido. As paredes, antes decoradas com autocolantes de animais, estavam nuas e brancas.
O ar foi-me arrancado dos pulmões.
"O que... o que é que fizeram?" virei-me para ela, a minha voz a tremer pela primeira vez.
"Eu arrumei tudo," disse a Sra. Helena, com um ar de superioridade. "Era preciso tirar estas coisas daqui. Não te faz bem ficares a olhar para elas."
"Arrancaste tudo? Sem me perguntar?"
"Eu sou a avó. E sou mais velha. Eu sei o que é melhor."
O Pedro entrou na conversa, colocando-se ao lado da mãe. "Eva, a mãe só estava a tentar ajudar. Isto é muito difícil para todos nós."
"Difícil para vocês?" A raiva, quente e violenta, finalmente explodiu dentro de mim. "Vocês tiraram as coisas do meu filho! Vocês apagaram-no como se ele nunca tivesse existido!"
"Não fales assim com a minha mãe!" gritou o Pedro.
"Ela não é a minha mãe! E tu és o meu marido! Devias estar do meu lado!"
"Estás a ser irracional! Estás de luto, não estás a pensar com clareza."
"Não me digas como devo sentir-me!" gritei, as lágrimas a escorrerem finalmente pelo meu rosto. "Vocês não têm o direito!"
Virei-me e corri para o nosso quarto, batendo a porta com força. Caí na cama, a soluçar incontrolavelmente. Eles não entendiam. Eles nunca iriam entender. Para eles, o Leo era apenas uma perda. Para mim, ele era o meu mundo inteiro.
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