
Minha Paz Para Além do Pesar Dele
Capítulo 3
Ele ficou ali, paralisado, a mão ainda na maçaneta. Meu coração martelava contra minhas costelas, uma batida desesperada e frenética. Vi o brilho de lágrimas em seus olhos então, lágrimas de verdade, embaçando sua visão. Ele olhou para mim, realmente olhou para mim, pela primeira vez em meses.
"Daniel," eu sussurrei, minha própria voz embargada por lágrimas não derramadas. "Por favor. Não vá. Eu preciso de você. Eu preciso de nós."
Minhas súplicas eram cruas, despidas de orgulho. Eu lhe contei tudo. O quanto eu odiava a influência de Bruno, o quão sozinha eu me sentia, como seu constante descaso minava minha autoestima. Despejei todos os meus medos, todas as minhas ansiedades, toda a dor de me sentir um distante segundo lugar para seu melhor amigo.
"Eu só quero ser sua prioridade," eu engasguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Só uma vez. Apenas me escolha. Escolha a gente."
Ele engoliu em seco, seu olhar fixo no meu rosto manchado de lágrimas. Por um segundo fugaz, vi um vislumbre do Daniel por quem eu me apaixonei - aquele que era terno, compreensivo, que me abraçaria e prometeria que tudo ficaria bem. Prendi a respiração, a esperança florescendo frágil e feroz em meu peito. Ele ia me escolher. Eu sabia. Ele tinha que escolher.
Então, seu celular vibrou.
Ele o tirou, um rápido olhar para a tela. O nome de Bruno brilhou, acompanhado por uma mensagem frenética. Cara, eles estão prestes a chegar na Beira-Mar! Se você não estiver aqui em cinco minutos, vamos sem você! Não seja um covarde!
A expressão de Daniel endureceu. A ternura desapareceu, substituída por um velho e familiar ressentimento. Ele olhou para mim, depois para o celular, depois de volta para mim. Ele inspirou bruscamente.
"O Bruno tem razão," ele murmurou, sua voz fria, distante. "Você está sendo irracional, Cecília. Não tente me controlar. Eu te disse que eu ia."
Ele abriu a porta.
"Espera, Daniel, por favor!" eu gritei, correndo para frente, tentando bloquear seu caminho. "Não faça isso! Se você sair, acabou!"
Ele me olhou com uma expressão quase piedosa. "Você realmente é dramática, não é? Você sempre diz isso. E você sempre me aceita de volta. Você vai se acalmar." Ele passou pela soleira. "Eu te trago algo legal de Floripa."
Então, ele se foi. A porta bateu com um baque doentio, vibrando por todo o apartamento. O som ecoou no silêncio súbito e cavernoso.
Fiquei na porta vazia, o cheiro do jantar que eu tinha preparado com tanto carinho para o seu retorno agora frio e zombeteiro. Dois pratos, ainda fumegando na mesa. Minhas velas favoritas, acesas e bruxuleantes. Tudo para nada.
Mais tarde naquela noite, as primeiras fotos apareceram no Instagram de Bruno. Daniel, de braços dados com Bruno, fotos deles virando cervejas, jogando, rindo com um grupo de mulheres com pouca roupa. As legendas de Bruno eram zombeteiras, quase exultantes. Floripa, bebê! Sem drama aqui! Então, uma provocação direta: Algumas pessoas simplesmente sabem como viver. Outras só sabem como ser grudentas.
Olhei para as fotos, a comida que eu me forcei a comer subindo pela minha garganta. Corri para o banheiro, vomitando até meu estômago ficar vazio e ardendo. As lágrimas vieram então, violentas e incontroláveis, sacudindo meu corpo com soluços até eu não conseguir respirar.
Essa foi a noite em que acabei na emergência, lutando para respirar, meu coração disparado. Crise de ansiedade aguda, disseram os médicos. Causada por estresse extremo. Eles me deram sedativos, monitoraram meu coração e me mandaram para casa com uma receita e um aviso para evitar gatilhos.
Durante minha estadia, eu rolei compulsivamente pelas redes sociais de Bruno. Mais fotos. Mais vídeos. Daniel, parecendo vibrante e despreocupado, vivendo sua melhor vida, completamente alheio ao fato de que eu estava ligada a um soro, lutando para simplesmente existir. As atualizações constantes de Bruno eram um cruel rolo de destaques dos meus piores pesadelos.
Bruno (legendando uma foto de Daniel rindo com uma mulher em uma festa na piscina): Daniel está se divertindo como nunca, finalmente livre!
A seção de comentários estava cheia de pessoas os aplaudindo, elogiando seu 'código de irmãos', criticando a 'namorada controladora' de Daniel. E então, a facada final: uma das postagens de Bruno, uma foto de grupo em uma mesa de pôquer de altas apostas, foi curtida pelo próprio Daniel.
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