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Capa do romance Meu Lar, Uma Farsa

Meu Lar, Uma Farsa

No aniversário de casamento, meu mundo ruiu. Pedro, meu marido, celebrava com sua ex-amante e Ana, nossa filha, que me traiu cruelmente. O horror atingiu o ápice quando Ana revelou que o jantar era Fofinho, meu coelho de estimação. Diante de tamanha monstruosidade e do deboche daquelas pessoas que eu amava, a dor tornou-se fúria. Após confrontá-los no restaurante, exigi o divórcio. Eles acham que é apenas pelo animal, mas agora sei que vivo com monstros e o jogo mudou.
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Capítulo 2

A vida que eu conhecia estava prestes a acabar, mas eu ainda não sabia.

Se alguém me dissesse que em poucas semanas eu estaria pedindo o divórcio, rindo da desgraça do meu marido e da mulher que eu criei como filha, eu o chamaria de louco.

Mas a verdade é que o castelo de cartas que eu chamava de lar já estava tremendo, pronto para desabar ao menor sopro de vento.

Tudo começou com uma mensagem de texto do meu marido, Pedro.

"Maria, tenho uma surpresa para você esta noite. Me encontre no restaurante 'Vista do Mar' às oito. Vista-se bem. É nosso aniversário de casamento."

Meu coração acelerou.

Pedro não era um homem de surpresas. Nos últimos anos, ele vivia reclamando de dinheiro, dizendo que a empresa estava mal e que precisávamos economizar. Nossos jantares se resumiam a macarrão instantâneo e pão com manteiga, enquanto eu fazia horas extras na minha pequena empresa de design para pagar as contas.

E nossa filha, Ana, de dezesseis anos, parecia ter herdado o gosto caro do pai. Ela reclamava de tudo, dizia que a comida em casa era "comida de pobre" e que suas amigas viajavam para a Europa enquanto ela tinha que usar roupas de liquidação.

Eu me sentia culpada. Trabalhava dia e noite para dar a eles uma vida melhor, mas parecia que nunca era o suficiente.

A mensagem de Pedro foi como um raio de sol em um dia chuvoso. Talvez as coisas estivessem melhorando. Talvez ele finalmente tivesse conseguido aquele grande contrato que tanto falava.

Passei a tarde inteira me arrumando. Escolhi meu melhor vestido, um que não usava há anos. Fui ao salão, fiz o cabelo e as unhas. Comprei um pequeno bolo na minha confeitaria favorita, o sabor preferido de Pedro. Eu queria que aquela noite fosse perfeita.

Eu me sentia como uma adolescente indo para o primeiro encontro, com o estômago cheio de borboletas.

Cheguei ao 'Vista do Mar' cinco minutos antes das oito. Era um dos restaurantes mais caros da cidade, com uma vista deslumbrante para o oceano. Fiquei nervosa só de olhar para o cardápio na entrada. Como Pedro poderia pagar por isso?

A hostess me levou até uma mesa na varanda. E foi então que meu mundo parou.

Lá estava Pedro.

Ele não estava sozinho.

Sentada à sua frente, rindo de algo que ele dizia, estava uma mulher elegante e bonita. E ao lado dela, nossa filha, Ana, sorria com uma admiração que eu nunca recebia.

Na mesa, uma garrafa de champanhe caro e pratos que pareciam ter saído de uma revista de gastronomia. Lagostas, ostras, coisas que eu só via na televisão.

Pedro segurava a mão da mulher. Ele a olhava com uma intensidade que não me dirigia há mais de uma década.

Meu corpo congelou. O bolo na minha mão pareceu pesar uma tonelada. O som das ondas, o murmúrio das outras pessoas, tudo desapareceu. Só existia aquela cena na minha frente. Uma facada fria e lenta no meu peito.

Eles não me viram. Eu estava parada nas sombras, perto de uma grande palmeira ornamental.

Meu primeiro instinto foi correr, fugir dali. Mas algo me prendeu ao chão. Eu precisava entender.

Foi quando ouvi a voz de Ana, clara e alta.

"Pai, essa comida está incrível! Muito melhor que a porcaria que a mamãe faz."

A mulher, que eu logo descobriria se chamar Isabela, riu.

"Sua mãe tem um gosto simples, querida. Ela não entenderia essas coisas."

O pior ainda estava por vir.

Pedro sorriu e disse algo que fez meu sangue gelar.

"Falando em comida, o ingrediente especial de hoje ficou perfeito, não acham? Aquele guisado estava divino."

Ana bateu palmas.

"Sim! Eu sabia que ia ficar bom! Aquele bicho inútil finalmente serviu para alguma coisa."

Ingrediente especial? Bicho inútil?

Uma imagem terrível se formou na minha mente. Uma imagem que eu tentei afastar, mas que se recusava a ir embora.

Em casa, no quintal, havia uma gaiola. E dentro dela, vivia Fofinho, meu coelhinho de estimação. Eu o ganhei de uma cliente, ainda filhote. Ele era a única criatura naquela casa que parecia genuinamente feliz em me ver. Eu o alimentava, limpava sua gaiola, conversava com ele nos meus momentos de solidão.

Pedro e Ana o odiavam. Diziam que ele era fedido e que dava muito trabalho.

Meu coração começou a bater descontroladamente. Não podia ser. Eles não fariam isso. Era cruel demais, doentio demais.

Eu dei um passo à frente, saindo das sombras. O bolo escorregou da minha mão e se espatifou no chão de mármore, um som surdo que finalmente chamou a atenção deles.

Três pares de olhos se viraram para mim. O sorriso de Pedro se desfez, substituído por uma máscara de irritação e choque. Ana me olhou com desprezo.

E Isabela, a ex-namorada de Pedro, a mulher que eu pensei que tinha desaparecido de nossas vidas para sempre, me olhou com um sorriso triunfante.

Naquele momento, eu soube. O guisado que eles tanto elogiaram...

Meu coelho.

Meu Fofinho.

A dor da traição se misturou com um horror tão profundo que me tirou o ar.

E a noite estava apenas começando.

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