
Meu Recomeço, Minha Paz
Capítulo 2
A festa de aniversário de Lara, minha filha, estava cheia, a casa dos meus sogros pulsando com as risadas das crianças e as conversas dos adultos, mas um perfume doce e estranho flutuava no ar, um cheiro que não pertencia a ninguém da família. Eu conhecia o perfume de todas as mulheres ali, e aquele era novo, invasivo.
João, meu marido, circulava entre os convidados com a postura de um rei em seu próprio castelo, sorrindo para todos, mas seus olhos procuravam algo ou alguém na multidão. Eu senti um calafrio, uma sensação familiar e desagradável que eu aprendi a ignorar ao longo dos anos.
Então, ela entrou. Uma moça jovem, com um vestido branco que parecia simples demais para a ocasião, mas que em seu corpo ganhava uma elegância que chamava atenção, ela tinha um sorriso tímido e cabelos longos e escuros, muito parecidos com os que eu tinha na idade dela.
Ela caminhou diretamente até João, que abriu um sorriso largo e genuíno, um sorriso que eu não via direcionado a mim há muito tempo.
"Pessoal, essa é a Bruna", João anunciou para o pequeno grupo ao seu redor, "minha nova secretária, uma jovem muito talentosa e dedicada."
Bruna sorriu para todos, um sorriso ensaiado.
"É um prazer conhecer a família do meu chefe", disse ela, com a voz suave.
Seu olhar encontrou o meu por um segundo, e eu vi um brilho de desafio ali, algo que me deixou em alerta.
Bruna se aproximou de mim e de Lara, que estava ao meu lado, segurando a barra do meu vestido, ela trazia uma caixa de presente grande e colorida.
"Isso é para você, Lara, feliz aniversário, querida."
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, João interveio.
"Que gentileza, Bruna! Lara, diga obrigada para a tia Bruna."
Lara olhou para mim, esperando minha aprovação, eu forcei um sorriso e assenti, não queria criar uma cena na frente de todos. Lara pegou o presente, um pouco hesitante.
Bruna se agachou, tentando ficar na altura de Lara, sua mão foi em direção ao cabelo da minha filha, para fazer um carinho.
Num reflexo, eu me movi, colocando meu corpo entre elas e segurando a mão de Lara com mais firmeza.
"Lara é um pouco tímida com estranhos", eu disse, minha voz soando mais firme do que eu pretendia.
Bruna se levantou, o sorriso sumindo por um instante, mas logo se recompôs. João me lançou um olhar de reprovação.
"Sofia, não seja assim", ele disse em voz baixa, mas com um tom de ordem. "Bruna só está sendo gentil, não precisa ser tão superprotetora."
Ele se virou para Bruna e sorriu calorosamente.
"Não se preocupe, Bruna, Sofia é assim mesmo, um pouco exagerada."
Eu senti a humilhação queimar meu rosto, ele me diminuindo na frente da outra.
Mais tarde, enquanto eu cortava o bolo, Lara se aproximou de mim, com um pedaço de chocolate na boca.
"Mamãe, a tia Bruna é a moça que foi lá em casa buscar o papai outro dia?"
Eu parei, a faca suspensa no ar. O barulho da festa pareceu desaparecer.
"Que dia, meu amor?"
"Aquele dia que você foi no médico, papai disse que ela era uma amiga do trabalho."
Meu coração afundou, a verdade dita pela inocência de uma criança era muito mais dolorosa.
João se aproximou, vendo minha expressão paralisada.
"O que foi agora, Sofia? Até para cortar um bolo você faz drama?", ele me repreendeu, sua voz baixa e cheia de desprezo. "Você precisa aprender a controlar suas emoções, não é um bom exemplo para a Lara."
Ele pegou a faca da minha mão e continuou a cortar o bolo, agindo como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse acabado de destruir o pouco de paz que eu ainda tentava manter.
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