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Capa do romance Meu vizinho, meu destino

Meu vizinho, meu destino

O bilionário Jonh Bennett, um viúvo que fechou seu coração, vê sua rotina implodir quando Isadora D'Ávila se torna sua vizinha. Jovem e destemida, ela desafia as regras e a frieza do empresário com sua personalidade rebelde. O que era apenas uma tentativa de manter distância transforma-se em provocações e uma tensão incontrolável. Agora, Jonh corre o risco de perder o controle e protagonizar um escândalo capaz de derrubar seus muros emocionais.
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Capítulo 2

Se o inferno tivesse uma trilha sonora, ele começaria com a voz doce e artificial da Fabiana dizendo:

- Sorria, querida. Vai ser bom pra você.

Juro que considerei abrir a porta do carro em movimento e sair rolando pela calçada. Nada grave, só alguns arranhões, talvez uma torção dramática - qualquer coisa que me poupasse de mais uma frase motivacional da minha adorável madrasta.

Mas, claro, eu só bufei. Com o rosto colado no vidro, assistia àquela paisagem de casas milionárias e jardins perfeitos para se desenrolar como um comercial de vida que nunca foi minha. Era como se cada flor estivesse no lugar certo só pra esfregar na minha cara o quanto eu era um erro fora do roteiro.

Atrás de mim, o silêncio entre meu pai e Fabiana era tão denso quanto o ar-condicionado do carro. Roberto - ou "pai", quando eu ainda me importava - fez questão de dirigir ele mesmo até a casa da Helena, como se isso o tornasse um mártir moderno. A Fabiana, por outro lado, parecia estar numa road trip chique rumo à redenção da enteada rebelde.

Spoiler: não era.

Eu não estava indo pra um retiro de autoconhecimento. Estava sendo exilada. Expulsa da universidade, suspensa por "conduta inadequada". Nas palavras da diretoria, "uma sucessão de eventos que demonstra a necessidade de afastamento imediato". Na minha visão? Um protesto artístico com spray nas paredes da biblioteca e uma performance impagável durante a assembleia. O mundo, claramente, ainda não estava pronto para mim.

Meu pai, muito menos.

- Você vai para casa da sua tia Helena. Sem discussão. - ele disse, com aquela voz de executivo que decide o destino de vidas com uma planilha. E foi isso. Uma sentença. Fria, sem chance de defesa.

Agora, ali estávamos nós. Dobrando a rua principal do condomínio, com suas câmeras de vigilância e vizinhos sorridentes que provavelmente sabiam o nome do cachorro uns dos outros, mas não o das esposas traídas.

A casa da Helena surgiu ao fim da rua. Branca, moderna, com uma escultura torta que provavelmente valia mais do que meu carro imaginário. Do lado de fora, ela nos esperava. Cabelos soltos, kimono estampado esvoaçando com o vento, um sorriso sincero no rosto.

- Isa! - ela gritou, abrindo os braços. - Que bom te ver, garota!

Fui até ela. Deixei o abraço acontecer, mesmo com o peso da bagagem emocional esmagando meus ombros. Helena era a única parte daquela mudança que me parecia... suportável. Talvez até um pouco familiar. Ainda que tivéssemos passado anos distantes, havia nela algo que nunca mudava. A liberdade estampada nos olhos.

A mesa da varanda estava posta como se estivéssemos em um brunch de revista: pães artesanais, bolo de cenoura fofinho, frutas cortadas com perfeição. E um suco laranja fluorescente que eu jamais admitiria parecer bom.

- A carta da faculdade foi bem vaga - Helena disse, enquanto colocava café na minha xícara. - Alguém vai me contar o que realmente aconteceu?

Antes que eu pudesse abrir a boca, Fabiana entrou em modo narradora da sessão da tarde:

- Pichação, insulto aos professores, invasão da assembleia. Um verdadeiro show de horrores. Criativo, claro, mas inaceitável.

- Protesto criativo - murmurei, encarando o fundo da xícara. - Mas ninguém entende gênio antes da hora.

Meu pai soltou aquela risada curta que mais parecia um corte cirúrgico.

- Gênio? Eu pago uma fortuna em mensalidade para ouvir isso?

