
Minha Senhora
Capítulo 3
Nesse ínterim, a mulher direcionou toda a sua atenção para o Senhor Jiang, olhou-o de cima a baixo sem o mínimo de decoro. Absorvia cada centímetro daquela ótima aparência à sua frente. Não possuía qualquer catálogo de imagens viris em sua mente para comparar, porém o tal sujeito Jiang era, sem dúvidas, alto e forte. Bonito?
Bom, seus braços, mesmo sob o tecido denso das mangas do blazer preto, pareciam estarem repletos de relevos notáveis, palpáveis e atrativos, suas pernas eram longas.
Em seu rosto as feições angulares encaixavam-se bem definidas as suas demais características faciais. Todo seu rosto trazia uma harmonia digna de uma escultura em mármore. Ele tinha olhos azuis brilhantes, com a borda da íris acentuada. Longos cílios arrebitados guarneciam suas pálpebras bem marcadas.
Céus, ele ainda tinha lábios modelados e vermelhos, sem qualquer sombra de um sorriso; ele era um homem realmente muito atraente. De cabelos escuros e curtos. Algumas mechas caiam em sua testa, o que criava um contraste com a sua pele clara e delicada, imaculada.
Esse tal homem tinha a aura de um rei, ele era imponente em seus movimentos, feito um lustre que rouba a atenção de todos no centro do salão. Suas palavras eram firmes e banhadas de uma autoridade ressoante. Ele parecia um sujeito dominador.
"Mas o que ela está pensando?", o Senhor Jiang remoeu internamente ao notar dois orbes vidrados em sua silhueta. Até se incomodou! Ora, pois. Aquela mulher o olhava tão atentamente que parecia sugá-lo para dentro de seus olhos.
Ao mesmo tempo, Heitor resolveu examiná-la, este queria entender o que a mulher estava pensando, desejava entender cada expressão, mas era difícil. Tão difícil quanto ler o coração de uma pedra!
Essa estranha tinha olhos claros, tingidos de uma profundidade tão intensa quanto um poço sem fim, um olhar distante, porém desconfiado. Mesmo sua figura abatida não diminuía a essência de sua alma, ela parecia ter uma nobreza natural.
Entretanto, uma coisa ele já sabia, ela era teimosa. Muito teimosa. E orgulhosa. Ela tentou se levantar da cama com as próprias forças, sem ao menos considerar pedir ajuda a ele. Primeiro, o Senhor Jiang não fez menção de que iria interferir. Apenas a observou solene, de braços cruzados e um sorriso velado nos olhos.
"O médico não disse que ela não iria andar?", pensou Heitor irônico. Quando percebeu que ela não pararia por si só, após fracassar de início, o Senhor Jiang tentou segurá-la na cama. "Acho melhor não fazer isso. Pelo que sei, você ainda está muito fraca".
"Preciso ir ao banheiro", respondeu. Seu corpo magro ainda tentava se sentar na cama.
"Então eu vou ajudá-la". Heitor a aparou com suas mãos grandes e a puxou para se apoiar melhor no leito.
Em pouco tempo, após o momento que ele deu a ela para se nortear na nova posição, Heitor fez menção de guiá-la. Nesse período, o ambiente estava quase isento de sons, apenas alguns ruídos mecânicos eram ouvidos pelo corredor e o cochicho de alguns profissionais vestidos de branco que passavam frente ao quarto.
Assim que entendeu a intenção do jovem homem, a senhorita franziu a testa. "Esse tio quer me levar pessoalmente ao banheiro?", cogitou.
"Senhor, eu não o conheço, agradeço a sua ajuda. Mas como eu posso ir ao banheiro com um homem estranho?", ela enfatizou bem os termos homem e estranho. Seu tom de voz deveras sugestivo.
Logo Heitor compreendeu o que ela queria dizer e sugeriu chamar uma enfermeira, a qual com uma agilidade magistral, veio e ajudou em tudo. Sempre com uma paciência materna e um sorriso afetivo.
Aliviado, o homem pensou que isso era bom.
Pelo menos ele já sabia que a mulher não havia perdido nenhum de seus movimentos, que ela falava, enxergava e tinha um pingo de senso rastejando em algum lugar de sua cabeça. No entanto, infelizmente, não se lembrava de nada.
Já se havia passado um mês desde o incidente, ela estava em coma todo esse tempo. Entre a vida e a morte, cercada por riscos e chances negativas. Felizmente ela despertou, como que por um milagre, disse o médico.
Todos os dias Heitor ia ao hospital e ficava com ela, por algum tempo, ele tinha uma dívida eterna com ela. Ela cuidou de seu filho quando ele não pôde. Como ele poderia ignorar isso?
Além disso, Demian se afeiçoou aquela mulher, uma vez que ninguém o tratava assim desde que ele conseguia se lembrar. Todas as suas babás – ou outras mulheres – que eram gentis com ele faziam isso só por causa de seu pai. Todas elas queriam a mesma coisa: ser sua madrasta. Na sua compreensão, eram todas mulheres más.
Por isso nunca deixou nenhuma se aproximar. Por isso era tão fechado, como o Senhor Jiang. Ele só confiava em seu pai, até agora. Até essa desconhecida aparecer e o salvar daquele lugar horrível e das mãos dos bandidos. Ainda por cima, levou um tiro por ele!
Quem faria isso?
Foi assim que Demian abriu o seu coração para aquela desconhecida. Todos os dias o garoto perguntava ao seu pai pela sua salvadora. Às vezes ele estava pessoalmente no hospital só para vê-la.
Na sua visão, ela era como as princesas dos contos de fadas. Era a bela adormecida a qual ele ansiava que acordasse logo. Quando seu pai lhe deu a maravilhosa notícia de que sua heroína havia enfim despertado, Demian vibrou de alegria.
Claro! Ele sabia que ela havia se machucado por ele. E ele queria vê-la novamente, falar com ela, estar com ela. Bom, isso foi o que ele fez.
Você pode gostar





