
Memórias Perdidas, Amor Encontrado
Capítulo 2
A luz branca do hospital era forte e queimava meus olhos. Uma dor aguda perfurava minha cabeça, e cada som parecia amplificado, como um martelo batendo dentro do meu crânio. Tentei me mover, mas meu corpo pesava uma tonelada.
"Ele acordou!" uma voz feminina soou, distante e sem emoção.
Abri os olhos devagar. O teto era branco, o cheiro de desinfetante preenchia o ar. Uma mulher estava de pé ao lado da cama, com os braços cruzados. Ela era linda, com cabelos escuros e olhos profundos, mas seu rosto era uma máscara de frieza.
"Pedro, você finalmente decidiu parar com o show?" ela perguntou, sua voz cortante.
Pedro? Meu nome. Sim, eu sou Pedro Santos. Mas o resto estava em branco. Olhei para a mulher, confuso. Eu a conhecia? O rosto dela parecia familiar, como um sonho antigo, mas eu não conseguia lembrar de onde.
"Quem é você?" minha voz saiu rouca.
Ela bufou, um som de puro desprezo. "Sério, Pedro? Outro truque? Depois de tentar se matar, agora vai fingir amnésia? Você nunca se cansa de chamar a atenção?"
Suicídio? Eu tentei me matar? A confusão na minha cabeça se transformou em um nó de pânico. Olhei para meus braços e vi as marcas de agulhas e um curativo no meu pulso. Meu coração acelerou. Nada daquilo fazia sentido. A última coisa que eu lembrava era de estar comemorando meus dezoito anos, planejando entrar na faculdade e sonhando em convidar a garota mais bonita da turma, Sofia Costa, para sair.
"Não... eu não entendo", gaguejei. "Eu tenho dezoito anos. Acabei de terminar o colégio."
A mulher riu, mas não havia humor em seu rosto. Era uma risada amarga, cheia de cansaço.
"Dezoito? Pedro, você tem vinte e sete anos. Nós estamos casados há cinco anos. Eu sou Sofia Costa, sua esposa."
Sofia Costa. O nome me atingiu como um soco. A garota dos meus sonhos. A garota que eu amava em segredo no colégio. Minha esposa? Olhei para as minhas mãos. Elas não eram as mãos de um garoto de dezoito anos, eram maiores, com calos que eu não reconhecia. Havia uma aliança de ouro no meu dedo anelar. O peso dela de repente pareceu insuportável.
"Não pode ser... Casados?"
"Sim, casados", ela repetiu, impaciente. "Um casamento que você transformou em um inferno com sua obsessão e seu ciúme doentio, especialmente pelo Tiago. E agora isso. Um acidente de carro porque você estava bêbado, seguido de uma tentativa de suicídio no hospital. Você realmente sabe como piorar as coisas."
Tiago? Tiago Almeida? O melhor amigo de infância da Sofia. Aquele cara que sempre estava por perto. Eu nunca gostei dele. A ideia de que ele ainda estava na vida dela, na nossa vida, me causou um desconforto imediato.
Um médico entrou no quarto, interrompendo a tensão. Ele era mais velho, com um olhar calmo. Seu nome era Dr. Ricardo. Ele olhou para mim, depois para Sofia.
"Senhora Costa, posso ter um momento a sós com o paciente?"
Sofia deu de ombros, como se não se importasse. "Fique à vontade. Eu tenho uma reunião. Me ligue quando ele parar com esse teatro."
Ela se virou e saiu, seus saltos ecoando no corredor. O som era frio e final, como a porta de uma prisão se fechando. Fiquei sozinho com o médico e com uma realidade que não era minha.
O Dr. Ricardo me examinou e fez algumas perguntas. Ele confirmou o que Sofia disse. Eu sofri um acidente de carro grave e, no hospital, tive um colapso e tentei cortar meus pulsos. O trauma do acidente, combinado com o estresse emocional, aparentemente causou uma amnésia retrógrada seletiva. Minha mente havia voltado para a única época em que eu me sentia seguro e feliz: meus dezoito anos.
"Então... tudo o que ela disse é verdade?" perguntei, a voz fraca. "Eu tenho vinte e sete anos? E eu... eu tentei me matar por causa dela?"
O médico assentiu com cuidado. "Sua memória está presa em um ponto anterior aos eventos traumáticos recentes. Pedro, o que você lembra como seu presente é, na verdade, seu passado de nove anos atrás."
Ele me ofereceu um espelho. Hesitei, mas a necessidade de ver a verdade era mais forte do que o medo. Quando olhei meu reflexo, o choque foi brutal. O rosto que me encarava não era o de um jovem de dezoito anos. Era o rosto de um homem. Havia olheiras escuras sob meus olhos, uma barba por fazer e uma expressão de cansaço que eu nunca tive. As linhas de preocupação na minha testa contavam a história de anos que eu não vivi.
Eu era um estranho para mim mesmo. E, aparentemente, eu era um homem patético. Um homem que se tornou tão obcecado por uma mulher que tentou tirar a própria vida. Um "lambe-botas", um "cachorrinho", como Sofia insinuou. A vergonha me queimou por dentro. O idealismo dos meus dezoito anos se chocou violentamente com a realidade degradante dos meus vinte e sete. O Pedro que eu conhecia, o garoto cheio de sonhos, nunca faria isso. Ele nunca se humilharia por ninguém.
Uma nova determinação começou a se formar dentro de mim, fria e dura. Se essa era a minha vida agora, eu não a aceitaria. Se esse homem no espelho era quem eu me tornei, então ele precisava morrer de vez. Não com uma lâmina, mas com uma decisão.
Eu não era mais aquele homem desesperado. A amnésia não foi uma maldição, foi uma libertação. Ela me devolveu a mim mesmo, o Pedro de dezoito anos, mas no corpo de um homem de vinte e sete. E esse novo Pedro não ia aceitar essa vida.
"Doutor", eu disse, minha voz firme pela primeira vez. "Eu quero o divórcio."
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