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Capa do romance Minha Filha Roubada, Minha Vida Estilhaçada

Minha Filha Roubada, Minha Vida Estilhaçada

Joana Rezende, herdeira em São Paulo, vê seu mundo ruir ao descobrir que Clara não é sua filha. Bruno, seu marido, e Carla, sua melhor amiga, trocaram os bebês no parto e planejam interná-la como louca. Após ser humilhada publicamente e rejeitada pela criança que criou, Joana foge para Lisboa com ajuda da sogra. Determinada, ela inicia uma busca frenética por sua filha biológica enquanto prepara uma vingança implacável contra quem a traiu.
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Capítulo 2

Ponto de Vista: Joana Rezende

Eu não fui para casa naquela noite. A ideia de voltar para aquela gaiola dourada, sabendo que Bruno estava lá, respirando o mesmo ar, fingindo... me dava arrepios. Em vez disso, direcionei o táxi para um destino que não visitava há anos: a mansão da família Tavares. A mãe de Bruno, a Sra. Tavares, era uma mulher de caráter formidável, uma matriarca que defendia a tradição e a honra acima de tudo. Ela era da velha guarda, do dinheiro antigo. Se alguém podia entender a gravidade da traição, era ela.

Os grandes portões de ferro se abriram silenciosamente, revelando uma longa e sinuosa entrada ladeada por carvalhos antigos. A mansão se erguia à frente, um monumento a uma linhagem aristocrática em declínio. Um contraste gritante com a cobertura fria e moderna que eu dividia com Bruno. A empregada, uma senhora idosa que conhecia Bruno desde menino, abriu a pesada porta de carvalho. Seus olhos se arregalaram ligeiramente de surpresa com minha chegada tarde da noite.

"Sra. Tavares, é tarde. Está tudo bem?"

"Preciso falar com a Sra. Tavares, por favor. É urgente." Minha voz estava firme, não traindo nenhum do tumulto que se agitava dentro de mim.

Alguns minutos depois, fui conduzida ao escritório da Sra. Tavares. Ela estava sentada ereta em uma poltrona de encosto alto, um xale de caxemira sobre os ombros, uma palavra cruzada pela metade no colo. Seu cabelo prateado estava impecavelmente penteado. Seus olhos, aguçados e inteligentes, encontraram os meus.

"Joana, querida. O que a traz aqui a esta hora?" Seu tom era educado, mas carregava uma corrente de preocupação.

Caminhei até sua mesa, meus movimentos deliberados. Da minha bolsa, tirei um documento dobrado. Era o relatório preliminar do tipo sanguíneo do hospital, declarando claramente a incompatibilidade de Clara. Coloquei-o sobre o mogno polido.

"Este é o relatório de sangue da Clara, Sra. Tavares," comecei, minha voz baixa e uniforme. "Como pode ver, o tipo sanguíneo dela é AB Negativo. O meu é O Positivo, e o de Bruno é B Positivo. É biologicamente impossível."

Seu olhar caiu para o papel, depois voltou para mim, um lampejo de choque em seus olhos. Seus lábios se afinaram em uma linha sombria.

"O que você está insinuando, Joana?" ela perguntou, sua voz agora mais fria, mais aguda.

"Não estou insinuando nada," respondi, encarando-a diretamente. "Estou afirmando um fato. Clara não é minha filha biológica. E Bruno sabia disso. Ele trocou nossos filhos na maternidade. Minha filha, aquela que me disseram que morreu, foi substituída pelo filho dele com outra mulher. Uma mulher com quem ele tem um caso há anos."

A Sra. Tavares pegou o relatório, seus dedos traçando as palavras como se para se certificar de que eram reais. Seu rosto, geralmente tão composto, se desfez ligeiramente. Um suspiro escapou de seus lábios, rapidamente suprimido.

"Bruno... ele não faria isso," ela sussurrou, mais para si mesma do que para mim.

"Ele fez," contrapus, minha voz endurecendo. "E esta noite, eu o ouvi planejando me declarar emocionalmente instável, me dopar e me confinar, para me remover 'permanentemente' de suas vidas para que ele e Carla pudessem finalmente ser uma 'família' com a Clara."

Seus olhos, geralmente tão orgulhosos, agora continham uma vergonha profunda e profunda. Ela olhou para mim, realmente olhou para mim, e viu a dor crua, a devastação total sob minha aparência composta.

"Joana, minha querida..." Ela estendeu a mão, tremendo ligeiramente. "Eu sinto muito, profundamente."

