
Minha Fuga do Seu Amor Venenoso
Capítulo 2
Ponto de Vista: Alina
Heitor levou exatamente dezessete minutos para ir de sua cobertura na zona sul até o loft de Carla no Itaim Bibi. Ouvi o cantar dos pneus na rua abaixo, seguido pela batida pesada de uma porta de carro. Segundos depois, ele estava arrombando a porta que deixara destrancada na pressa.
Seus olhos, arregalados e furiosos, pousaram primeiro em Carla. Ela estava caída no chão onde eu a deixei, suas calças de ioga brancas e imaculadas manchadas com o sangue que escorria de seu rosto. Um som baixo e gutural de raiva escapou de sua garganta.
"Alina! Que porra você fez?", ele rugiu, caminhando em minha direção. "Você enlouqueceu?"
Ele se ajoelhou ao lado de Carla, suas mãos pairando sobre ela como se tivesse medo de tocá-la, de causar-lhe mais dor. "Oh, Deus. Carla. Amor, olhe para mim."
"Ela está bem", eu disse, minha voz monótona. Meu olhar estava fixo no relógio da parede. "Por enquanto."
"Bem? Olhe para ela!", ele rosnou, finalmente olhando para mim. O homem que uma vez me olhou com devoção obsessiva agora me encarava como se eu fosse um monstro. "Ela é só uma menina, Alina! Ela não fez nada!"
"Ela tem vinte e dois anos, Heitor. E ela te ajudou a sentenciar meu pai à morte", respondi, minha voz calma um contraste gritante com sua fúria. "O relógio está correndo."
Ele me fuzilou com o olhar, sua mandíbula tensa com um ódio que não estava mais escondido. Era cru, real, e confirmava tudo. Seu perdão sempre fora uma mentira. Uma performance.
Para provar meu ponto, caminhei até onde Carla estava soluçando, agarrei um punhado de seu cabelo novamente e puxei sua cabeça para trás. Ela gritou de dor e terror.
"Pare com isso!", Heitor gritou, levantando-se de um salto. "Alina, eu juro por Deus-"
"Salve meu pai", eu disse, minha voz caindo para um sussurro mortal enquanto me inclinava perto do ouvido de Carla. "Ou eu vou quebrar cada osso do corpo dela, tão espiritualmente alinhado. Um por um."
Os soluços de Carla se tornaram mais frenéticos, seu corpo tremendo sob minha mão. Sua voz era um sussurro rouco e quebrado. "Heitor... por favor... o Universo... ele vai nos proteger..."
Aquela baboseira ridícula de nova era, mesmo agora. Era como gasolina no fogo da minha raiva.
"O Universo não está atendendo o telefone, está, Carla?", zombei.
O rosto de Heitor estava pálido, seus olhos dardejando entre mim e a garota choramingando no chão. A visão de suas lágrimas, de seu sangue, estava claramente o despedaçando. "Solte-a, Alina", ele ordenou, sua voz tremendo com uma mistura de raiva e desespero.
"Não."
"Se meu pai morrer porque você estava ocupado demais bancando Deus, eu vou fazer você se arrepender pelo resto da sua vida", ele ameaçou, dando um passo em minha direção.
A menção do meu pai enviou uma onda de pânico através da minha calma fria. Vacilei por um segundo, meu aperto no cabelo de Carla afrouxando o suficiente para ela ofegar por ar.
Ele viu. Ele viu aquele vislumbre de fraqueza e sua expressão endureceu. "Você não tem coragem, Alina."
Eu ri, um som frio e vazio. "Não tenho? Eu deixei sua mãe morrer, lembra? Você, de todas as pessoas, deveria saber do que sou capaz."
Seu rosto se contorceu, a velha ferida que eu acabara de reabrir torcendo suas feições em uma máscara de dor e fúria.
"Você tem cinquenta minutos", eu disse, minha voz como gelo. Soltei Carla, que desabou em uma pilha soluçante. "Providencie o transporte. Leve-o para o Sírio-Libanês. Dr. Evangelista. Você o conhece. Faça acontecer."
