
Minha Voz, Minha Vida: O Renascer da Fadista
Capítulo 3
"Com quem estavas a falar?"
A voz de Diogo sobressaltou-a. Ele tinha descido, já vestido para sair.
"Com a tua mãe," respondeu Sofia, evasiva.
Ele deu de ombros, sem interesse. Pegou na pasta e saiu.
Sofia passou a noite em claro.
A conversa com Dona Helena, a imagem de Clara, a perspetiva da liberdade.
Tudo se misturava na sua mente.
A decisão estava tomada. Faltava apenas a execução.
De manhã, o pequeno-almoço de Diogo foi diferente.
Em vez das torradas e compota, havia croissants e iogurte grego com fruta.
"O que é isto?" ele perguntou, o tom ligeiramente irritado.
"Pensei em variar um pouco. Para te habituares a outros sabores," disse Sofia, calmamente.
Ela precisava de um pretexto para as mudanças que viriam.
Ele resmungou qualquer coisa, mas comeu.
O telemóvel vibrou. Ele pegou nele de imediato.
Sofia viu a ansiedade no rosto dele. Clara.
Ele ignorou-a completamente, os dedos a deslizar pelo ecrã.
De repente, um sorriso rasgou o rosto de Diogo.
Um sorriso genuíno, luminoso.
Um sorriso que Sofia raramente via, e nunca dirigido a ela.
Era por causa de uma mensagem de Clara.
A dor, já familiar, apertou o peito de Sofia.
Ela respirou fundo. Era agora.
Pousou uma pasta com documentos à frente dele.
"O que é isto?" ele perguntou, ainda a sorrir para o telemóvel.
"São os papéis do divórcio. E uns documentos para uma obra de caridade da família, para assinares."
A voz dela era firme, sem emoção.
Ele olhou para os papéis, distraído.
"Divórcio? Ah, sim. Claro."
Assinou onde ela indicou, sem ler, os olhos a voltarem para as mensagens de Clara.
A facilidade com que ele aceitou, a indiferença, confirmaram tudo.
"Vou retomar os meus estudos de fado," disse Sofia, mais para si mesma do que para ele.
"Talvez em Coimbra. Ou Paris. Preciso de tempo para mim."
Ele levantou a cabeça, confuso. "Estudos? Vais fazer um curso de culinária?"
A total falta de atenção dele era quase cómica, se não fosse tão trágica.
Sofia sorriu. Um sorriso de resignação, de libertação.
Ele não fazia ideia. Nunca fizera.
"Algo assim," respondeu ela.
Pegou nos papéis assinados e saiu da sala.
Era o início do fim.
Mais tarde, nesse dia, Sofia visitou a instituição de caridade em Alfama.
Madre Teresa recebeu-a com um abraço caloroso.
"Minha filha, pareces mais leve."
Sofia contou-lhe os seus planos. O divórcio, os estudos.
"Paris? Que maravilha! Sempre soube que o teu talento te levaria longe."
"O Diogo... ele nunca te mereceu, Sofia."
A voz de Madre Teresa era firme, mas carregada de carinho.
"Cinco anos é muito tempo. Ele teve a oportunidade dele. Não soube aproveitá-la."
As palavras da madre foram um bálsamo para a alma de Sofia.
Uma confirmação externa de que estava a fazer o correto.
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