
Meu Casamento Perfeito, Seu Segredo Mortal
Capítulo 2
Ponto de Vista: Lara Azevedo
Eu não dormi. A imagem de Heitor abraçando Isadora, o cheiro do perfume dela em seu quarto secreto, o som do suspiro dela ao telefone - tudo se repetia em um loop implacável na minha mente. Pela manhã, uma dor de cabeça latejante martelava atrás dos meus olhos, e meu estômago era um nó apertado de náusea e luto.
Mas as lágrimas haviam sumido. Em seu lugar, havia uma calma frágil e gélida.
A primeira coisa que fiz foi dirigir até a Vértice Inovações. Não para trabalhar, mas para pedir demissão. Eu não podia passar mais um segundo em um prédio que era um monumento ao sucesso dele, um sucesso construído sobre mentiras que haviam enredado minha vida.
Eu estava caminhando em direção ao departamento de RH quando os vi.
Heitor e Isadora estavam saindo de seu elevador privativo, aquele que levava diretamente ao seu escritório na cobertura. Ele usava um terno novo, mas um curativo branco era visível em seu antebraço. Isadora estava agarrada ao seu braço, vestindo um suéter de caxemira oversized que eu reconheci como um dos de Heitor. Ela parecia pálida e frágil, seus olhos vermelhos, mas uma luz presunçosa e possessiva brilhava neles enquanto ela olhava para ele.
Eles estavam rindo de algo, suas cabeças próximas. Pareciam um casal, íntimos e completamente em sincronia.
Então Heitor olhou para cima e me viu.
Seu sorriso desapareceu. Ele se desvencilhou gentilmente de Isadora, sua expressão se tornando cautelosa, indecifrável. Ele olhou para mim como se eu fosse uma estranha, um pequeno inconveniente com o qual ele tinha que lidar.
"Lara", disse ele, sua voz fria. "O que você está fazendo aqui?"
Antes que eu pudesse responder, os olhos de Isadora pousaram em mim. Um sorriso lento e cruel se espalhou por seu rosto. "Ora, ora. Vejam só o que temos aqui. A pequena substituta."
Ela deu um passo à frente, circulando-me como um predador. "Sabe", disse ela, sua voz pingando falsa simpatia, "eu entendo por que ele te escolheu. Você tem o mesmo cabelo. Os mesmos olhos." Ela se inclinou, seu olhar caindo para a pequena pinta logo acima do meu lábio. "Até a mesma pintinha. Não é adorável?"
Eu recuei. Aquela pinta...
Uma memória surgiu. Alguns meses atrás, Heitor estava traçando meu rosto com o dedo. "Eu amo isso", ele sussurrou, tocando o ponto acima do meu lábio. "É perfeito. Nunca se livre disso." Na época, eu pensei que era um momento doce e íntimo. Agora, a memória parecia manchada, grotesca.
Isadora deve ter visto o lampejo de horror em meu rosto. Ela riu, um som triunfante. "Ah, você não sabia?", ela arrulhou. "Heitor sempre teve uma queda pela minha pinta. Ele diz que é a parte favorita dele em mim."
Eu encarei Heitor, meu coração batendo um ritmo doentio contra minhas costelas. "Isso é verdade?", sussurrei, minha voz quase inaudível.
Ele não respondeu. Apenas desviou o olhar, seu maxilar tenso. Seu silêncio era uma confissão.
Ele não amava minhas feições. Ele amava a semelhança delas com as dela. Ele me curou, peça por peça, em uma imitação pálida da mulher que ele realmente queria. O pensamento era tão violador, tão profundamente humilhante, que senti a bile subir na minha garganta.
"Deixe-a em paz, Isadora", Heitor finalmente disse, sua voz tensa. Ele deu um passo em minha direção. "Lara, vamos ao meu escritório para conversar."
"Conversar?" Eu encontrei minha voz, e ela tremia de raiva. "Você quer conversar? Depois de passar a noite com ela? Depois de descobrir que todo o meu casamento é baseado em eu ser uma cópia barata dela?"