Heitor me encarou, seu peito subindo e descendo rapidamente. Por um momento, pensei que ele poderia se recusar, que seu ódio por mim era agora maior que seu afeto por seu novo brinquedo.
Ele olhou para Carla, sua expressão suavizando em uma de ternura dolorida. Ele se ajoelhou e gentilmente afastou uma mecha de cabelo ensanguentado de seu rosto. "Eu já volto", ele murmurou para ela, sua voz embargada de emoção. "Vou consertar isso."
Então ele se levantou, me deu um último olhar de puro veneno, e saiu, puxando o telefone do bolso e latindo ordens nele antes mesmo que a porta se fechasse.
No momento em que ele se foi, o choro no chão parou.
Virei-me para olhar para Carla. Ela estava se levantando, um sorriso lento e triunfante se espalhando por seu rosto ensanguentado. O olhar em seus olhos não era mais de medo; era vitorioso.
"Viu?", ela sussurrou, sua voz grossa, mas presunçosa. "Ele me escolheu. Ele sempre vai me escolher."
Meu estômago revirou.
"Ele só está salvando meu pai", eu disse, embora as palavras soassem ocas até para mim.
Ela riu, um som úmido e borbulhante. "Oh, sua pobre e patética mulher. Você realmente acredita nisso? Ele só está te acalmando. Ele me contou tudo sobre você."
Ela limpou uma mancha de sangue do lábio com as costas da mão, seus olhos brilhando com malícia. "Ele me disse que te odiou todos os dias nos últimos sete anos. Ele disse que ver você morando na casa dele, dormindo na cama dele, era como uma punição constante por sua fraqueza em te perdoar."
O ar saiu dos meus pulmões em um sopro silencioso. A sala girou, as paredes brancas e imaculadas parecendo se fechar sobre mim.
Eu nunca poderia te odiar, Alina.
Suas palavras, sussurradas no escuro todos aqueles anos atrás, ecoaram em minha mente. Uma mentira. A base de toda a nossa vida juntos, uma mentira.
Eu havia perguntado a ele, repetidamente no início: "Você me odeia, Heitor? Me diga a verdade."
E todas as vezes, ele me olhava nos olhos e dizia: "Não. Eu te amo."
E eu, como uma tola, acreditei nele. Eu construí uma vida sobre essa mentira, carreguei o peso de ser o monstro que ele tão graciosamente perdoou, tudo enquanto ele secretamente me desprezava.
"Ele disse que você está quebrada", Carla continuou, sua voz uma cantiga cruel. Ela saboreava cada palavra, torcendo a faca que já estava enterrada até o cabo no meu peito. "Mercadoria danificada. É por isso que você não pôde dar um filho a ele. Você é vazia. Uma mulher estéril e amarga, agarrada a um homem que não suporta nem olhar para você."
Vazia.
Estéril.
As palavras me atingiram com a força de um golpe físico. Uma onda de náusea e raiva incandescente me dominou, tão poderosa que me deixou tonta. As paredes cuidadosamente construídas que eu ergui ao redor da minha dor na última década não apenas racharam; elas explodiram.
Eu não pensei. Apenas reagi.
Eu me lancei sobre ela, minhas mãos se fechando em sua garganta, não apenas para assustá-la desta vez, mas para silenciá-la, para apagar aquele sorriso presunçoso e vicioso de seu rosto para sempre.
"Ele me ama!", ela engasgou, seus olhos saltando. "Ele vai me dar um bebê! Algo que você nunca pôde fazer!"
Foi isso. O golpe final e imperdoável.
Um rugido gutural de pura raiva primal rasgou minha garganta. Meu polegar encontrou o ponto macio sob sua mandíbula, pressionando, cortando seu ar. Seu rosto começou a ficar roxo. O mundo se estreitou para a visão dela se debatendo, suas mãos arranhando inutilmente meus braços.
Desta vez, eu não ia parar.
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