
Meu Recomeço, Minha Paz
Capítulo 3
Eu me lembrei de todas as vezes que engoli o choro e fingi não ver, por anos, a vida com João foi um exercício de tolerância, ele era um empresário de sucesso, charmoso, e sempre teve muitas "amigas do trabalho". No início, eu briguei, gritei, fiz escândalos, mas aprendi da pior maneira que isso só piorava as coisas para mim.
Uma vez, há muito tempo, eu encontrei mensagens no celular dele, mensagens explícitas com uma mulher que eu nem conhecia, eu o confrontei, tremendo de raiva e dor. Ele não negou, em vez disso, ele me olhou com uma frieza assustadora.
"Sofia, você tem duas opções", ele disse, aproximando-se de mim. "Ou você aprende a ser uma esposa inteligente e a cuidar da sua casa e da nossa filha, ou você pode pegar suas coisas e ir embora, mas esqueça a Lara e esqueça a vida confortável que eu te dou."
A ameaça era clara, ele me tiraria tudo, inclusive minha filha, e eu sabia que ele tinha o poder e o dinheiro para fazer isso, então, eu "aprendi". Aprendi a não fazer perguntas, a não olhar o celular dele, a sorrir em jantares de negócios enquanto ele flertava com outras.
Eu me convenci de que era um equilíbrio, um acordo silencioso, ele me dava segurança, uma casa bonita, uma vida de luxo, e em troca, eu olhava para o outro lado. Eu me dizia que ele me amava à sua maneira, que ele sempre voltava para casa, para mim e para Lara, que éramos a sua família de verdade, o seu porto seguro. Eu me enganava para sobreviver.
Mas Bruna era diferente, ela não era apenas mais uma aventura passageira, a semelhança dela comigo mais jovem, a forma como João a olhava, a audácia de trazê-la para a festa da nossa filha, tudo isso quebrava o nosso frágil acordo, era uma afronta direta, uma declaração de que eu não importava mais.
Naquela noite, depois da festa, o silêncio em nosso quarto era pesado, carregado de palavras não ditas. Eu estava deitada de costas para ele, fingindo dormir.
Senti a mão dele no meu ombro, um toque que antes me trazia conforto, mas que agora me causava repulsa.
"Sofia...", ele sussurrou, sua voz com um tom falsamente carinhoso. "Não vamos brigar por bobagem."
Ele tentou me virar para ele, sua respiração quente no meu pescoço.
"Não me toca", eu disse, minha voz um sussurro rouco.
A mão dele apertou meu ombro com mais força, a gentileza desaparecendo instantaneamente.
"Não comece, Sofia, eu não estou com paciência para o seu drama hoje."
Ele tentou me beijar, mas eu virei o rosto, meu corpo todo tenso, a recusa era a única arma que eu tinha naquele momento.
A reação dele foi imediata, a frustração se transformou em raiva, ele me segurou com força, seu corpo pressionando o meu contra o colchão, era um ato de posse, não de amor, uma demonstração de que ele podia ter o que quisesse, quando quisesse.
Eu fechei os olhos, sentindo as lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto, me senti suja, usada, impotente.
Semanas se passaram naquela tensão sufocante, eu mal comia, sentia náuseas constantes, que eu atribuía ao estresse. Um dia, olhando para o calendário, uma suspeita terrível se formou na minha mente, minha menstruação estava atrasada.
Com as mãos trêmulas, eu fiz o teste de farmácia, esperando, rezando para que fosse um engano.
Dois traços cor-de-rosa apareceram no visor, claros e inconfundíveis.
Grávida.
Eu me sentei no chão frio do banheiro, o teste na minha mão. Não havia alegria, não havia esperança, apenas um desespero profundo, eu estava carregando o filho do homem que me traía, que me humilhava, que me via como um objeto. Este bebê, em vez de ser uma bênção, parecia uma sentença.
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