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Capa do romance Monstros Vestidos de Anjos

Monstros Vestidos de Anjos

Isabela e Luana sonhavam com a moda até terem suas vidas destruídas em um ataque brutal. Salvas por Rafael e Lucas, elas viveram dez anos de um casamento que parecia perfeito no Rio de Janeiro. Contudo, a revelação de uma gravidez expõe uma verdade cruel: seus maridos foram os mesmos carrascos que as feriram no passado para satisfazer a misteriosa Sofia. Agora, presas em uma farsa perversa, elas precisam planejar uma fuga desesperada durante o desfile das campeãs.
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Capítulo 3

A felicidade era uma fantasia bem construída, um carro alegórico suntuoso escondendo uma estrutura podre. Eu descobri isso em uma noite quente, a brisa do mar trazendo o cheiro de sal e falsas promessas. Luana tinha acabado de me contar, com os olhos brilhando de uma mistura de medo e esperança, que estava grávida de Rafael. Eu a abracei, feliz por ela, mas uma inquietação se instalou em meu peito. Naquela mesma noite, a festa na casa de Sofia, a estrela da escola de samba, estava no auge. Eu me afastei para um canto mais tranquilo do jardim, e foi lá que ouvi as vozes. Eram Rafael e Lucas.

Eles falavam baixo, achando que ninguém podia ouvir. Suas palavras eram lâminas frias que cortaram o ar e perfuraram a bolha de felicidade em que vivíamos.

"A Sofia está impaciente," disse Lucas, a voz desprovida da gentileza que ele sempre me mostrava. "Ela acha que a Luana ainda tem muito destaque. Acha que você a protege demais."

A resposta de Rafael foi um riso baixo e cruel, um som que fez meu sangue gelar.

"Proteger? Eu a controlo. Ela é minha. Mas Sofia não precisa se preocupar. Você se lembra do que fizemos para que ela tivesse o lugar que queria? Aquilo foi só o começo."

Meu coração parou. Do que eles estavam falando?

Lucas continuou, a voz ainda mais sombria. "Quebrar as mãos da Isabela foi arriscado. Se alguém descobrisse..."

"Ninguém descobriu," Rafael o cortou. "E funcionou. Sem os desenhos dela, a Luana ficou perdida. E Sofia conseguiu os croquis que queria. Foi um presente perfeito que você deu a ela, Lucas. Um presente roubado."

Eu levei a mão à boca para abafar um grito. Meus desenhos. Meus desenhos não foram simplesmente roubados por capangas aleatórios. Lucas, meu Lucas, os roubou. Ele os deu para Sofia. A dor em minhas mãos latejou com uma nova intensidade, uma dor que vinha da alma.

Eles continuaram, e cada palavra era um novo prego no caixão da nossa ilusão.

"E o ataque à Luana no barracão," disse Rafael, com um tom de orgulho doentio. "Foi uma obra-prima. Três dias. O suficiente para quebrar o espírito de qualquer um. Sofia queria que ela fosse humilhada, que sentisse o medo de verdade. E nós entregamos. Tudo para agradar nossa rainha."

A imagem de Luana, frágil e quebrada, me veio à mente. A dor, o trauma, o medo que a assombravam por anos. Não foi um ataque de um rival. Foi planejado. Por eles. Pelo homem que ela amava. Pelo homem que me prometeu proteção.

A conversa tomou um rumo ainda mais aterrorizante.

"E agora tem essa história da gravidez," disse Rafael, o desprezo evidente em sua voz. "Sofia está furiosa. Ela não quer um herdeiro meu com... ela."

"O que você vai fazer?" perguntou Lucas.

"O óbvio. Aquela criança não pode nascer. A Luana foi tocada, suja. Ela não é mais pura. Imagine um filho meu vindo de um ventre impuro? Meu único arrependimento em toda essa história é não poder me casar com a Sofia. Mas um dia, quem sabe?"

Um filho... impuro. As palavras ecoaram na minha cabeça. Eles não eram salvadores. Eles eram os monstros. Eles orquestraram nossa tortura, nosso sofrimento, tudo para satisfazer a inveja de outra mulher. E agora, Rafael planejava matar o próprio filho.

Eu não conseguia mais respirar. Recuei em silêncio, as pernas tremendo. Corri para encontrar Luana, que estava radiante, conversando com outras pessoas. Puxei-a pelo braço, sem conseguir dizer uma palavra. Meu rosto devia mostrar todo o horror que eu sentia, porque ela me seguiu sem questionar até um quarto vazio.

"Isabela, o que foi? Você está pálida."

As lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu contava tudo. Cada palavra horrível, cada detalhe da traição. Vi o brilho nos olhos de Luana se apagar, a esperança ser substituída por um choque devastador. A mão que ela pousou instintivamente sobre a barriga começou a tremer.

O amor, a segurança, a felicidade. Tudo era mentira. Uma armadilha cruel.

"Temos que sair daqui," eu disse, a voz embargada. "Temos que voltar para casa, para São Paulo. Agora."

Luana assentiu, o rosto uma máscara de dor e incredulidade. Ela olhou para a própria barriga, e eu vi o amor que sentia por aquela pequena vida se transformar em puro terror. Aquele bebê, fruto de um amor que nunca existiu, era agora um alvo.

Enquanto planejávamos nossa fuga, as memórias do barracão e das minhas mãos quebradas voltaram com força total. A dor física do passado se misturava à dor insuportável da traição no presente. Não éramos vítimas de um mundo perigoso. Éramos peões no jogo sádico de pessoas que amávamos. E a noite do desfile das campeãs, o auge da magia do carnaval, seria nosso palco para a fuga.

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