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Capa do romance Minha vida é tua

Minha vida é tua

Sílvia enfrentou desde cedo o ódio e a brutalidade, conhecendo a dor profunda de perder o que mal havia conquistado. Em vez de revolta, seus traumas geraram uma força inabalável para recomeçar após cada queda. Esta história narra a trajetória de uma mulher resiliente que, entre a fome e o descaso de quem deveria amá-la, encontrou afeto onde menos esperava. É um relato sobre coragem, fé e o poder transformador do amor diante de realidades sombrias e cruéis.
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Capítulo 2

Minha mão pequena bate no vidro escuro do carro, que brilha ao sol do meio-dia, um homem de sorriso maldoso e olhar malicioso, cabelos brancos bem penteados, aparece na janela.

— Te dou tudo que quiser... É só entrar...Te dou até um banho, pra ficar...

Com o tempo eu aprendi o que cada olhar significava, observando os homens que apareciam lá em casa então eu corro para o mais distante possível, mas quando percebo meus passos estão me levando de volta para o inferno não tenho nem como me arrepender, pois ouço gritos desesperados do Báh, sinto a sua dor. Estou em frente à porta que se abre com violência..."

Sinto meu corpo sacolejar, e acordo suada, perdida, eu já deveria ter me acostumado, aos pesadelos vívidos em minha memória, que estão sempre lá, esperando um momento, um cochilo então ela invade meus sonhos e os transformam em pesadelos cruéis.

— Sil... Sil... Acorda... Estamos atrasados...— Levanto-me num salto e olho o garotinho de cinco anos e sorriso maroto de garoto inteligente.

Ele adora me acordar cedo, e me sorrir banguela, é nessas horas que eu ganho meu dia, minha semana.

Dou banho em Daniel, o responsável por me acordar antes das seis da madrugada, com seus olhos azuis incríveis e cabelos loiros.

Que nunca me perguntou por que somos diferentes, já até bateu num coleguinha que lhe disse que eu não sou sua irmã, ele me olha como se eu fosse a pessoa mais incrível do mundo.

Minha mãe... Ah esse nome se tornou tão doce em meus lábios que a primeira vez que falei, repeti e repeti tantas vezes, ela sempre diz a ele que eu sou uma super heroína que eu venci o monstro e também a morte, então ele me pergunta sempre quais são meus super poderes.

— Atravessa paredes? Solta lasers pelos olhos?

Estamos quase entrando na van escolar enquanto sou bombardeada por perguntas, sou uma garota fechada, mas com meu irmão eu não consigo manter a capa que criei para me proteger, eu não sei como, mas a doutora Olívia Mendes para falar a verdade eu sei como eles conseguiram ultrapassar essa parede que eu criei, foi com muito amor, paciência e carinho, ela e o homem que hoje em dia chamo de pai, o doutor Jonathan Mendes ou John. Eu não tinha chances de ser adotada por uma família se fosse parar no abrigo de menores, as ruas e a prostituição eram um inevitável destino, alguns anos depois veio o Daniel, mesmo calada eu senti medo de perder o amor e o carinho deles, mas quando aquele bebezinho, fofinho de olhos azuis foi posto em meu colo eu o amei, como amava meu irmão.

Vocês devem estar se perguntando: Onde está o Escobar? Você não voltou para buscar ele? Voltei sim, voltei e volto todas as noites mesmo que em pesadelos, quando eu cheguei lá acompanhada da polícia e da doutora Olívia, que eu não conseguia mais soltar a mão, sempre senti nela a segurança que tanto precisava e eu só me sentia calma com ela por perto, encontraram apenas um cadáver carbonizado de uma mulher, dívida de drogas, o crime não perdoa, e sem calcular as consequências que isso poderia trazer um dia, a declararam morta, sem exames de DNA, simplesmente pela identidade na bolsa próximo ao corpo.

