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Capa do romance Meu nome é Lucy

Meu nome é Lucy

Lucy sempre soube que não era um garoto. Aprisionada em um corpo que não lhe pertencia, ela sufocava ao ser chamada de Jeon Woojin. Escondida da sociedade e de sua própria família, a jovem vivia em profunda tristeza, mas mantinha o sonho de conquistar a liberdade. Determinada a ser quem realmente é, Lucy decide lutar contra preconceitos e adversidades intensas. Sua jornada é um caminho de resistência para finalmente assumir sua identidade e voar para longe da gaiola.
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Capítulo 3

Lucy não sabia o que de fato estava fazendo.

Sentada sobre a beira de sua cama, ainda olhava a caixa que há três dias, Ryeon havia visto.

Ainda não tinha encarado o garoto, pois não sabia como iria reagir, então havia inventado que sentia dores de cabeça durante todos aqueles dias, e assim evitava ir à escola.

Seu pai todas as manhã ainda batia à sua porta e sentava na sua cama, implorando para que ela falasse o que estava acontecendo, porque ele sentia que tinha problemas ali. Mas ela ainda sentia medo, e não sabia como contar algo de si para ele, e como se fosse para piorar tudo, suas pílulas diárias de hormônios haviam acabado.

Falava com Jaesun ao celular, sua voz rouca e fraca lamentava.

Seu fornecedor estava sem estoques.

ㅡ Isso parece Deus mandando uma mensagem para você, sabe? Eu já te disse, para de tomar essas coisas sem prescrição!

ㅡ Aigoo. O que quer que eu faça, Jae? Eu preciso tomá-los caso queira ser eu.

ㅡ Lu, entenda, você é você com ou sem os remédios. Tomá-los da forma errada que você está fazendo, só vai te deixar mal. Eu te mandei a médica que eu consegui, por que você não vai lá?

ㅡ Eu liguei lá, mas é muito caro. Eles cobram cinquenta mil won por consulta.

ㅡ Você gasta duzentos a cada novo frasco de remédios. Não se faça de vítima.

ㅡ Não é se fazer de vítima, é ter desespero. Eu não aguento mais viver sufocada do jeito em como vivo, eu preciso ir a Seul, e eu não quero ir como Woojin. Eu nunca fui Woojin!

ㅡ Tudo bem, Lu, eu te entendo. Mas, por favor, vamos numa consulta? Eu pago a primeira, e depois vemos como tudo fica.

A garota não queria recusar. Ela sabia que aquilo era bom para si, mas sentia na pele o desejo de tomar os remédios e ansiar ㅡ como já ansiava ㅡ por um dia acordar como a garota que é.

ㅡ Eu vou pensar.

ㅡ Pense, e, por favor, fale comigo.

ㅡ Tudo bem.

A ligação foi findada, e a garota apenas se jogou de volta à cama. Agradecia por sua mãe ter saído para fazer as compras de alimentos da casa, então aquele momento estava sozinha.

Ela podia gastar o tempo como sempre fazia em momentos como aquele. Adorava vestir suas roupas, e roubar os sapatos de salto alto de sua mãe.

Eles ficavam apertados, pois infelizmente Lucy calçava trinta e nove e sua mãe apenas o trinta e cinco.

Ela também via o modo em como o corpo de sua mãe era menor e isso até a fazia pensar que mesmo vestida como garota, algumas pessoas poderiam estranhar.

Não que garotas altas fossem algo abominável, porque Lucy era uma delas, e não via problema. Media cerca de um e setenta e cinco, e sabia que teriam garotos altos para cobrir-lhe o corpo como via nos dramas rotineiros que ela achava um saco.

Mas, no país em que vivia, havia um padrão como em todo país. E lá, mulheres geralmente eram pequenas. Magras demais e frágeis.

E Lucy não se encaixava em nada disso.

Então apenas continuou deitada, querendo não se frustrar naquele momento, mas falhando miseravelmente.

Com o celular nas mãos, ela insistia em ligar para o homem que lhe fornecia as pílulas, mas ele sempre a atendia com o tom rude e áspero.

Na última tentativa, ele desligou sem nem se despedir e mandou-lhe o número de outra pessoa.

Disse que talvez a pessoa pudesse ajudar a garota, e pediu que, por favor, ela o deixasse em paz.

A garota quis o mandar à merda, mas apenas digitou o número que ele mandou e esperou ser atendida.

Não sabia com quem iria falar, mas foi atendida por uma mulher.

Falou sem pontos na linha o que queria, e se surpreendeu quando foi cobrado apenas cento e vinte mil won por um frasco.

Ela fez o pedido e marcou em uma praça para buscá-los, assim não entraria em uma enrascada por estar comprando-os sem receita.

Calçou seus coturnos marrons rápido e buscou um casaco xadrez no armário. Seus cabelos estavam secos e não eram penteados há dias, mas ela apenas os prendeu com um elástico e fez um coque alto, procurando pelas cédulas de won que guardava debaixo da cama.

