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Capa do romance Minha advogada

Minha advogada

Lua é uma advogada focada em seus sonhos que tenta superar um passado sombrio. Após um evento beneficente, ela reencontra Donovan, um homem imponente que decide financiar seu projeto. Enquanto Lua luta contra o que sente por ele, David surge com segundas intenções, vendo nela a presa ideal para satisfazer seus desejos profissionais e íntimos. Em meio a medos profundos e novas alianças, ela terá que descobrir se encontrará paz ou se perderá de vez o fôlego.
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Capítulo 1

Deslizo meus pés para fora do sapato, pronta para o alívio que me percorre ao saber que não terei que usá-los, ou qualquer outro, amanhã. Sento-me na cama para mover circularmente os tornozelos cansados após o longo dia no escritório.

Em pensar que o trabalho ainda não acabou…

Arrasto o casaco dos meus ombros, e o deixo sobre a cama. Estou certa de que posso me preocupar com a organização do quarto amanhã. Após me sentir livre de roupas, exceto pelo vestido, alcanço o MacBook dentro da minha bolsa, e verifico os emails que recebi durante a tarde. Não tive muito tempo para o trabalho em si, pois estava focada no novo projeto que estou desenvolvendo, aliás, o único.

O primeiro email me chama atenção, pois é do meu chefe, e ele não costuma ser formalmente comunicativo.

De: Michel Gandhi

Para: Lua Lopes

Assunto: Quase lá!

Fico lisonjeado em saber que minha mais nova advogada tem em mente um projeto altruísta em andamento. A reunião de hoje me deixou animado com a ideia, e a todos os sócios também. Estarei entrando em contato com possíveis patrocinadores amanhã, para tornar a teoria em prática.

Atenciosamente, Michel

Leio e releio o texto algumas vezes, antes de enviar uma resposta condescendente. Nunca, em mil anos, eu pensei que a minha ideia fosse ser aprovada em tão pouco tempo. Bem, eu havia pensado nisso ainda quando universitária, mas, para um projeto de grande escala, estou surpresa com a súbita evolução.

Em retrospectiva, Michel sempre me apoiou. Ele me apadrinhou durante a faculdade, quando meus pais não tinham condições de pagar os livros, isso porque tinha muito carinho pelo meu pai, com quem trabalhou durante anos. Eu lhe devia muito, por isso, após a faculdade de direito, aceitei sua proposta, e me tornei uma advogada para seu escritório. Faz apenas alguns meses, mas, após este email, estou certa de que meu trabalho lhe agrada, e isso me faz perceber que todo o esforço, de ambos, está sendo recompensado.

Respondo outros emails e fecho o Mac, garantindo que o trabalho de hoje foi feito. Isto encerra minha sexta-feira.

Alguns não podem terminar a semana com cerveja e balada.

Lanço meu corpo para trás, sendo abraçada pelo conforto da minha cama, e me pergunto internamente se algumas horas de sono irão realmente me trazer descaso. Todas as madrugadas em claro, pensando em como seria apresentar um projeto sem lucro pessoal para o meu chefe capitalista, finalmente chegaram ao fim. Eu fiz isto! Eu consegui dar o primeiro passo!

Desde criança, quando percebi que alguns tinham muito, e outros não tinham nada, pensei que deveria fazer algo. Digo, uma situação tende a mudar se não houver alguém para fazer a diferença?

No último semestre da faculdade, iniciei a parte teórica do meu pensamento. Eu, com todo o entendimento da constituição, faria algo pelas crianças. A geração futura precisa ser melhor que a atual. Porém, escolhi um grupo específico de crianças, pois não poderia fazer por todas, as marginalizadas. Meu projeto consiste em identificar o erro no laço familiar de jovens presidiários, e tentar reverter o buraco traumático em sua psique. Visitar presídios infantis, levar ajuda psicológica, arrecadar fundos para melhorar o ambiente em que essas crianças são punidas, tudo o que for necessário, eu farei.

No início, pensei que seria julgada por apoiar delinquentes, quando, na verdade, são apenas crianças, mas todos estes pensamentos afundam no esquecimento ao reler mentalmente o email de Michel.

