
Meu Casamento Perfeito, Seu Segredo Mortal
Capítulo 3
Ponto de Vista: Lara Azevedo
Acordei com o cheiro estéril de antisséptico e a dor surda no meu rosto. Eu estava em um quarto de hospital particular, do tipo que custa uma fortuna e garante discrição absoluta. Meus dedos foram até meu lábio superior. Estava coberto por um curativo grosso. A área ao redor estava sensível e inchada.
Meu celular estava na mesa de cabeceira. Peguei-o com a mão trêmula. Havia uma mensagem de um número desconhecido.
Era um arquivo de vídeo.
Meu estômago revirou, mas eu precisava saber. Apertei o play.
O vídeo estava tremido, claramente filmado em um celular. Eram Heitor e Isadora, anos atrás, no que parecia ser um jato particular. Eles eram jovens, vibrantes e entrelaçados um no outro. Ele sussurrava em seu ouvido, e ela ria, um som genuíno e feliz que não tinha nada a ver com a gargalhada áspera que eu ouvi ontem. Ele traçou a pinta acima do lábio dela com o polegar.
"Eu amo isso", a voz dele, mais jovem, mas inconfundivelmente sua, disse pelo alto-falante do telefone. "É minha estrela do norte. Enquanto eu puder vê-la, sei que estou em casa."
O vídeo terminou. Uma nova mensagem apareceu imediatamente depois.
*Ouvi dizer que tiveram que te dar pontos. Uma pena. Ele costumava amar esse lugar. Em mim.*
Outra mensagem.
*Você entende, Lara, você nunca foi uma pessoa para ele. Você foi um projeto. Ele encontrou a matéria-prima - cabelo escuro, olhos castanhos - e tentou te moldar em mim. Ele até te deu um emprego no mesmo departamento em que eu estagiava. Cada encontro que vocês tiveram, cada presente que ele te deu... foi tudo uma reencenação. Uma tentativa patética de reviver seus dias de glória comigo.*
E uma final.
*Não se preocupe, o jogo não acabou. Está apenas começando. Vou me divertir muito quebrando o brinquedo favorito dele.*
Uma onda de fúria fria me invadiu. Essa mulher não era apenas cruel; ela era patologicamente insana. E Heitor era seu cúmplice voluntário.
A porta do meu quarto se abriu e ele entrou. Estava impecavelmente vestido, parecendo em todos os aspectos o marido preocupado. Ele carregava um buquê dos meus lírios brancos favoritos. A hipocrisia era tão espessa que eu mal conseguia respirar.
"Lara", disse ele, sua voz suave. "Como você está se sentindo?"
Ele pousou as flores e veio para o meu lado da cama. "Já falei com o RH", continuou ele, como se estivéssemos discutindo um assunto de negócios. "Vou pedir para prepararem seus papéis de demissão e uma carta de recomendação brilhante. Você não precisará voltar ao escritório."
Ele estava me demitindo. De um estágio que eu tive por menos de um dia. Ele estava me apagando de seu mundo, varrendo todo o incidente feio para debaixo do tapete.
Peguei os papéis de demissão que meu advogado havia redigido esta manhã e os estendi para ele. Ele os pegou, seus olhos percorrendo a página. Ele nem sequer vacilou. Simplesmente pegou uma caneta da mesa e assinou seu nome na parte inferior com um floreio decisivo.
Meu último laço com o mundo dele, rompido sem um segundo pensamento.
Ele pousou a caneta e estendeu a mão, seus dedos traçando minha mandíbula, evitando cuidadosamente o curativo. "Você é tão linda", murmurou ele.
Recuei de seu toque como se tivesse sido queimada. O colarinho de sua camisa estava ligeiramente torto. Espiando por baixo do tecido branco engomado havia uma mancha fraca, mas inconfundível, de batom vermelho. O tom de Isadora.
A visão daquilo quebrou o último fio da minha compostura.
"Não me toque", sussurrei, minha voz rouca. "Você ficou lá. Você a viu me cortar. Você prometeu me proteger, Heitor. Você prometeu no dia do nosso casamento."