Eu, eu não senti nada, só um alívio na alma, o peso dos meus ombros foram retirados, e então pude suspirar tranquila, só para me desesperar alguns minutos depois ao descobrir que o Escobar não estava mais lá, me desesperei e gritei por meu irmão, mas de nada adiantou, a vizinha disse a um dos policiais que um carro grande o havia levado, e rogo a Deus até hoje que ele não tenha sido vendido.

Desço da van escolar e seguro a mão do Dan, o deixo em sua sala e vou para minha escola que fica ao lado, as garotas saem da frente quando eu passo, elas sabem o que pode acontecer se cruzarem o meu caminho, eu fui formada na escola do terror por nome de barraco, por isso nunca precisei bater em ninguém para impor respeito e distância, aprendi a mostrar um olhar frio e cruel quando precisei, infelizmente aprendi com a melhor como suscitar o medo nas pessoas.

Não mostro minhas fraquezas, para ninguém além da minha mãe, sento em minha cadeira e retiro meu caderno de matemática, coloco de volta e pego o de português, sou dedicada aos meus estudos, minhas notas e meu comportamento exemplar me fizeram avançar rapidamente de turma.

Nunca falo sem ser convidada, não tenho amigos, não socializo e também considero o popular da turma um idiota que se escora nas sem cérebro, que se dizem caidinhas por ele, na minha opinião isso tudo é fogo, só querem um motivo pra sair com os caras, mas não julgo, elas não tem culpa dos meus traumas, são só adolescentes.

Faço minha rotina de sempre, busco o Daniel na sala dele e pegamos a van escolar, chego em casa e a Nice está no fogão, nossa mãe a contratou antes mesmo de eu chegar aqui, mesmo depois de muitas terapias e tratamentos eu ainda não confio em muitas pessoas, mesmo a Nice me tratando bem, nunca vi nada em seu olhar que me causasse desconforto ou desconfiança.

— Quer ajuda aí Nice?! — ela me dirige o olhar de sempre, um olhar terno quase maternal ao ouvir minha voz calma.

— Não querida, pode ir estudar, daqui a pouco te chamo pra almoçar. Balanço os ombros indiferente e subo os pequenos degraus, encontro Dan no meio do quarto espalhando seus brinquedos.

— Já sabe, não é? — faço a pergunta de sempre.

— Sim Sil, juntar e guardar tudo assim que terminar.

Lanço-lhe um dos meus raros sorrisos em resposta, Daniel é um garoto muito esperto às vezes eu fico boba com sua inteligência.

— Dan vamos tomar um banho para almoçar. — Eu cuido dele, não por imposição dos meus pais, mas porque o amo, quando minha mãe falou em contratar uma babá eu fui totalmente contra, tive medo de alguma delas machucarem meu bebê, sempre que cuido do Dan peço a Deus que alguém esteja cuidando do meu Báh.

Nosso pai de vez em quando vem em casa almoçar com a gente, então quando a porta da frente é aberta e eu o vejo abraçado a minha mãe que chora copiosamente em seus braços eu corro em sua direção, ela me vê e percebe a dor que sinto a vendo chorar, ela me agarra e me abraça como se eu fosse seu bote salva vidas, Dan que estava almoçando distraído vê o choro da mãe e corre para nós. Ainda não sei o que houve, só sei que minha alma também sangra com seu sofrimento, eu não poderia não amar essa mulher, ela foi muito corajosa adotando uma pré-adolescente e me arrancando da escuridão em que fui jogada, ela me amou primeiro.

Ela nos abraça e nos aconchega em seu colo no sofá da sala que não chega nem perto do conforto dos seus braços.

— Eu preciso de vocês hoje, grudem em mim.

— Não precisa nem pedir mãe — respondo feliz por ter uma mãe de verdade, eu nunca imaginei que era o início de um tormento, mas fazia ideia da gravidade ao ver as lágrimas nos olhos de John, mas não perguntei nada apenas me aconchego no meu lugar favorito, Dan também veio e ficou calado, mas eu sei que ele está estranhando o choro da nossa mãe.

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