Levantei o olhar. Por um instante, considerei responder com algo que machucasse mais do que meu silêncio. Mas engoli seco.

- Que bom que o foco é o dinheiro. Emoções, empatia e diálogo claramente não estão no orçamento.

Levantei da cadeira antes que ele tivesse tempo de revidar.

Atravessar aquele jardim me pareceu como invadir território inimigo. Tudo era perfeitamente calculado - flores caríssimas, pedras de paisagismo, bancos vintage. Um universo feito para quem nunca precisou lidar com dor de verdade. E eu ali, com meu short jeans desbotado, a camiseta velha dos Ramones e os chinelos barulhentos, era a anomalia da vez.

Andei sem rumo até ouvir um choro abafado.

Olhei em volta e vi uma menina caída perto da ciclovia, com a bicicleta jogada ao lado e os joelhos ralados. Devia ter uns doze, talvez treze anos. Chorava em silêncio, tentando ser forte.

Me aproximei devagar.

- Ei... tudo bem?

- Meu joelho... - ela respondeu, tentando conter as lágrimas.

- Tenho um lenço. Posso ajudar?

Ela assentiu. Me ajoelhei ao lado e comecei a limpar os machucados com o cuidado que ninguém imagina que eu teria. Meus dedos eram firmes, mas gentis.

- Você é nova aqui? - ela perguntou, com a voz entrecortada.

- Temporariamente. E você? Tem nome?

- Victoria.

Sorri, mesmo que de leve.

- Bonito. Nome de rainha.

Antes que a conversa fosse além, ouvi passos se aproximando. Passos decididos. Masculinos.

- Victoria? - a voz veio grave, firme, carregada de autoridade.

Me levantei devagar, e ali estava ele. Alto, cabelos escuros alinhados e úmidos, camisa de linho meio amarrotada, como se o dia tivesse sido longo demais. E um olhar... um olhar que me atravessou.

Ele se ajoelhou ao lado da filha, examinou o machucado. Depois, seus olhos voltaram pra mim. Mediram. Julgaram. Tentaram entender.

- Obrigado. Eu cuido do resto.

Foi seco. Quase frio. Mas educado o suficiente para não soar grosseiro.

Victoria, por outro lado, parecia animada:

- Obrigada... moça do Ramones.

- De nada, garota radical.

Me afastei, mas não sem deixar escapar um comentário baixinho, mais para mim do que para ele:

- Olhar julgador de primeira classe. Impressionante.

Achei que ele não ouviria. Mas ouviu.

Me encarou. Um segundo longo demais. Não de raiva. Não de reprovação. Era mais... um estudo. Como se eu fosse uma equação que ele queria resolver com os olhos. E por um momento, desejei que ele não conseguisse.

Porque algo nele - naquele homem que claramente dominava cada espaço que ocupava - me fazia querer ser lida. Mesmo quando minha regra número um era exatamente o oposto.

Voltei para casa com o céu já em tons de laranja. O sol se escondia atrás das árvores altas, e havia uma brisa estranhamente suave naquela tarde. Encontrei Helena sozinha na varanda, com uma taça de vinho nas mãos. A aura dela sempre foi meio etérea - como se vivesse meio metro acima do chão.

- Eles já foram? - perguntei, me jogando na cadeira de balanço ao lado.

- Foram. Seu pai estava... estranho.

- Ele sempre está. Só que agora cansou de tentar me consertar.

Helena me olhou com aquele jeitinho de quem enxerga além da casca. E isso me incomodava. Mas também me dava certo alívio.

- Aqui ninguém vai tentar te consertar, Isa. Só te dar espaço para respirar.

Respirar. Engraçado como uma coisa tão simples podia parecer tão distante. Eu fechei os olhos por um momento, tentando me conectar com o silêncio ao meu redor. Mas dentro de mim, tudo ainda gritava.

E, mesmo sem saber o nome dele, eu já sentia.

Aquele homem. Aquele olhar. Aquela casa ao lado. Havia algo ali. Algo que ia me puxar, cedo ou tarde. Algo perigoso, eu sabia.

Mas no fundo... talvez eu já estivesse cansada de fugir.

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