
Minha Filha, Minha Dor
Capítulo 3
Clara continuou com seu teatro em casa. Chorava nos cantos, suspirava dramaticamente e falava sobre como a "nossa menina" faria falta.
Cada palavra era uma mentira. Cada lágrima era falsa.
Eu a observava em silêncio, o estômago revirado. A mulher que eu amei por uma década não existia mais. Talvez nunca tenha existido.
Na manhã seguinte, eu desci para a cozinha e a encontrei tomando café e lendo notícias de celebridades no tablet, perfeitamente calma.
"Precisamos arrumar as coisas da Sofia", eu disse, a voz rouca.
Ela nem levantou os olhos do aparelho.
"Já fiz isso."
"O quê?", perguntei, confuso.
"Já arrumei tudo. Doei as roupas, joguei fora os brinquedos quebrados. O quarto já está limpo. É melhor assim, Pedro. Superar mais rápido."
Meu coração parou.
Subi as escadas correndo, com Clara gritando atrás de mim para eu "não ser dramático".
Abri a porta do quarto de Sofia.
Estava vazio.
Completamente vazio.
A cama de princesa, a mesinha de desenho, a estante com seus livros favoritos. Tudo tinha sumido. As paredes, antes cobertas com seus desenhos coloridos de sóis e arco-íris, agora estavam brancas e nuas.
Era como se Sofia nunca tivesse existido.
Clara estava tentando apagá-la.
Voltei para a sala, tremendo de raiva e dor.
Ela estava na sala, lixando as unhas.
"Por quê?", eu consegui perguntar.
"Para o nosso bem. Não podemos viver no passado."
"Nosso bem?", repeti, incrédulo. "Ela era sua filha!"
"E a vida continua, Pedro. Temos que ser fortes."
A frieza dela era desumana.
Sentei-me no sofá, a cabeça entre as mãos.
"Ela... ela sofreu? Na hora...?"
Eu precisava saber. A imagem da minha filha assustada em um hospital estrangeiro me assombrava.
Clara deu de ombros, sem demonstrar nenhuma emoção.
"Já te disse que foi rápido e indolor. Foi o que os médicos falaram."
"Ela me ligou antes de ir", eu disse, a voz embargada. "Ela disse que estava animada para voltar e brincar comigo. Ela não queria morrer, Clara."
"Crianças dizem qualquer coisa. Ela estava doente. Era o melhor a fazer."
"ELA NÃO ESTAVA DOENTE!", gritei, levantando-me de um salto.
Pela primeira vez, vi um lampejo de medo em seus olhos. Mas logo foi substituído por irritação.
"Abaixe a voz. Os vizinhos vão ouvir."
Eu a ignorei. Fui até o armário da entrada, onde guardávamos coisas aleatórias. No fundo, encontrei uma caixa de papelão.
Dentro, estavam as últimas coisas que Clara não se deu ao trabalho de jogar fora. O ursinho de pelúcia que Sofia levou para a "viagem". Seu estojo de lápis de cor. Um pequeno caderno de capa rosa.
"O que você vai fazer com esse lixo?", perguntou Clara, com nojo. "Vamos queimar tudo. Fazer uma limpeza completa."
"Não", eu disse, segurando a caixa com força. "Você não vai tocar em mais nada."
Peguei a caixa e as chaves do meu carro.
"Onde você vai?", ela gritou.
Não respondi.
Dirigi por vinte minutos até um antigo bairro industrial. Lá, eu alugava um pequeno galpão. Era meu estúdio secreto, o lugar onde eu realmente trabalhava nos meus projetos, longe dos olhos de Clara.
Sofia adorava aquele lugar. Ela o chamava de "a fábrica de magia do papai". Havia um pequeno sofá em um canto onde ela se sentava para desenhar enquanto eu programava.
Abri a porta e o cheiro de poeira e metal me acolheu.
Levei a caixa para o canto de Sofia. Tirei o ursinho e o coloquei no sofá. Abri o caderno. Era o diário dela. A última anotação era de dois dias antes da viagem.
"A mamãe parece feliz hoje. Ela sorriu pra mim. Eu acho que ela vai gostar mais de mim depois do tratamento."
Fechei o caderno, a dor me rasgando por dentro.
Arrumei suas coisas com cuidado. Fiz um pequeno altar para a minha filha. Um santuário onde a memória dela estaria segura, longe do monstro que a tirou de mim.
Passei horas ali, apenas olhando para o sofá vazio.
Quando finalmente voltei para casa, já era noite.
Abri a porta e vi um par de sapatos masculinos caros ao lado dos saltos de Clara. Sapatos que eu nunca tinha visto antes.
Meu corpo ficou em alerta.
Entrei na sala de estar.
Clara estava sentada no sofá, rindo com um homem. Um homem bonito, com um sorriso arrogante e um terno bem cortado.
Ele se virou para mim.
"Pedro, querido!", disse Clara, com um sorriso falso. "Quero que você conheça um velho amigo. Este é o Lucas."
Ela se levantou e passou o braço pelo dele.
"O Lucas estava muito ocupado com um projeto importante e não pôde ir ao funeral. Mas ele veio assim que pôde para nos dar seu apoio, não é fofo?"
Lucas.
O homem por quem minha esposa assassinou nossa filha.
Ele estava ali, na minha casa, no dia seguinte ao enterro da minha menina.
A audácia deles era inacreditável.
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