
Minha Filha, Minha Dor
Capítulo 2
O ar na funerária era frio e pesado, com um cheiro forte de flores e desinfetante.
Eu estava parado ao lado do pequeno caixão branco de Sofia.
Minha filha de seis anos.
As poucas pessoas que vieram me davam tapinhas no ombro e diziam palavras vazias.
"Meus pêsames."
"Ela está em um lugar melhor agora."
"Seja forte."
Eu apenas balançava a cabeça. O que mais eu poderia fazer?
Minha esposa, Clara, não estava lá.
Ela ligou mais cedo, dizendo que estava arrasada demais para comparecer ao funeral da própria filha. Disse que não suportaria ver Sofia naquele caixão.
Eu acreditei nela.
Na época, eu ainda acreditava em tudo que ela dizia.
Um colega de trabalho se aproximou.
"Pedro, sinto muito. A Clara está bem?"
"Ela não conseguiu vir, está muito abalada."
Ele franziu a testa, confuso.
"Mas eu a vi hoje de manhã no café perto do escritório, parecia bem."
Meu coração gelou por um instante.
"Você deve tê-la confundido com outra pessoa."
Ele deu de ombros e se afastou.
Mas a semente da dúvida foi plantada.
O funeral terminou. As pessoas foram embora. Fiquei sozinho com o silêncio e o pequeno caixão.
Eu precisava de um pouco de ar. Saí da sala principal e caminhei por um corredor vazio. No final, havia uma pequena sala de descanso. A porta estava entreaberta.
Ouvi vozes lá de dentro.
Uma era a de Ana, a melhor amiga de Clara.
A outra... era de Clara.
Minha esposa, que estava "arrasada demais" para vir ao funeral.
Parei, escondido pela sombra do corredor.
"Você não deveria ter vindo?", disse Ana, com a voz preocupada. "E se o Pedro te visse?"
"Relaxa", a voz de Clara soou, irritada e sem um pingo de tristeza. "Ele é um idiota. Acredita em qualquer coisa que eu digo. Eu precisava sair de casa, aquele clima de velório estava me sufocando."
Meu corpo inteiro ficou tenso. Eu não conseguia me mover.
"Clara, isso é horrível. Sofia era sua filha."
"Um acidente, Ana. Sofia foi um acidente. Você sabe disso. Ela atrapalhou minha vida por seis anos. Agora eu estou livre."
A palavra "acidente" ecoou na minha cabeça. Livre? Livre de quê? Da nossa filha?
Ana suspirou. "Ainda assim... a forma como tudo aconteceu..."
"Qual era a alternativa?", Clara retrucou, a voz ficando mais fria. "Eu não ia passar o resto da vida presa a uma criança e a um marido fracassado. Lucas está de volta, Ana. O Lucas! Você entende o que isso significa?"
Lucas. O amor da juventude dela. O motivo pelo qual ela sempre me desprezou.
Meu sangue ferveu de raiva, mas a dor era mais forte.
"E o que você disse ao Pedro? Que ela morreu de uma doença súbita na viagem?"
"Claro. Ele não é inteligente o suficiente para questionar. Eu disse que os médicos no exterior recomendaram um tratamento experimental. Ele nem piscou."
Eu me agarrei à parede para não cair. Tratamento experimental. A mentira que ela me contou.
A verdade era muito mais cruel.
"Não foi um tratamento, foi?", Ana perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.
Houve uma pausa.
Então, a voz de Clara, clara e sem remorso.
"Foi eutanásia. Rápido e indolor. Eles são muito profissionais nisso lá fora. Eu simplesmente disse que ela estava sofrendo de uma doença terminal incurável. Um pouco de dinheiro resolve tudo."
Eutanásia.
A palavra me atingiu com a força de um soco no estômago. Eu me curvei, a mão na boca para não vomitar.
Minha filha não morreu.
Ela foi assassinada.
Pela própria mãe.
Lembrei-me do último vídeo que Sofia me mandou antes da "viagem". Ela estava sorrindo, segurando seu ursinho de pelúcia.
"Papai, a mamãe disse que vou fazer um tratamento para ficar forte e não ficar mais doentinha. Quando eu voltar, a gente vai poder brincar muito, né?"
Ela não estava doente. Ela era uma criança perfeitamente saudável. Doce, compreensiva. Sempre que Clara me humilhava, era Sofia quem vinha me abraçar.
"Não fica triste, papai. A mamãe só está cansada."
Ela era a luz da minha vida. E Clara a apagou.
"Você é um monstro, Clara", disse Ana, chocada.
"Eu sou prática", corrigiu Clara. "Agora posso finalmente ficar com o Lucas. Ele está de volta à cidade, pronto para começar uma nova empresa de tecnologia comigo. O Pedro? Ele é um peso morto. Um desenvolvedor de jogos que pensa que é um gênio, mas que só sobrevive porque eu o sustento."
Sustentado.
Era a palavra que ela mais gostava de usar.
Eu dediquei oito anos da minha vida à empresa dela. Desenvolvi todos os jogos que a transformaram em uma influenciadora digital milionária. Trabalhava dia e noite, enquanto ela colhia os louros. E para ela, eu era um "sustentado".
"E o que você vai fazer com o Pedro agora?", perguntou Ana.
"Vou me livrar dele, claro. Mas não ainda. Preciso que ele finalize o novo motor gráfico do jogo. Depois disso, ele pode ir para o inferno. Ele não vai conseguir nada sem mim. Sem a minha empresa, ele não é ninguém."
O desprezo na voz dela era palpável.
A porta da sala de descanso se abriu de repente.
Clara e Ana saíram. Elas me viram.
O rosto de Clara mudou instantaneamente. A frieza desapareceu, substituída por uma máscara de dor e sofrimento.
"Pedro, querido!", ela exclamou, correndo para me abraçar. "Eu não aguentei... Tive que vir. Eu precisava vê-la uma última vez."
Seu corpo tremia com soluços falsos. Seu perfume caro invadiu minhas narinas e senti náuseas.
Eu fiquei parado, rígido como uma estátua. Meu corpo estava lá, mas minha mente estava a mil quilômetros de distância, revivendo cada palavra cruel que ouvi.
Como eu poderia continuar vivendo sob o mesmo teto que aquela mulher?
Como eu poderia olhar para o rosto do monstro que matou minha filha e fingir que nada aconteceu?
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