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Capa do romance Muçulmana Convertida - Um Sheik Em Minha Vida

Muçulmana Convertida - Um Sheik Em Minha Vida

Desesperada para salvar a vida da filha, Letícia aceita uma proposta inusitada: casar-se com Almir, herdeiro de um sheik, em troca de um dote milionário. Criada sob rígidos padrões submissos que sempre repudiou, ela deve agora fingir adequação à cultura muçulmana. Almir, embora ocidentalizado, precisa de uma esposa que aparente tradição para garantir sua herança. Juntos, esse casal improvável desafiará costumes e descobrirá que o diferente pode surpreender.
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Capítulo 3

Almir

Consegui enrolar meu pai por quase dez anos depois daquela conversa. Fiz pós-graduação, doutorado e alguns cursos também. Nesses dez anos, saí com centenas de ocidentais, de vários países diferentes, tentando encontrar aquela vontade de me casar com alguma. Mas nada aconteceu.

Soube que meu tempo havia se esgotado quando recebi a visita de minha tia Radija e do meu irmão mais velho, Fuad. Depois dos cumprimentos e abraços de saudade, Radija colocou a mesa para almoçarmos e fez a pergunta mais inusitada que eu poderia imaginar:

- Você continua fazendo suas orações cinco vezes por dia, Almir?

- Não, tia.

- Você ainda se sente um muçulmano, meu filho?

- Não, tia. Durante todos esses anos vivendo com os ocidentais, acredito que nossa cultura seja muito retrógrada.

- Não perguntei da nossa cultura, perguntei sobre a nossa religião.

- Nossa religião dita nossa cultura, tia. Porque tudo o que seguimos é o Alcorão. E aquela lei é retrógrada.

- O que é retrógrado para você, Almir?

- Vamos começar pelo fato de um muçulmano poder ter quatro mulheres. No Ocidente, isso é ilegal em qualquer cultura.

- Ilegal? Como um crime?

- Sim, ilegal como um crime, do mesmo jeito que um roubo ou algo do tipo.

- Entendo. E suponho que eles não punem os infratores, assim como um ladrão no Ocidente não tem a mão cortada.

- Lógico que os ladrões aqui não têm a mão decepada. Isso é uma barbaridade muçulmana.

- Você acha que o castigo para o ladrão é uma barbaridade, Almir? Mas em nosso país, quando alguém é pego roubando e tem testemunhas, lhe cortam a mão. É um castigo duro? Claro que é. Mas quem infringe a lei tem que ser punido. Mas o melhor dessa punição são as vítimas. Porque, quando encontramos alguém sem a mão, sabemos que é um ladrão. Não lhe damos a oportunidade de nos roubar. E aqui, Almir? Como vocês reconhecem o ladrão para ficar longe dele?

- Tudo bem, pode não ser uma barbaridade. Mas o que você quer que façam com o homem que for pego com mais de uma esposa? Lhe cortem as genitálias?

- Não sobrariam mais homens para a população feminina no Ocidente, Almir.

- Tia, já disse que é um crime. Apenas uma pequena porcentagem da população se arrisca a cometer bigamia.

- Engano seu, Almir. Os ocidentais acham um absurdo o homem tomar quatro mulheres por esposas, se casar com elas, dar nome, posição social e sustento, reconhecer todos os filhos dessas esposas e dedicar a mesma atenção, carinho e cuidado para cada uma. Mas acham natural tomar uma por esposa e várias outras com conjunção carnal e infidelidade.

- Tem uma brasileira trabalhando lá em casa. Ela vive cantando uma música. Não sei como se pronuncia, mas seu pai disse que a letra fala que amante não tem lar. Ele teve que me explicar o que é amante. Você sabe o que é amante, Almir?

- Sei, tia. Mas...

