
Minha Fuga do Seu Amor Venenoso
Capítulo 3
Ponto de Vista: Alina
No exato momento em que a luz começava a se apagar dos olhos esbugalhados de Carla, a porta se abriu novamente. Heitor estava lá, o rosto uma máscara de fúria.
"Alina, solte-a!", ele berrou.
Ele se moveu mais rápido do que eu jamais o vira se mover. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando em minha carne como garras, e me arrancou de cima dela. A força me fez tropeçar para trás, meu ombro batendo com força na quina de uma estante minimalista. Uma dor aguda e lancinante percorreu meu braço, e eu gritei, agarrando-o.
Carla desabou no chão, ofegante e engasgando, sugando avidamente o ar para seus pulmões.
Heitor nem sequer olhou para mim. Ele correu para o lado dela, envolvendo-a em seus braços, embalando sua cabeça contra o peito. "Está tudo bem, amor, está tudo bem. Eu estou aqui", ele murmurou, sua voz grossa com uma ternura que ele não usava comigo há anos.
Ele olhou para mim, seus olhos ardendo de desprezo. "O helicóptero está a caminho. Seu pai está sendo preparado para o transporte para o Sírio-Libanês. O Dr. Evangelista está esperando."
Meu coração deu um salto doloroso de alívio, mas foi imediatamente inundado pela amargura da cena à minha frente.
"Deixe-me ver", exigi, minha voz tensa de dor e suspeita. Eu não ia mais acreditar na palavra dele para nada.
Ele me lançou um olhar de nojo, mas pegou o telefone e discou um número. Um momento depois, ele me estendeu o aparelho. "Fale com a enfermeira-chefe."
Vi uma transmissão de vídeo ao vivo na tela. Meu pai, pálido e imóvel, ligado a uma dúzia de máquinas. Uma equipe de médicos se movimentava ao redor dele. Uma mulher de uniforme hospitalar virou-se para a câmera. "Sra. Bastos? Estamos estabilizando-o para o transporte agora. O Sr. Bastos providenciou tudo."
Uma onda de tontura me atingiu. Devolvi o telefone a Heitor, a adrenalina que me alimentava se esvaindo, deixando apenas uma exaustão oca e dolorosa.
"Vamos nos divorciar, Heitor", eu disse, as palavras com gosto de cinzas na minha boca.
Ele ainda estava embalando Carla, acariciando suavemente seus cabelos. Ele nem olhou para mim. "Não seja ridícula."
"Não estou sendo ridícula. Acabou."
"Não", ele disse, sua voz perigosamente calma. "Não acabou. Tínhamos um acordo. Na alegria e na tristeza. Você não pode simplesmente ir embora."
"Você foi", retruquei. "No momento em que deixou ela entrar em nossas vidas."
Ele finalmente olhou para mim, seus olhos frios como gelo. "Ela é uma menina, Alina. A culpa não é dela. É sua. Você é quem não consegue se controlar." Ele olhou para o rosto ensanguentado de Carla com uma expressão de dor. "Você nunca conseguiu."
"Você e eu estamos ligados, Alina", ele disse, sua voz caindo para um rosnado baixo e possessivo. "Por Deus, pela lei, por tudo que passamos. Você nunca estará livre de mim. Nunca."
A finalidade em seu tom enviou um arrepio pela minha espinha.
Virei-me para longe dele, tirando um cigarro do maço no meu bolso. Minha mão tremia, e o papel branco estava manchado com o sangue de Carla dos meus dedos. Acendi, a fumaça acre uma queimadura bem-vinda em meus pulmões. Meu celular vibrou. Uma mensagem do meu advogado. Ele estava de prontidão.
"Diga ao seu pessoal para trazer um médico", disse Heitor, sua voz retornando ao seu tom de comando usual. "Para o seu ombro."
Eu apenas ri, um som amargo e quebrado. "Você me quebra e depois se oferece para me consertar. Esse sempre foi o seu jeito, não é?"
Lembrei-me da vez em que ele atirou um copo na parede com raiva, e um caco voou e cortou minha bochecha. Ele passou a hora seguinte limpando e enfaixando meticulosamente a ferida, suas mãos gentis, seus olhos cheios de remorso. A cicatriz ainda estava lá, uma linha prateada tênue, assim como a do braço dele, onde o chip costumava estar. Ambas marcas de seu amor. Ambas mentiras.
Ignorando-o, saí do loft e enviei uma mensagem para meu advogado. `Prepare os papéis. Sem acordo. Não quero nada. Apenas uma assinatura.`
Peguei um táxi para o Sírio-Libanês, as luzes da cidade borrando pela janela. Quando cheguei, meu pai já estava na UTI. Corri em direção ao quarto dele, meu coração martelando em meus ouvidos. Ao virar um corredor, ouvi duas enfermeiras sussurrando perto de um posto.
"Você acredita? Aquele pobre velho... o próprio genro se recusou a ajudar no início. Disse algo sobre 'equilíbrio cósmico'..."
O chão pareceu sumir debaixo de mim. Tropecei, meu ombro ferido gritando em protesto enquanto eu me chocava contra a parede para me segurar. Impulsionei-me, minha visão se afunilando, e praticamente corri o resto do caminho até o quarto dele.
E então eu o vi.
Ele estava deitado na cama, mas estava quieto demais. O bipe rítmico do monitor cardíaco havia sumido, substituído por um único tom plano e interminável. Um lençol branco estava puxado sobre seu rosto.
