
Minha Paz Para Além do Pesar Dele
Capítulo 2
Minha voz estava calma, quase perturbadoramente calma. Era um contraste gritante com a Cecília a que ele estava acostumado - aquela que estaria chorando, implorando ou gritando a essa altura. Aquela que se agarraria a ele, desesperada por qualquer migalha de segurança. Mas aquela Cecília se foi. Ela estava embalada em uma daquelas caixas, uma relíquia de um passado que eu estava determinada a deixar para trás.
"Você mesmo disse, Daniel," continuei, dando um passo mais perto, forçando o contato visual. Meu olhar era firme, inabalável. "Se você saísse por aquela porta, tudo estaria acabado. Lembra daquela conversa? Na semana passada."
Um lampejo de algo - culpa, talvez, ou mera irritação - cruzou o rosto de Daniel. Seus olhos se desviaram por uma fração de segundo antes de voltarem para os meus, um brilho defensivo tomando conta.
"Você disse que era uma 'viagem idiota'. Você disse que eu estava sendo 'dramática'," lembrei-o, minha voz ainda uniforme, embora cada palavra fosse um golpe de martelo. "Você disse que eu era 'controladora' e que você precisava de 'espaço' da minha 'carência'." Citei suas palavras exatas, as frases gravadas em minha memória. "Você se lembra de ter dito essas coisas, Daniel?"
"Chega, Cecília!" Daniel rugiu, batendo a bolsa de grife que Bruno segurava no balcão. A bolsa de couro cara deslizou pela superfície polida com um arranhão áspero, parando perigosamente perto da borda.
Bruno se encolheu, assustado com a explosão repentina. Ele tinha dado um passo para trás quando eu falei pela primeira vez, criando sutilmente distância, mas agora ele recuou ainda mais, um leve tremor em sua mão.
"Viu o que eu quero dizer, Daniel?" Bruno interveio, sua voz aguda e indignada, dirigida a mim. "Ela está tentando te manipular! Sempre se fazendo de vítima. Ela sabe que você estava apenas desabafando com seu melhor amigo, mas ela tem que fazer tudo sobre ela." Ele se virou para Daniel, baixando a voz conspiratoriamente. "Ela só está brava porque sabe que você me disse o quanto ela te enlouquece às vezes."
Eu os observei, a dança familiar de vítima e cúmplice. O rosto de Daniel era uma mistura de confusão e raiva, mas ele não corrigiu Bruno. Ele nunca corrigia. Ele apenas absorvia a narrativa conveniente.
Meu estômago se revirou. Parecia uma repetição doentia e distorcida de todas as discussões que já tivemos. O jeito como Bruno sempre se intrometia, sempre distorcia minhas palavras, sempre validava os piores instintos de Daniel. Era um ciclo tóxico, e eu estava tão, tão cansada de estar presa nele.
Daniel, aparentemente encorajado pelas palavras de Bruno, deu um passo à frente. Ele estendeu a mão para a minha, seus dedos tentando se entrelaçar com os meus. "Amor, vamos lá. Você sabe que eu não quis dizer daquele jeito. O Bruno só me deixa pilhado às vezes. Ele não entende nosso relacionamento." Seus olhos, geralmente tão confiantes, agora estavam suplicantes, quase desesperados. "Eu comprei a bolsa porque eu realmente senti sua falta. Eu quero consertar as coisas. Vamos só conversar, ok? Podemos esquecer tudo isso. Você pode desfazer as caixas."
Ele tentou levantar minha mão, como se para colocar o anel de noivado imaginário que ele havia mencionado antes. Bruno, enquanto isso, me dava um sorriso triunfante e conhecedor. "Ele está até falando em casamento, Cecília. Ele sempre fala em casamento quando está tentando amenizar as coisas. É o que você quer, certo?"
Casamento. A palavra pairava no ar, pesada e frágil, como um vidro velho prestes a se estilhaçar.
Lembrei-me da última vez que Daniel ofereceu o casamento como um tratado de paz. Foi depois que o encontrei, não com outra mulher, mas com Bruno, em um bar mal iluminado, rindo enquanto Bruno imitava minhas crises de ansiedade.
"Ela é uma dor de cabeça, cara," Daniel tinha arrastado as palavras, sua voz grossa de álcool e desdém. "Sempre preocupada com alguma coisa. Sempre precisando que eu a tranquilize. Ela não pode simplesmente ser feliz?"
Eu tinha exigido uma explicação, uma linha traçada na areia. "Daniel, seu melhor amigo zomba de mim. Ele constantemente nos sabota. Como você pode permitir isso?"
Ele tinha revirado os olhos. "Não seja tão sensível, Cecília. É só conversa de vestiário. O Bruno é meu irmão. Você precisa relaxar."
Ele me chamou de "controladora" por pedir que ele não compartilhasse detalhes íntimos da nossa vida com Bruno. Ele me chamou de "egoísta" por querer que ele priorizasse nosso relacionamento. Ele me chamou de "louca" por me sentir magoada quando ele ignorou minhas ligações por dias, apenas para postar fotos dele festejando com Bruno.
Lembrei-me do tom frio e desdenhoso em sua voz quando finalmente o alcancei, histérica e preocupada. "Cecília, por que você é sempre tão dramática? Eu estou bem. Só me divertindo um pouco. Você precisa parar de ser tão grudenta."
Eu tinha implorado a ele então. "Daniel, por favor. Eu preciso de você. Estou com medo."
"Você está bem," ele tinha zombado. "Toma um calmante. Eu volto quando eu voltar. Não me espere acordada."
Naquela noite, eu lhe dei o ultimato. "Daniel, se você sair por essa porta agora, se você priorizar o Bruno e essa viagem em vez de nós, então realmente acabou. É isso. Sem volta."
Seu rosto tinha sido indecifrável então, uma estranha mistura de irritação e algo mais, algo que eu não conseguia decifrar. Mas ele hesitou. Apenas por um momento.
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