O dia estava frio demais, e ela caminhava esfregando as mãos. Não tinha muito conhecimento com a vizinhança, então não teve vizinhos lhe parando ou cumprimentando.

Mas, como tudo na vida de Lucy parece querer fazê-la ter um treco, ela freou os passos assim que chegou à esquina da rua.

Park Ryeon estava lá, e ele parecia ainda mais bonito.

Ryeon estava alheio, sentado e suado na calçada de sua porta. O skate ao lado de seu corpo indicava o que o garoto havia feito para estar em tal estado, e a língua para fora enquanto buscava por ar, deixou a garota desnorteada.

Mas Ryeon não estava só.

Ao lado do garoto estavam seus amigos, Noah, Daniel e Jerry, os que sempre perdiam tempo com Ryeon andando de skate.

Lucy suspirou pesadamente, e virou-se. Não podia seguir por ali. Estava evitando Ryeon e ainda teria que falar o que iria fazer. Possivelmente Ryeon pediria para ir com ela, e ela se atrapalharia toda para inventar algo que o fizesse ficar onde estava.

Então ela seguiu para o outro lado. Bufou quando teve que dar uma volta completa na rua, por simplesmente ser uma idiota, mas sorrio quando chegou à praça e viu a mulher já a sua espera.

A mulher sorriu para ela, e sentou-se em um dos bancos. Sempre tinham que agir como se fossem amigas, então Lucy apenas sentou e sorriu também. Fingiram conversar sobre bobeiras, até a mulher passar a sacola marrom de papel para a outra.

ㅡ Rápido, o pagamento.

Lucy assentiu, buscando de dentro do bolso do casaco. Ela era péssima em disfarces, mas conseguiu fazer aquele fluir até o último momento.

ㅡ Você tem meu número, no que precisar, ligue.

A garota assentiu, sorrindo para a outra.

ㅡ E aliás, você é linda.

Ela sentiu as bochechas esquentarem, mas despediu-se com um abraço como mandava o personagem, e esperou que a mulher sumisse de seu campo de visão para enfim se erguer. E quando ela o fez, deu de cara com Ryeon.

ㅡ Então ela é a sua namorada? ㅡ o garoto perguntou em um tom chateado.

A garota engoliu em seco, buscando uma resposta.

ㅡ Qual o nome dela?

ㅡ V-Você me seguiu?

ㅡ Segui sim. Eu vi você e ela sorrindo e se abraçando.

ㅡ E o que há? ㅡ a garota desviou e seguiu seu caminho, sentindo Ryeon bem atrás de si.

ㅡ O que há? Por que você não me contou?

ㅡ Ela não é minha namorada.

ㅡ Não? Então é o quê? Uma ficante? Alguém que você está conhecendo?

ㅡ Por que... ㅡ a garota virou-se, dando de cara com Ryeon e seu peito suado. Ela se sentiu desnorteada, e se afastou. ㅡ por que você está me fazendo esse tipo de pergunta?

ㅡ Por que eu achei que fôssemos amigos.

ㅡ E nós somos. ㅡ ela disse ainda sem o encarar. ㅡ não somos?

ㅡ Amigos contam tudo para os outros, sabia?

Lucy então resolveu olhar Ryeon e viu como ele parecia realmente chateado. Ela não queria que ele permanecesse daquele jeito, mas não tinha nada que pudesse fazer.

ㅡ Contam mesmo? ㅡ ela perguntou desviando o olhar para o pescoço dele. ㅡ então quem fez isso em você? Foi sua namorada? ㅡ falou debochando.

Ryeon tocou sobre a mão de Lucy, mas ela a retirou. O garoto fechou os olhos rapidamente, se praguejando por sua maquiagem fajuta ter saído com o suor.

ㅡ Eu não tenho namoradas. Eu acabei me machucando, só isso.

ㅡ Uhum, então parece que estamos do mesmo jeito. ㅡ ela disse sorrindo e se virou, a fim de sair dali e não precisar olhar para aquela marca ridiculamente roxa na pele do garoto que gostava.

ㅡ Eu não tenho namoradas. Porque eu não gosto de garotas.

Aquilo fez Lucy gelar. A garota não podia acreditar no que havia escutado.

Se Ryeon não gostava de garotas, aquilo significava que ele nunca poderia gostar dela, não é?

Droga.

A garota negou, fechando os olhos em seguida. Praguejava-se por ser tão tola. Como ela nunca percebeu isso?

ㅡ Mas... Mas você beijou a Sun e... Você gosta dela.

ㅡ Eu realmente beijei a sun, mas eu também beijei você. ㅡ Ryeon falou e parou na frente da garota, observando seus olhos arregalados. ㅡ e eu percebi que eu gosto mesmo de garotos.

ㅡ Como descobriu?

ㅡ Por que eu não paro de pensar em um em especial.

Lucy sentiu os olhos arderem, mas desviou-os e apenas encolheu o corpo, desviando de Ryeon para seguir.

