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Capa do romance Minha Voz, Minha Vida: O Renascer da Fadista

Minha Voz, Minha Vida: O Renascer da Fadista

Durante cinco anos, vivi para servir Diogo na mansão dos Azevedo, presa a um casamento de gratidão sem afeto. O seu desprezo culminou quando, distraído por Clara, ele assinou o divórcio sem ler. Após Diogo me abandonar ferida por azeite quente para socorrer o leve arranhão da outra, decidi partir. Com a aceitação numa academia em Paris, deixo a sombra de esposa descartável para recuperar o meu fado. O meu renascimento e liberdade começam agora.
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Capítulo 2

Cinco da manhã.

Sofia Almeida já estava de pé.

O seu corpo movia-se pela cozinha com a precisão de um relógio.

Primeiro, o café fresco para Diogo Azevedo.

Depois, as torradas, barradas com a compota caseira que ele preferia.

Sumo de laranja natural, espremido na hora.

Tudo disposto na mesa da copa, impecavelmente.

Há cinco anos que esta era a sua rotina.

Cinco anos a cuidar de Diogo, da casa, da quinta.

Cinco anos de um casamento que era um contrato.

Ele desceu as escadas perto das oito.

Os olhos fixos no ecrã do telemóvel.

Nem um bom dia.

Sentou-se, comeu em silêncio, absorto nas mensagens.

Sofia serviu-o, recolheu a loiça, sem uma palavra.

A indiferença dele era uma constante, uma paisagem familiar.

De relance, enquanto ele pousava o telemóvel para pegar na chávena de café, ela viu o nome.

Clara.

Sempre Clara.

O fantasma que assombrava a vida deles, ou melhor, a vida dele.

Sofia engoliu em seco. A presença de Clara, mesmo virtual, era um lembrete doloroso.

O telefone fixo tocou.

Sofia atendeu.

"Sofia, minha querida?" A voz de Dona Helena Azevedo, a matriarca, soou do outro lado.

"Bom dia, Dona Helena."

"Liguei para saber como estão as coisas. O Diogo... ele parece mais animado. Ouvi dizer que a Clara regressou a Portugal."

A preocupação na voz dela era palpável.

Preocupação com o filho, com o fim iminente do acordo.

"Sim, Dona Helena. O contrato está a terminar."

Sofia olhou pela janela. O sol da manhã iluminava as vinhas da quinta.

"E a Clara está de volta. Para mim, significa liberdade."

A voz dela era calma, resignada.

"Oh, Sofia... Lamento tanto por tudo isto. Pelos teus sacrifícios."

Dona Helena suspirou.

"Se precisares de alguma coisa para os teus planos futuros, sabes que podes contar connosco."

"Obrigada, Dona Helena. Só quero o meu tempo de volta. A minha vida."

Uma flor efémera, pensou Sofia. Foi isso que ela foi. Plantada para murchar.

Um flashback rápido.

Sofia, órfã, criada numa instituição de caridade em Alfama.

A sua avó, a única família que lhe restava, adoecera gravemente.

As dívidas acumulavam-se.

A família Azevedo, rica e tradicional, dona de uma vasta quinta produtora de vinho do Porto, ajudou.

Pagaram as despesas médicas, salvaram a pequena casa da avó.

Uma dívida de gratidão.

Foi então que Dona Helena lhe propôs o "contrato de gratidão".

Diogo Azevedo, o herdeiro, estava destroçado.

Clara Vasconcelos, o seu amor de juventude, elegante e de família tradicional, partira para o estrangeiro.

Casara com outro.

Diogo mergulhara numa apatia profunda, negligenciando tudo.

Um acidente de carro quase o matara. Ou talvez ele quisesse morrer.

Sofia tinha um sonho: uma bolsa de estudo numa conceituada casa de fados.

O seu talento era inato, a sua voz carregava a alma de Alfama.

Mas abdicou de tudo.

Assinou o contrato de cinco anos.

Casar com Diogo. Cuidar dele. Ajudá-lo a superar o desgosto.

Manter a casa, a quinta, com dedicação exemplar.

Em troca, a dívida da sua família seria esquecida.

Houve um momento, um vislumbre de esperança.

Numa regata, anos antes do contrato, mas já sob a sombra da dívida, Diogo, para impressioná-la, ou talvez para se impressionar a si mesmo, deixara cair ao mar uma joia de família.

Sofia, sem hesitar, mergulhara nas águas frias do Tejo e recuperara a peça.

Ele ficara genuinamente impressionado. Usou esse momento, esse anel recuperado, para a "pedir em casamento" como parte do contrato.

Um pedido vazio, motivado pela necessidade de cumprir o acordo, de ter alguém que o amparasse enquanto ele sofria por Clara.

Ela soube, mesmo ali, que o coração dele pertencia a outra.

Durante cinco anos, ela dedicou-se.

Refeições tradicionais portuguesas, as preferidas dele.

A quinta organizada, a casa a brilhar.

Ele, consistentemente, negligenciava-a.

Nos aniversários dela, ele estava sempre "ocupado".

Em momentos importantes, ele só tinha olhos para as memórias de Clara.

O segundo acidente de Diogo, dois anos após o início do contrato, foi um ponto de viragem para Sofia.

Ele estava no hospital, vulnerável.

E chamava por Clara.

"Clara... Clara..."

O nome ecoava no quarto, cada sílaba uma confirmação da futilidade dos seus esforços.

Foi ali, ao lado da cama dele, ouvindo o nome da outra, que Sofia teve a sua epifania dolorosa.

A sua missão falhara.

Diogo nunca esqueceria Clara.

E ela, Sofia, nunca teria o seu amor, nem sequer a sua atenção genuína.

O contrato estava a chegar ao fim.

Era hora de seguir em frente.

De reclamar a sua vida, a sua voz, o seu fado.

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