Talvez demore, contudo, irá acontecer! Estarei fazendo algo por alguém além de mim, e estou conseguindo convencer outras pessoas, como meu chefe, a fazerem o mesmo.

Fecho os olhos em uma tentativa falha de projetar detalhes antes de dormir. Perco para o cansaço, e derivo em um sono calmo no meio dos meus pensamentos. Enfim, tudo está em seu devido lugar.

●●●

Desperto após ouvir o barulho vindo do cômodo ao lado. Risadas e gritos, como se eu morasse com crianças, me fazem resmungar por acordar antes do previsto.

Me levanto, e obrigo meu corpo a se mover para o banheiro, já que não irei dormir novamente. Preciso do banho que evitei ontem, quando cheguei. Conecto meu celular ao sistema Bluetooth do banheiro, para ouvir música enquanto tomo banho. Este é definitivamente um caminho sem volta. Escolho a música, "Often, The Weeknd", e me livro do vestido e calcinha antes de entrar no box.

A escolha da música me faz sorrir, pensando que eu gosto da melodia, mesmo que não se aplique a minha vida. Apesar de cantar, dançar e até interpretar, não passa de uma boa música.

Saio do banheiro envolta em uma toalha. Pauso a música no celular sobre a mesa, no meu quarto, e caminho rumo ao guarda-roupa embutido na parede contrária à mesa. Meu único desejo era estar sozinha, para não precisar usar sequer um tecido me cobrindo.

Merda!

Visto uma camisa branca, e shorts jeans desgastado. Coloco meus pés na pantufa que costumo usar quando estou em casa, que esboça um lindo 'Stitch'. Meus pés merecem esse conforto quando enfrentam saltos agulha por horas.

Saio do quarto com minha escova em mãos, deslizando sobre meu cabelo molhado, esperando ansiosamente para saber quem está no cômodo barulhento, além da Marie, com quem divido a casa.

Quando entro na sala, vejo quem está mantendo a casa como um bordel. Apenas Marie e Daniel, seu ex-namorado. Eles estão sorrindo para a televisão, enquanto assistem um programa britânico de comédia.

Assim que me vê, Marie sorri para meu rosto espantado. À dois dias atrás, ela estava chorando pelo irremediável fim do relacionamento. Arqueio uma sobrancelha para ela, perguntando e, sem dúvidas, julgando a situação.

-"Bom dia" digo, só então Daniel percebe minha presença. Ele direciona os olhos primariamente para minhas pernas, antes de subi-los para o meu rosto.

Babaca.

-"Bom dia, princesa" Marie responde, tão carinhosa quanto pode.

-"Bom dia, Lua" ele diz.

É inacreditável que eu tenha que lidar com o cinismo do cidadão americano às dez da manhã, dentro da minha residência. Daniel foi verbalmente difamado por Marie durante as últimas 48 horas, e agora está aqui, sentado ao seu lado, enquanto ela tem as pernas sobre ele.

-"eu fiz café, se quiser" ela murmura, voltando sua atenção para o namorado, e lhe dando um beijo casual na bochecha.

-"claro. Obrigada" respondo. O melhor para minha sanidade mental é ir até a cozinha e tomar uma xícara de um doce café, ignorando minha amiga patética e indecisa.

Sou interrompida em meus passos para a cozinha quando ouço meu celular tocar dentro do quarto. Parte de mim sabe que é meu chefe, ele tem um ótimo patrocínio em mãos e está ligando para me comunicar. A outra parte prefere acreditar que meu plano não correu como eu queria, e meus sonhos estão tão longe quanto antes de serem realizados.

Corro para o quarto, deixando os pombinhos inebriados confusos com meu desespero. Atendo a chamada assim que alcanço o celular, ofegante pela rápida corrida, porém exigente para o sedentarismo.

-"Olá" digo em tom medido.

-"Lua, bom dia" Michel diz, não podendo conter o suspiro sorridente, que ouço e imagino do outro lado da linha.

Boas notícias, aqui vamos nós!

-"pronta para falar de negócios?" Ele pergunta, sem delongas, sem preâmbulos, apenas realizações.

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