ㅡ Você não se importa com isso? ㅡ Ryeon gritou, caminhando logo atrás da garota.

Mas ela não respondeu, apenas apressou o passo e tentou a todo o momento se desvencilhar dos pensamentos fúteis.

ㅡ Me responde. ㅡ Ryeon a parou, segurando em seus ombros e novamente parando a sua frente. ㅡ Isso não importa para você?

ㅡ E o que eu tenho a ver com isso?

Ryeon piscou perdido. Não entendia porque estava sendo tratado com tanta amargura. Não entendia porque o seu Woojin estava daquele jeito.

ㅡ Eu preciso ir.

E desviando mais uma vez do outro, Lucy caminhou e seguiu para sua casa. Diferente de antes, Ryeon não a seguiu. Ficou parado no mesmo lugar enquanto via a pessoa que não saia de seu pensamento ir.

Sentiu-se perdido.

Mas Lucy foi rápida, chegou a casa ainda antes de sua mãe e já subiu para seu quarto retirando as roupas que usava.

Chorava, molhando a pele rosada de sua bochecha com abundância, mas já não ligava para mais nada.

Sentia-se cheia de nada a sua volta ou em sua vida dar errado, então despiu-se e buscou três das pílulas do frasco. Havia parado com as outras há três dias, então seria o certo ingerir uma para cada dia, certo?

Errado.

E Lucy sabia, mas como ela estava cansada, talvez se tudo desse errado nada mudaria mesmo.

Ligou o chuveiro, olhando como a água caia ligeira, e sentou no chão frio.

As lágrimas ainda desciam de forma volumosa, e os soluços mudos saiam de sua boca, mas o cansaço foi tanto, que ela apenas pôs as três pílulas na boca, e engoliu com a água que caia diretamente do chuveiro.

Sentiu a dificuldade para engolir todas as pílulas de uma só vez, mas quando o fez, deixou que a água limpasse por si só seu corpo, enquanto seus olhos fechavam.

Lucy imaginava-se com os seios que queria ter. Com as curvas e sem os pelos que teimam em crescer nos lugares inoportunos em seu corpo.

Não aguentava mais que lhe visse como Woojin, então era somente para livrar-se rápido da sensação agoniante que ela continuava tomando aquilo.

E quando ela achou que já estava bom o "banho" que tomava, levantou-se do chão e desligou o registro.

Secou-se de modo desleixado, sentindo o corpo parecer mais cansado a cada segundo, e sorriu quando viu sua cama mudar rapidamente de lugar.

Ela abanou a cabeça, tentando tirar a sensação esquisita de enjoo de dentro de si, mas viu todo o quarto girar rápido e caiu sobre a cama, fechando os olhos.

Seu coração acelerou e um zumbido veio ao seu ouvido, então ela se encolheu sentindo a respiração mudar.

Sabia que poderia ser o efeito colateral do medicamento, mas havia ingerido além da conta e naquele momento sentiu medo.

Rapidamente ela se ergueu da cama e procurou por suas roupas. Vestiu-as sem saber se fazia do modo correto e buscou seu celular.

Precisava ligar para Jaesun, e pedir para que o garoto fosse lá. Somente ele sabia o que acontecia com a garota e poderia ajudá-la.

Tentou desbloquear o celular uma nova vez, mas não conseguiu. Via tudo balançar e rodar, então o feito se tornou impossível de fazer.

Lucy, agoniada, olhou ao redor, e viu o frasco jogado sobre a cama.

Buscou-o para verificar a bula e viu que não havia. O nome era desconhecido por ela, e as substâncias presentes também.

A garota lamentou. Possivelmente estava tendo algum tipo de reação contrária e estava sozinha em casa, ninguém a ajudaria.

Provavelmente ela morreria ali, e somente após horas achariam seu corpo.

Suas mãos começaram a tremer, enquanto seus olhos voltaram a derramar lágrimas. Suas pernas pareciam como geleia e também tremiam para sustentá-la de pé.

Mas Lucy não queria morrer daquele jeito. A garota tinha que lutar, só não sabia como.

A garota tentou caminhar até a porta, mas caiu com força no chão, machucando sua mão, e rasgando sutilmente seu braço.

Ela gemeu de dor, mas ouviu o toque agudo de seu celular logo ao lado.

Não conseguiu ver o nome, tudo se tornava como vultos, então apenas tocou no botão de cor verde e pôs o aparelho sobre o ouvido.

ㅡ Woojin?

Ela não conseguiu responder, mas gemia, e chorava compulsivamente.

ㅡ O quê? Está chorando? Foi o que eu fiz? Me desculpa, eu não quis te seguir.

Ryeon não entendia nada do que ouvia, mas a garota juntava forças enquanto sentia o ar deixar-lhe os pulmões.

ㅡ Woojin? ㅡ Ryeon chamou de forma desesperada.

A visão da garota tornou-se nublada, escura, e tudo o que conseguiu falar antes de apagar foi:

ㅡ Me ajude...

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