
Não Mais Uma Substituta: A Nova Vida de Sofia
Capítulo 2
O ecrã do telemóvel iluminou-se com a notificação. Uma fotografia. Ricardo, o meu marido, a proteger Isabella Vargas da chuva com o seu casaco à porta do aeroporto de Lisboa. Um gesto de carinho. Um gesto que ele nunca teve comigo em cinco anos de casamento.
Hoje era o meu aniversário. Eu esperava-o no Solar de Alfama, o restaurante de fado que ele adorava. A mesa estava posta, a vela acesa. Eu estava sozinha.
As notícias online confirmavam: "Isabella Vargas, herdeira da fortuna do café, regressa ao país após divórcio milionário." Ricardo fora recebê-la.
Cinco anos. Cinco anos de um casamento de fachada. Ele casou comigo por impulso, no mesmo dia em que Isabella anunciou o seu noivado com outro. Eu aceitei, grata pelo apoio da família Almeida quando a minha própria família ruiu, e com uma paixão secreta por ele, uma paixão que ele nunca correspondeu.
Sempre fui a esposa submissa, a esperançosa. A que arrumava a casa, que lhe passava as camisas, que o esperava para jantares que ele raramente comparecia. A que ouvia, em silêncio, as suas constantes menções a Isabella, o seu "primeiro amor", a sua "grande paixão não resolvida".
Hoje, a esperança morreu. A imagem dele com Isabella, a protegê-la, foi a gota de água.
Basta.
Eu queria o divórcio.
Peguei no telemóvel. A minha mão tremia ligeiramente. Abri a galeria, apaguei a única fotografia que tinha dele no meu telemóvel, uma formalidade de um evento de caridade. Um ato pequeno, mas o primeiro passo para a minha liberdade.
A minha mente recuou. Flashback.
Eu era Sofia Mendes, uma rapariga inteligente e reservada do Porto. Família modesta. Consegui uma bolsa para uma universidade de prestígio em Lisboa. Foi lá que a minha vida se cruzou com os Almeida. O meu pai faliu, a minha mãe adoeceu. Os Almeida, através de uma fundação de caridade que apoiava alunos promissores, ofereceram-me apoio financeiro e moral. Fiquei-lhes eternamente grata.
Conheci Ricardo nessa altura. Ele era o herdeiro da influente família lisboeta do setor vinícola. Carismático, distante. Intimidava-me com a sua aura de poder. Eu admirava-o de longe.
Um dia, ele abordou-me. Isabella tinha acabado de anunciar o casamento. Ele parecia perdido, zangado.
"Sofia," ele disse, a voz fria, "preciso de uma esposa. Alguém discreto. Alguém que não me cause problemas. A minha família ajudou-te. Considera isto um... reembolso."
Fiquei em choque. Confusa. Desesperada. Mas uma parte de mim, a parte tola e apaixonada, agarrou-se à esperança. Talvez, com o tempo...
O casamento foi uma cerimónia civil, discreta. Sem festa, sem lua de mel, sem anel de noivado vistoso. Apenas os pais dele, formais, preocupados com as aparências, e o avô, Sr. Afonso Almeida, um homem de princípios que me olhou com uma curiosidade respeitosa.
Rapidamente percebi. O coração de Ricardo nunca seria meu. O nome de Isabella estava sempre nos seus lábios, nas suas memórias, nos seus suspiros. Fotografias dela, discretamente guardadas na sua secretária. Viagens de "negócios" que coincidiam com os locais onde Isabella vivia.
Eu era uma substituta. Uma distração. Uma esposa de conveniência para manter as aparências enquanto ele esperava que Isabella voltasse.
As "coincidências" dolorosas acumulavam-se. O perfume dela que ele ainda usava. As músicas que ele ouvia, as mesmas que ela mencionava nas suas raras entrevistas. O restaurante onde estou agora, o favorito dela, segundo ele me disse uma vez, esquecendo-se que era eu ao seu lado.
O telemóvel vibrou na minha mão. Uma mensagem de Ricardo.
"Desculpa, Sofia. Assunto urgente com a Isa. Não consigo ir. Feliz aniversário."
A sua indiferença era a confirmação final.
O casamento acabou. Dentro de mim, a decisão estava tomada, firme como uma rocha.
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