
Memórias Perdidas, Amor Encontrado
Capítulo 3
Nos dias seguintes, o Dr. Ricardo me ajudou a juntar as peças do quebra-cabeça da minha vida perdida. Cada nova informação era um golpe. Ele confirmou que meu casamento com Sofia foi o resultado da minha perseguição implacável durante a universidade. Eu a idolatrava, a colocava em um pedestal, e ela, talvez por conveniência ou por uma pressão familiar que eu desconhecia, acabou cedendo. Não houve um pedido romântico, não houve uma base de amor mútuo. Houve a minha insistência e a aceitação dela.
A empresa de Sofia, uma gigante no ramo de cosméticos, era o centro do mundo dela. Ela era uma empresária de sucesso, fria e calculista, e eu, aparentemente, era uma distração inconveniente. Uma obrigação.
E então havia Tiago Almeida. O "lua branca" dela, como as enfermeiras fofocavam. O amigo de infância que nunca saiu de perto, o homem que todos achavam que ela deveria ter escolhido. Ele era vice-presidente na empresa de um concorrente, mas sua presença em nossa vida era constante. Jantares, viagens de negócios, eventos sociais. Sofia passava mais tempo com ele do que comigo.
Pedi ao Dr. Ricardo para ser brutalmente honesto. Queria saber o que me levou ao fundo do poço. Ele hesitou, mas eu insisti.
"Pedro, seu antigo eu... você era muito dependente emocionalmente da sua esposa", ele explicou com cuidado. "Você ligava dezenas de vezes por dia. Aparecia no escritório dela sem avisar. Tinha crises de ciúmes por causa de Tiago. Você a acusava de ter um caso com ele constantemente."
Eu ouvia aquilo e sentia meu estômago revirar. Era como ouvir a descrição de um completo idiota. Eu fazia isso? Eu me humilhava desse jeito?
"Na noite do acidente", continuou o médico, "você e Sofia tiveram uma briga feia. Ela ia a um evento da empresa e você não queria que ela fosse com Tiago. Ela foi mesmo assim. Você bebeu, pegou o carro e..."
Ele não precisou terminar. A imagem era clara. Um homem patético, bêbado e desesperado, correndo para a própria destruição.
"E a tentativa de suicídio?" perguntei, a voz baixa.
"Quando você acordou aqui, a primeira pessoa que você chamou foi Sofia. Ela veio, mas a conversa não foi boa. Ela o acusou de ser dramático. Você pegou um bisturi da bandeja de curativos e disse que se ela saísse por aquela porta, você se mataria. Ela não acreditou. Ela disse 'Então morra' e saiu."
"Então morra."
As palavras ecoaram na minha mente. Frias. Cruéis. O desprezo dela era tão profundo que ela me deixou para morrer. Naquele momento, qualquer resquício de sentimento pela Sofia dos meus sonhos de dezoito anos se desfez. A garota idealizada morreu, e em seu lugar ficou apenas a imagem da mulher fria que me visitou no primeiro dia.
Depois de uma semana, recebi alta. Sofia não veio me buscar. Ela mandou seu motorista. A viagem para "casa" foi silenciosa. Eu olhava pela janela, vendo uma cidade que era familiar, mas ao mesmo tempo estranha.
A casa era um apartamento de luxo na área mais nobre da cidade. Minimalista, impessoal, frio. Parecia um showroom de móveis, não um lar. Não havia fotos nossas. Não havia toques pessoais. Apenas design caro e vazio.
Eu estava no meio da sala quando ela chegou. O som da porta se abrindo me fez virar. Sofia entrou, tirando o casaco e jogando a bolsa em uma poltrona. Ela nem olhou para mim.
"A geladeira está abastecida. A empregada vem três vezes por semana", disse ela, como se estivesse dando instruções a um funcionário.
Foi a primeira vez que a observei de perto, sem a névoa da confusão e da dor. Ela era ainda mais bonita do que nas minhas memórias de adolescente. Tinha uma elegância natural, uma postura de quem comanda o mundo. Seus olhos escuros eram inteligentes e intensos. Uma parte primitiva de mim sentiu uma atração inegável. Ela era, fisicamente, a mulher mais deslumbrante que eu já tinha visto.
Mas essa atração vinha acompanhada de um sentimento amargo de repulsa. Essa mulher linda era a mesma que me desprezava. A mesma que me disse para morrer. A mesma que, por cinco anos, suportou um marido que ela claramente odiava.
Ela finalmente me encarou, e seus olhos me avaliaram de cima a baixo. Havia uma curiosidade neles, misturada com a impaciência habitual.
"Então, o show da amnésia continua?" ela perguntou, a sobrancelha arqueada.
Eu a encarei de volta, minha expressão neutra. O antigo Pedro teria recuado, talvez pedido desculpas por algo que nem fez. Mas eu não era o antigo Pedro.
"Não é um show", eu disse, minha voz calma e firme. "Mas não se preocupe. Não vou mais te incomodar com a minha existência patética."
Ela pareceu surpresa com meu tom. Esperava súplica, desespero. Não recebeu nada.
"O que isso quer dizer?"
"Isso quer dizer, Sofia, que eu quero o divórcio. E desta vez, não é uma ameaça. É um fato."
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