"Não é assim", disse ele, as palavras automáticas, sem sentido.
"Não minta para mim!" Eu gritei, atraindo a atenção dos funcionários que passavam pelo saguão. "Não se atreva a mentir mais para mim, Heitor!"
Isadora se interpôs entre nós, seus olhos faiscando. "Não levante a voz para ele", ela sibilou. Ela me empurrou com força, me fazendo tropeçar para trás.
O instinto assumiu o controle. Eu a empurrei de volta, com mais força. "Fique longe de mim."
O empurrão pareceu quebrar algo nela. Seu rosto se contorceu de raiva. "Sua vadia", ela gritou. "Você acha que pode me tocar?" Ela estalou os dedos. "Peguem-na."
Dois homens corpulentos de terno, seus guarda-costas pessoais, se moveram instantaneamente. Eles agarraram meus braços, seus apertos como tornos de ferro. Eu lutei, mas foi inútil.
"Isadora, pare com isso", disse Heitor, sua voz nítida, mas ele não fez nenhum movimento para intervir.
"Por que eu deveria?", ela retrucou, seus olhos ardendo. "Ela precisa aprender uma lição. Ela precisa entender o seu lugar." Ela caminhou em minha direção, sua expressão sádica. "Segurem-na."
Os guardas apertaram seus apertos. Isadora sorriu, um sorriso arrepiante e predatório. "Acho que ela precisa de um lembrete permanente de quem ela é uma substituta." Ela enfiou a mão na bolsa e tirou um canivete pequeno e de aparência cruel. Ela o abriu, a lâmina brilhando sob as luzes do saguão.
Meu sangue gelou. "Heitor, impeça-a!", gritei, meus olhos suplicando a ele. "Por favor!"
Ele deu um passo à frente, sua expressão conflitante. Por um único momento de parar o coração, pensei que ele iria me ajudar.
"Heitor, não se atreva", Isadora avisou, sua voz baixa e perigosa. "Se você der mais um passo em direção a ela, eu vou embora. E desta vez, não voltarei."
Ele congelou. Ele olhou do rosto enlouquecido dela para o meu, aterrorizado. Eu vi o cálculo em seus olhos, a ponderação das opções. E então, com uma finalidade que estilhaçou o que restava do meu coração, ele deu um passo para trás.
"Isso é entre vocês duas", disse ele, sua voz desprovida de toda emoção. "Não vou interferir."
O mundo inclinou. Ele estava escolhendo assistir. Ele estava sancionando isso. Ele estava permitindo que ela fizesse o que quisesse comigo, sua esposa, para proteger seu relacionamento tóxico e obsessivo com ela.
"Não", sussurrei, a palavra um suspiro estrangulado. "Heitor, não..."
O sorriso de Isadora se alargou. "Bom menino." Ela se virou para mim, a faca firme em sua mão. "Agora, onde estávamos? Ah, sim. A pinta."
Ela levou a ponta da lâmina ao meu rosto, pressionando-a contra a pele logo acima do meu lábio. Fechei os olhos com força, um soluço de terror preso na garganta.
"Não se preocupe", ela sussurrou, seu hálito quente e com cheiro de uísque velho. "Isso só vai doer por um segundo. E então você estará perfeita. Uma pequena tela em branco perfeita."
Os guardas me seguraram imóvel, suas mãos cravadas em meus braços. Um deles tapou minha boca, abafando meus gritos. Eu estava indefesa, completamente à mercê dele - e ele não me ofereceu nenhuma.
Através dos meus olhos cheios de lágrimas, olhei para meu marido uma última vez. Ele estava lá, observando, seu rosto uma máscara fria e impassível. Seu olhar encontrou o meu por um segundo fugaz, e nele, não vi um pingo de remorso, nem um indício de pena. Apenas um vazio arrepiante e distante.
A faca pressionou mais fundo. Uma dor aguda e lancinante explodiu em meu rosto.
E então, tudo ficou preto.
---
Você pode gostar





