
Não Mais a Vítima
Capítulo 2
O som de metal a rasgar foi a última coisa que ouvi antes do impacto.
A minha cabeça bateu no volante. Dor. Depois, um silêncio pesado, quebrado apenas por um zumbido agudo nos meus ouvidos.
Abri os olhos. O cheiro a queimado e a fumo enchia o carro.
Ao meu lado, o meu marido, Marcos, mexia-se. Ele parecia bem, apenas atordoado.
"Marcos..." a minha voz saiu como um sussurro.
Ele não me ouviu. Os seus olhos já estavam focados no banco de trás.
"Lúcia! Estás bem? Fala comigo!"
A sua voz estava cheia de pânico, um pânico que ele não tinha por mim.
O cinto de segurança cravou-se na minha barriga de grávida de oito meses. Uma dor aguda e terrível começou a espalhar-se.
"Marcos... a minha barriga... ajuda-me."
Ele finalmente olhou para mim, mas o seu olhar era rápido, impaciente.
"Espera, Sofia. A Lúcia está a sangrar."
Olhei para trás. Lúcia, a sua amiga de infância que ele tratava como uma irmã, choramingava. Tinha um arranhão na testa. Um fio de sangue escorria-lhe pela têmpora.
Eu olhei para baixo. As minhas calças estavam a ficar molhadas. Um líquido quente. E vermelho.
"Marcos, estou a sangrar. O bebé..."
Ele já tinha saído do carro. Abriu a porta de trás e tirou Lúcia com um cuidado infinito.
"Calma, eu estou aqui. Vou chamar uma ambulância para ti."
Ele pegou no telemóvel. Eu vi-o a ligar para o número de emergência, a sua voz urgente a descrever o arranhão na testa de Lúcia.
Ele não disse nada sobre a sua mulher grávida que estava a sangrar no banco da frente.
A dor na minha barriga tornou-se uma facada. Era uma cólica, forte e violenta.
Com as mãos a tremer, peguei no meu próprio telemóvel. O ecrã estava estalado, mas funcionava.
Disquei o número de emergência.
"Preciso de uma ambulância. Tive um acidente. Estou grávida... e estou a perder muito sangue."
A minha voz quebrou.
Do lado de fora, ouvi a voz de Lúcia, fraca e manhosa.
"Marcos, obrigada. Se não fosses tu... eu acho que morria."
Marcos acalmava-a com palavras doces, palavras que ele não usava comigo há anos.
Eu desliguei a chamada e deixei o telemóvel cair.
A sirene que se aproximava era para mim. Eu tinha chamado por mim mesma.
Naquele momento, na ambulância, com a dor a rasgar-me por dentro, eu soube. O meu casamento tinha morrido na berma daquela estrada.
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