Recuei imperceptivelmente. "Sentir muito não começa a cobrir isso, Sra. Tavares. Vim aqui esta noite porque preciso da sua ajuda. Não por vingança, embora eu garanta que isso virá. Preciso da minha liberdade. Preciso desaparecer. E preciso encontrar minha filha." Uma única lágrima, sem ser convidada, traçou um caminho pelo meu rosto. "Preciso da minha vida de volta. E preciso de justiça para minha filha."

Ela me encarou, seu olhar inabalável. Vi as engrenagens girando em sua mente, pesando reputação, honra da família, contra as ações impensáveis de seu filho.

"Você sempre foi uma boa esposa para o Bruno, Joana," ela disse lentamente. "Você trouxe estabilidade para a vida dele, dignidade ao nome da nossa família. Você derramou seu coração naquela criança. Você transformou o Grupo Rezende em um império muito além do que seu pai imaginou. Você nunca foi apreciada o suficiente." Suas palavras eram uma acusação contundente a seu próprio filho.

"Ele desperdiçou tudo," eu disse, minha voz mal passando de um sussurro. "Por uma mentira."

A Sra. Tavares fechou os olhos, um suspiro profundo escapando dela. Quando os abriu novamente, o aço aristocrático estava de volta. "Ele vai pagar por isso," ela declarou, sua voz firme. "Ele vai pagar por sua desonra. E você, Joana, terá sua liberdade. E sua filha." Ela se levantou, sua postura régia apesar da idade. "Considere feito. Eu cuidarei de todos os assuntos legais. Bruno receberá papéis de divórcio que ele nem perceberá que está assinando. Você estará livre, com tudo a que tem direito, e mais."

Um leve vislumbre de esperança, como uma estrela distante, apareceu na vasta escuridão do meu desespero. "Obrigada," consegui dizer, minha voz rouca.

"Vá," ela ordenou, seus olhos ardendo com uma determinação feroz. "Vá, e não olhe para trás. Eu garantirei que ele nunca mais a perturbe."

Deixei a mansão, uma calma surreal se instalando sobre mim. A promessa silenciosa da Sra. Tavares, a determinação de aço em seus olhos, ofereceu uma estranha sensação de consolo. A tempestade estava longe de terminar, mas agora eu tinha uma aliada. Uma poderosa.

Nos dias seguintes, movi-me como um fantasma pelo meu próprio escritório. Minha mente era um turbilhão de cálculos, estratégias e uma fúria fria e ardente. Mas meu rosto permaneceu impassível, meus movimentos precisos. Enterrei-me no trabalho, a única coisa que parecia real, a única coisa que eu podia controlar. Trabalhei até tarde da noite, o silêncio da minha casa um alívio bem-vindo da farsa constante. Cada e-mail enviado, cada negócio fechado, era uma pequena vitória em uma guerra que ninguém mais sabia que eu estava travando.

Uma noite, exausta, mas incapaz de dormir, rolei meu e-mail pessoal. Um e-mail anônimo. Meu sangue gelou. Eu sabia, de alguma forma, o que conteria. Era um arquivo de vídeo.

Meus dedos tremeram quando o abri. A qualidade do vídeo era granulada, gravada secretamente. Mostrava Bruno e Carla, no meu escritório, na minha mesa, entrelaçados. Seus sussurros eram audíveis, doentiamente íntimos. "Você é muito melhor que ela, Carla," Bruno murmurou, sua voz grossa de luxúria. "A Joana é tão fria às vezes, tão focada no trabalho. Você... você me faz sentir vivo."

Então, a risada baixa e triunfante de Carla. "E nossa pequena Clara. Ela merece uma mãe de verdade, uma família de verdade, não é, querido?"

Uma onda de náusea me invadiu. Meu escritório. Minha mesa. Isso não era apenas traição; era profanação. Era uma zombaria de tudo que eu construí, de tudo em que acreditei. O vídeo terminou, mas as imagens estavam gravadas em minha mente. Assisti de novo, e de novo, como se ao repetir o horror, eu pudesse de alguma forma entendê-lo. Mas não havia sentido, apenas uma ferida aberta de engano.

Meu telefone tocou, me fazendo pular. Era Bruno. "Querida, estou a caminho de casa. Acabei de terminar uma reunião tardia. Mal posso esperar para ver seu rosto lindo." As palavras, antes reconfortantes, agora pareciam veneno. Olhei para o meu telefone, a tela ainda exibindo as imagens grotescas de sua infidelidade. Ele ainda estava interpretando o papel. E eu, a tola, deveria acreditar nele.

Minha mão se apertou em torno do telefone, meus nós dos dedos brancos. Uma sensação doentia de nojo subiu pela minha garganta. Ele estava vindo para casa. Para mim. Para seu casamento de fachada, depois de derramar seus segredos vis com sua amante no meu próprio espaço. Esta noite, o jogo mudaria.

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