Um lampejo de algo - culpa? irritação? - cruzou seu rosto. "Lara, você não entende a Isadora. Ela é... frágil. Você não deveria tê-la provocado."
A culpa em sua voz foi um golpe físico. Ele não estava arrependido pelo que aconteceu. Ele estava arrependido por eu ter atrapalhado. Ele estava arrependido por eu ter complicado seu relacionamento doentio com ela.
"Eu a provoquei?", perguntei, minha voz subindo com incredulidade. "Ela me atacou!"
"E estou te dizendo para ficar longe dela", disse ele, seu tom endurecendo em um comando. "Para o seu próprio bem."
Eu o encarei, este homem que eu amei com todo o meu coração, e não senti nada além de um vazio frio e oco. Ele não era apenas um mentiroso. Ele era um covarde. Ele estava deixando Isadora atropelar sua vida, nosso casamento, e estava me culpando pelas consequências.
Tudo bem. Se ele não terminaria isso, eu terminaria.
"Se você a ama tanto", eu disse, minha voz firme apesar do tremor em minha alma, "então me deixe ir. Vamos nos divorciar."
Seu rosto empalideceu. "Não", disse ele, a palavra afiada, violenta. "Nunca mais diga isso. Eu não a amo. Eu amo você, Lara."
Seu celular vibrou na mesa de cabeceira. Ele olhou para a tela. O nome "Isadora" brilhou nela. Sua expressão suavizou instantaneamente, sua testa franzida de preocupação.
Ele atendeu, sua voz um murmúrio baixo e calmante. "O que há de errado? ... O Léo está bem? ... Ele comeu o jantar?"
Léo. O gato dela.
"Não se preocupe", disse ele ao telefone, sua voz pingando a ternura que ele me negava. "Estou a caminho. Chego em vinte minutos."
Ele desligou e se virou para mim, seu rosto novamente uma máscara de indiferença fria. "Preciso ir", disse ele, sem nem se dar ao trabalho de oferecer uma desculpa.
Ele caminhou até a porta sem olhar para trás. Não perguntou se eu precisava de algo. Não se despediu. Ele apenas saiu.
Ele deixou sua esposa, que acabara de ser agredida fisicamente e precisava de pontos no rosto por causa de sua amante, para correr para o lado dessa mesma amante porque o gato dela poderia ter perdido uma refeição.
Naquele momento, eu soube com certeza absoluta que, em seu coração, eu não valia nem tanto quanto o gato de Isadora Castilho.
Uma risada seca e sem alegria escapou dos meus lábios. Peguei meu celular e disquei para meu advogado.
"Prepare os papéis do divórcio", eu disse, minha voz fria e clara. "Quero tudo a que tenho direito. E quero estar livre dele."
Passei dois dias naquele quarto de hospital. Heitor nunca visitou. Ele nunca ligou. Ele nem mesmo voltou para a mansão. Quando recebi alta, voltei para uma casa que era tão silenciosa e vazia quanto meu coração.
A primeira coisa que vi foi a porta de seu escritório particular. Ainda estava quebrada, pendendo ligeiramente entreaberta. Eu a empurrei. O quarto estava exatamente como eu o deixei - a pintura estilhaçada, as fotos rasgadas, as cartas espalhadas pelo chão. Ele nem se deu ao trabalho de limpar as evidências de sua obsessão. Ou talvez ele simplesmente não se importasse se eu visse.
Chamei um faz-tudo para consertar a porta. Então, coloquei o envelope pardo grosso contendo os papéis do divórcio no centro de sua mesa, bem ao lado de uma foto emoldurada dele e de Isadora.
Deixe que ele o encontre lá. Deixe que ele veja seu passado e seu futuro colidindo.
Passei o resto do dia expurgando-o sistematicamente da minha vida. Juntei cada joia, cada vestido de grife, cada presente caro que ele já me comprou. Embalei-os em caixas e providenciei para que um mensageiro os entregasse em seu escritório, junto com uma conta pelo sofrimento emocional que ele havia causado.
Eu não era mais o brinquedo dele. E eu cansei de jogar o jogo dele.
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