- Mas não quer me explicar. Faruk me disse que amante é esposa de cama. Por isso a música diz que amante não tem lar. Ela não tem casa nem direitos. O marido não a sustenta nem tem obrigação. Se ela tiver filhos com ele, nem são reconhecidos, a família não conhece, ela não pode se sentar à mesa com a primeira esposa, que na maioria das vezes nem sabe da existência dela. E pior, não são como as três esposas, que são fixas e respeitadas, porque o marido não pode ser infiel. Essas esposas de cama, sem direitos, podem ser trocadas de tempos em tempos, de um dia para o outro até.

- Eu entendi aonde você quer chegar, pare. Eu sei o que é amante, já te disse. - Eu já estava começando a ficar aborrecido com aquela conversa.

- Você tem um monte de esposas de cama, Almir. Está na hora de voltar para casa e ter a oficial, voltar para a sua cultura retrógrada, assumir uma esposa só e se dedicar a ela. Se não se apaixonou por ninguém nesse tempo todo, melhor ainda. A maioria dos muçulmanos combina seu casamento sem conhecer a esposa. Se quer casar com uma ocidental, encontre logo. Seu pai colocou a quarta ponte de safena no mês passado.

- Quarta? Por que ninguém me contou?

- Faruk não deixou. Disse que, se contassem que ele está doente, você poderia achar que ele está te manipulando.

- Faça o que tem que fazer, Almir. Seu pai é muito importante para mim.

Minha tia foi embora, e eu marquei uma saída com uma brasileira negra, gostosa pra caramba, que fazia o curso comigo.

- Eu já falei para você casar comigo, eu faço uma feijoada maravilhosa.

- Não comemos carne de porco, Madalena. Mas você está disposta a largar a sua volta ao mundo para casar, ter filhos e usar o lenço para sempre?

- Para sempre é muito tempo, Almir. Mas você não quer se casar com ninguém. Você pode devolver a noiva, por que não faz um contrato de casamento?

- O quê? Eu brigo com meu povo por decisões retrógradas e você agora quer que eu me case por contrato?

- Pensa, Almir. Você quer voltar para casa, vem se preparando há anos para assumir os negócios do seu pai. É grato a ele por ter te permitido encontrar uma mulher que te agrade, mas não rolou porque seu problema é com esposa e com o formato dos casamentos na sua cultura. Se você contratar uma pessoa, seu pai vai pagar, porque vocês pagam o dote da mulher. Faça o acordo, leve-a para lá e vocês serão felizes. Coloque um filhinho nela e, depois que o herdeiro nascer, mande-a fazer alguma coisa para você repudiá-la.

- E onde vou encontrar uma mulher que aceite isso, Madalena? Casar-se sabendo que depois que gerar vai ser devolvida?

- Você pode se surpreender com a quantidade de mulheres que fazem qualquer coisa por dinheiro no mundo todo. Posso te citar vários exemplos: barriga de aluguel aqui nos Estados Unidos. Mulheres que fazem inseminação artificial para vender os bebês...

- Não quero essas mercenárias.

- Então encontre uma com problemas financeiros, que vai ficar grata por fazer isso por você.

- Onde, criatura?

- Chat de relacionamento é um bom lugar.

- É mesmo, e eu crio um perfil com a descrição: procuro uma mulher para se casar comigo e eu devolvo em dois ou três anos?

- Claro que não. Vai atrair mercenárias. Crie um perfil normal, mas de preferência com um nome falso. Qualquer pesquisa na internet vai te denunciar. Depois vá conversando com várias mulheres. Tenho certeza de que, quando encontrar a certa, vai saber.

Embarquei nessa loucura. Madalena me ajudou. Fiz perfis em português, francês, italiano, inglês, árabe e espanhol, as línguas que falo fluentemente e consigo manter uma conversação. Madalena acompanhava as conversas e descartava todas que achava que não estavam em meu perfil. Depois de quinze dias, descartamos essa ideia. Faltava pouco mais de um mês para terminar meu curso e eu voltar para casa. Não podia mais perder tempo com aquilo. Me conformei em voltar e casar com uma muçulmana. Tudo para não deixar meu pai morrer sem me ver cumprindo a promessa que lhe fiz.

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