
Não Mais a Vítima
Capítulo 3
No hospital, o mundo era branco e cheirava a desinfetante.
A cara do médico era séria. As suas palavras eram diretas, sem rodeios.
"Lamento, Sofia. O trauma do acidente foi demasiado forte. O seu corpo entrou em trabalho de parto prematuro. Perdemos o bebé."
Eu não chorei. As lágrimas não vinham. Apenas um vazio imenso, frio, instalou-se no meu peito.
A minha mãe, Helena, chegou pouco depois. Os seus olhos estavam vermelhos. Ela abraçou-me, e o seu corpo tremia com soluços silenciosos.
Eu continuei a olhar para a parede branca.
Horas mais tarde, Marcos apareceu.
Ele não veio sozinho. Lúcia estava com ele, com um pequeno penso na testa. Ao lado deles, estava o pai dela, Ricardo, o mentor e chefe de Marcos.
A cara de Marcos era uma máscara de irritação.
"Sofia, que raio de drama foi este? Chamar uma segunda ambulância? Fizeste uma cena!"
A minha mãe levantou-se. "Uma cena? A tua mulher perdeu o vosso filho, Marcos! Onde é que tu estavas?"
"Eu estava a ajudar a Lúcia! Ela estava em choque, magoada!"
Lúcia começou a chorar. "A culpa é minha. Eu não devia ter vindo convosco. Sofia, desculpa..."
Ricardo pôs um braço protetor à volta dos ombros da filha.
"Não peças desculpa, querida. Não foi culpa tua. Sofia, tens de entender. Marcos fez o que qualquer pessoa decente faria, ajudou quem precisava mais."
Quem precisava mais? Um arranhão na testa contra uma hemorragia que me roubou o meu filho?
Olhei para Marcos. Pela primeira vez, vi-o com clareza. Não o homem com quem casei, mas um estranho.
"O bebé morreu, Marcos." A minha voz estava morta, sem emoção.
Ele vacilou por um segundo. Apenas um segundo.
Depois, a sua cara endureceu de novo. "Eu sei. É uma tragédia. Mas acidentes acontecem. Tu estavas a conduzir depressa demais."
A culpa. Ele estava a colocar a culpa em mim.
"Saiam." Eu disse, a minha voz baixa mas firme.
"Sofia..." começou Marcos.
"Eu disse para saírem. Todos vocês. Fora do meu quarto."
A minha mãe ficou ao meu lado, uma leoa a proteger a sua cria.
Ricardo olhou para mim com desprezo. "Vamos embora. Ela está histérica. Quando te acalmares e fores razoável, falamos."
Eles saíram. Marcos nem sequer olhou para trás.
Fechei os olhos. O vazio no meu peito tinha agora um nome. Chamava-se liberdade.
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