Não.
Não, não, não.
"Pai?", sussurrei, minha voz um apelo infantil. Entrei no quarto, minhas pernas parecendo de chumbo. Estendi uma mão trêmula e puxei o lençol.
Seu rosto estava em paz, mas sua pele estava cerosa e cinzenta. Seus olhos estavam fechados. Ele se fora.
"Pai, acorda", eu disse, sacudindo seu braço. "Vamos, pai. Eu estou aqui. É a Alina. Eu estou aqui agora."
Minhas palavras ecoaram na sala estéril e silenciosa. Ele não se moveu. Ele nunca mais se moveria.
Um soluço estrangulado rasgou minha garganta. Desabei contra a cama, meu corpo tremendo com uma dor tão profunda que parecia estar me rasgando por dentro.
E então eu ouvi.
Do quarto ao lado. Uma risada leve e feminina. A voz de Carla.
"Ah, Heitor, você é o melhor. Estou morrendo de fome! Você poderia me trazer aquele smoothie de couve orgânica daquele lugar na Madison? Aquele com spirulina extra?"
Uma onda de raiva gelada cortou minha dor. Levantei-me, meu corpo tremendo, e saí do quarto do meu pai.
A porta do quarto ao lado estava entreaberta. Heitor estava de pé ao lado da cama, sorrindo para Carla, que estava apoiada em uma montanha de travesseiros. Seu rosto estava limpo, o nariz enfaixado, mas o olhar presunçoso e vitorioso estava de volta em seus olhos.
Ela me viu parada na porta. Seu sorriso se alargou.
"Olha só quem está aqui", ela disse, sua voz pingando falsa simpatia. "Veio ver como uma mulher de verdade é tratada pelo seu homem?"
Heitor se virou. Seu sorriso desapareceu quando viu meu rosto. Ele não conseguia me encarar. Olhou para a parede, para o chão, para qualquer lugar, menos para mim.
Dei um passo para dentro do quarto. "Olhe para mim, Heitor."
Ele não se moveu.
Caminhei até ele, agarrei seu queixo e forcei sua cabeça para cima, fazendo-o me encarar. Seus olhos estavam cheios de algo que eu não conseguia ler — culpa, talvez? Irritação? Não importava.
"Ele está morto", eu disse, minha voz falhando. "Meu pai está morto."
A expressão de Heitor não mudou. Ele apenas me encarou, seu rosto uma máscara em branco. "Sinto muito pela sua perda, Alina."
Foi isso. "Sinto muito pela sua perda." O tipo de frase vazia que você oferece a um estranho.
Um som, meio risada, meio soluço, escapou dos meus lábios. Então, a raiva que eu estava segurando explodiu.
Minha mão voou para cima, e eu o esbofeteei no rosto, o som ecoando na sala silenciosa como um tiro. Sua cabeça virou para o lado, uma marca vermelha florescendo em sua bochecha.
"Como você ousa!", Carla gritou, tentando sair da cama. "Não toque nele!"
Virei-me para ela e a esbofeteei também, com tanta força que sua cabeça bateu no travesseiro com um baque surdo.
Heitor estremeceu, não com o tapa, mas com a única lágrima que finalmente escapou do meu olho e traçou um caminho pela minha bochecha. Ele me olhou então, realmente me olhou, e sua máscara de indiferença rachou. Ele parecia atordoado, como se nunca me tivesse visto chorar antes.
A memória me atingiu com a força de um soco. Anos atrás, quando a mãe dele estava passando por quimioterapia, o cabelo caindo em tufos, ele me abraçou e chorou, seu corpo tremendo de dor e medo. Eu o abracei, acariciei seus cabelos e prometi que nunca o deixaria. Eu suportaria qualquer fardo por ele.
"Você mentiu para mim", sussurrei, as palavras cruas e quebradas. "Todo esse tempo. Você mentiu."
"Alina", ele começou, sua voz de repente suave, estendendo a mão para mim. "Não vamos fazer isso aqui."
"Não me toque", rosnei, recuando de sua mão como se fosse uma cobra. "Você prometeu um 'grande funeral' para o meu pai. Uma promessa que você fez na minha cara depois de deixá-lo morrer. Você se lembra?"
Ele estremeceu com as palavras, sua testa franzindo em confusão.
"Você prometeu", repeti, minha voz subindo a um tom histérico. "Outra mentira! Como todas as outras!"
"Vou providenciar o melhor funeral", ele disse rapidamente, sua voz apaziguadora, como se falasse com uma criança. "O melhor de tudo, Alina, eu prometo."
Outra promessa. Não valia nada.
Estendi a mão e puxei o pesado e ornamentado grampo de cabelo do meu coque. Foi um presente dele, de uma viagem à Ásia anos atrás. Prata maciça, com uma ponta afiada e mortal.
Antes que ele pudesse reagir, eu me lancei para frente e cravei o grampo fundo em seu ombro, o mesmo que ele havia arrancado de Carla.
Ele rugiu de dor, tropeçando para trás.
Eu fiquei sobre ele, o grampo ainda na minha mão, agora escorregadio com o sangue dele. Olhei de seu rosto chocado e dolorido para o rosto aterrorizado de Carla.
"Você quer saber o que eu quero, Heitor?", perguntei, minha voz mortalmente calma. "Eu quero que você pegue esse suporte de soro. E quebre a perna dela."
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