
Meu Ex, Minha Ruína
Capítulo 3
No dia seguinte, um médico que eu não conhecia entrou no quarto. Ele não era meu irmão. Era um especialista do hospital, chamado para uma avaliação oficial. Ele tinha um olhar profissional e distante, o que, de alguma forma, era um alívio.
Ele leu os laudos em sua prancheta, seu rosto impassível. Depois, com cuidado, examinou meu rosto. Cada toque, por mais gentil que fosse, enviava ondas de dor.
"Senhorita Oliveira," ele disse, finalmente, sua voz neutra. "A fratura na mandíbula é complexa. Três dentes foram perdidos na raiz, e outros dois estão seriamente comprometidos. As lacerações na bochecha esquerda são profundas, e há risco de dano no nervo facial."
Ele fez uma pausa, olhando diretamente para mim.
"A recuperação será longa. Serão necessárias múltiplas cirurgias. Uma para fixar a mandíbula, depois os implantes dentários, e por último, a reconstrução plástica para minimizar as cicatrizes. Mas preciso ser honesto, algumas cicatrizes e talvez uma leve assimetria facial podem ser permanentes."
Permanentes. A palavra ecoou no meu cérebro. Meu rosto, a ferramenta do meu trabalho, a imagem que eu vendia para milhares de seguidores, estava permanentemente danificado.
Mais tarde, meu pai e Pedro entraram. O médico já tinha ido embora, mas eles obviamente tinham falado com ele.
"Meu Deus!" meu pai exclamou, a mão no peito, uma atuação digna de um Oscar. "Danos permanentes? Isso é inaceitável! Pedro, você precisa fazer alguma coisa!"
Pedro, o grande cirurgião, balançou a cabeça, o olhar baixo.
"Pai, como eu disse, a situação é delicada. Qualquer intervenção agora pode piorar as coisas. O Dr. Almeida concorda que precisamos esperar."
Era uma mentira bem ensaiada. Eles usavam a opinião de um médico de verdade para validar seu plano cruel. Eles me olhavam com falsa piedade, e eu senti um gosto amargo na boca que não vinha dos meus ferimentos.
Naquela tarde, a segunda parte do plano deles começou. Uma amiga me mandou uma mensagem.
"Ana, o que é isso que estão postando sobre você?"
Com as mãos trêmulas, peguei meu celular. Meu feed estava explodindo. Um blog de fofocas de segunda categoria tinha postado uma matéria com a manchete: "Influenciadora Ana Paula é atacada na véspera do casamento. Fontes dizem que foi acerto de contas por dívida de jogo."
A foto era horrível, uma imagem tirada por um paparazzo enquanto eu era colocada na ambulância, meu rosto uma massa de sangue e inchaço. Abaixo, os comentários eram cruéis.
"Sempre soube que essa aí não era santa."
"Quem mandou se meter com gente errada?"
"Bem feito. O noivo dela deve estar se livrando de uma boa."
A náusea subiu pela minha garganta. De onde eles tiraram isso? Dívida de jogo? Eu mal sabia jogar pôquer. Era uma mentira tão absurda, tão suja. E então eu soube. Tinha que ser eles. Meu pai e Pedro. Espalhando boatos para me difamar, para justificar o fim do meu noivado, para limpar o caminho para Rafaela.
Meu celular tocou. Era Lucas. Meu coração deu um salto de esperança. Ele não acreditaria nisso. Ele me conhecia.
"Alô?" minha voz saiu falhada.
"Ana Paula," a voz dele era fria, distante. Não havia calor, não havia preocupação. "Que história é essa? Meu pai está furioso. O nome da nossa família está sendo arrastado na lama."
"Lucas, é mentira," eu supliquei, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto ferido, queimando nas feridas abertas. "Eu fui atacada. Eu não fiz nada."
"Mentira? As fotos estão em todo lugar. Dívidas de jogo, Ana Paula? Como você pôde ser tão irresponsável? Nosso casamento está em todos os jornais por causa disso."
Ele não perguntou se eu estava bem. Ele não perguntou sobre a minha dor. Ele só se importava com o nome da família dele. Com a imagem dele.
"Eu preciso de você, Lucas."
"Eu preciso de tempo para pensar," ele disse, e a frieza em sua voz era final. "Não me ligue."
Ele desligou.
Eu olhei para o telefone na minha mão, a tela escura refletindo meu rosto deformado. Eu tinha acabado de perder tudo. Meu rosto, minha carreira, meu noivo. Tudo tirado de mim pela minha própria família.
Meu pai e meu irmão entraram no quarto novamente, trazendo um caldo de legumes que o hospital servia.
"Você precisa se alimentar, querida," disse meu pai, com sua voz falsamente paternal.
Pedro colocou a bandeja na minha frente.
"Vimos as notícias. É terrível o que estão dizendo. Não se preocupe, vamos processar todos eles."
A hipocrisia era tão espessa que eu podia senti-la, sufocante como fumaça. Eles me olhavam, esperando uma reação, esperando minhas lágrimas, meu desespero.
Mas eu não sentia mais nada além de um vazio gelado. Eu os encarei, meus olhos secos. Eles eram monstros vestidos de pai e irmão.
Naquele momento, enquanto eles desempenhavam seu teatro de preocupação, eu senti algo mudar dentro de mim. A dor e o desespero começaram a se transformar em outra coisa. Uma brasa fria de raiva. Uma determinação silenciosa.
Eu sabia que a relação com Lucas estava acabada. Ele tinha me abandonado no momento em que eu mais precisei, engolindo as mentiras que minha família serviu a ele. A dor da perda era real, mas a clareza que veio com ela era afiada. Eu estava sozinha nisso. E se eu estava sozinha, eu só podia contar comigo mesma.
Eles achavam que tinham me quebrado. Mal sabiam eles que tinham acabado de me dar um motivo para lutar.
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