
Meu Ex, Minha Ruína
Capítulo 2
A dor veio primeiro, uma onda de fogo que subiu pelo meu rosto e explodiu dentro da minha cabeça. Depois veio o som, um grito abafado que eu mal reconheci como sendo meu. Eu estava no chão, o asfalto frio e sujo do estacionamento grudando na minha pele, e o cheiro de lixo e chuva enchia minhas narinas. Dois homens, duas sombras, se afastavam correndo, desaparecendo na escuridão da noite carioca.
Tudo tinha acontecido muito rápido. Um minuto antes, eu estava saindo do meu carro, cantarolando, pensando nos últimos detalhes do meu casamento com Lucas, que seria no dia seguinte. Eu era Ana Paula, a influenciadora digital que tinha tudo: uma carreira de sucesso, uma família poderosa e um noivo herdeiro de uma das famílias mais tradicionais de São Paulo.
Agora, eu era apenas uma mulher sangrando no chão de um estacionamento.
Tentei me levantar, mas uma dor aguda na mandíbula me fez cair de volta. Levei a mão à boca e senti um vazio. Um, dois, três dentes a menos. O pânico começou a subir pela minha garganta, gelado e sufocante. Meu rosto. Meu trabalho. Meu casamento.
As luzes de uma ambulância finalmente cortaram a escuridão. Alguém me tocou, vozes falavam comigo, mas tudo parecia distante. A última coisa que vi antes de apagar foi o reflexo do meu próprio rosto desfigurado no vidro da porta da ambulância.
Acordei em um quarto de hospital particular, o cheiro de antisséptico forte demais. Meu pai, o Sr. Oliveira, um magnata do agronegócio, estava ao lado da cama, o rosto contorcido em uma máscara de preocupação. Meu irmão, Pedro, um renomado cirurgião plástico, segurava minha mão.
"Minha filha, que bom que você acordou," disse meu pai, a voz grave e controlada. "Nós pegamos um susto terrível."
Pedro apertou minha mão.
"Não se preocupe, maninha. Eu estou aqui. Eu vou cuidar de você. Vou deixar seu rosto perfeito de novo, eu prometo."
Suas palavras eram um bálsamo. Eu acreditei nelas. Fechei os olhos, exausta, sentindo uma pontada de alívio em meio à dor. Minha família estava ali. Eles iam me consertar.
Mais tarde, eu estava meio acordada, flutuando na névoa dos analgésicos. A porta do quarto estava entreaberta, e eu ouvi as vozes do meu pai e do meu irmão no corredor. Eles falavam baixo, mas o silêncio do hospital carregava suas palavras até mim.
"O estrago foi grande, pai," disse Pedro, a voz tensa. "Mandíbula quebrada, vários dentes perdidos, lacerações profundas. Vai levar meses de cirurgia, e mesmo assim, pode não ficar como antes."
Houve uma pausa. Então, a voz do meu pai, fria e calculista, cortou o ar.
"Não temos meses. O casamento de Rafaela com o Lucas precisa acontecer. É um negócio importante demais para a empresa. Um atraso agora pode colocar tudo a perder."
Meu coração parou. Rafaela. Minha irmã de criação. A que sempre me olhou com uma inveja que ela mal se dava ao trabalho de esconder. Casamento com o Lucas? O meu Lucas?
"Mas pai, e a Ana Paula?" a voz de Pedro era fraca, um protesto sem força. "Ela é minha irmã. O rosto dela..."
"O rosto dela pode esperar," meu pai retrucou, impaciente. "Rafaela é a nossa prioridade. Ela é a que vai garantir nosso futuro. Você vai adiar qualquer procedimento reconstrutivo. Diga que precisa esperar a inflamação diminuir, invente qualquer coisa. Precisamos de tempo para que o Lucas se acostume com a ideia de ficar com a Rafaela."
Eu fiquei imóvel na cama, o ar preso nos meus pulmões. Cada palavra era uma facada. A dor no meu rosto não era nada comparada à dor que rasgava meu peito. A preocupação deles era uma farsa. A promessa do meu irmão era uma mentira.
Eu não era a filha amada, a irmã querida. Eu era um obstáculo. Um problema a ser gerenciado.
Lembrei de todas as vezes que meu pai elogiou Rafaela na minha frente, diminuindo minhas conquistas. Lembrei de como Pedro, apesar de parecer me adorar, sempre cedia às vontades do nosso pai. A ingenuidade que eu tinha sobre a minha própria família se despedaçou em um instante. Eu tinha vivido numa bolha de mentiras, e ela acabara de estourar da forma mais brutal possível.
Minutos depois, eles entraram no quarto de novo, os rostos recompostos em máscaras de falsa compaixão. Meu pai alisou meu cabelo, um gesto que agora me dava nojo.
"Descansou um pouco, querida?"
Eu apenas o encarei, a dor e a traição queimando nos meus olhos.
Pedro se aproximou, evitando meu olhar.
"Ana, eu examinei seus exames. A inflamação está muito severa. Precisamos esperar algumas semanas antes de pensar em qualquer cirurgia plástica. É para a sua segurança."
Eu sabia que ele estava mentindo. A covardia em sua voz era palpável.
Reuni o que restava da minha força, minha voz saindo rouca e dolorida através dos lábios inchados.
"Eu quero a cirurgia agora, Pedro."
Era um teste. Um último e desesperado pedido para que ele provasse que eu estava errada, que o que eu ouvi era um pesadelo.
Meu pai interveio antes que Pedro pudesse responder, a voz suave, mas com um fundo de aço.
"Filha, seu irmão é o especialista. Se ele diz que é preciso esperar, é porque é o melhor para você. Nós só queremos o seu bem. Agora descanse. Você precisa se recuperar."
Ele sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos frios. Naquele momento, eu entendi. Não havia amor ali. Não havia preocupação. Havia apenas um plano, e eu era a peça a ser sacrificada. A dor física era insuportável, mas a dor da traição era um veneno que se espalhava por cada parte do meu ser, me deixando oca e fria. Eles não iam me salvar. Eles iam me destruir.
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