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Capa do romance Memórias de Obsidiana

Memórias de Obsidiana

Escondidos nas Montanhas Partidas após escaparem do Império Ezen, Asha, Kael e Lirien descobrem segredos dos antigos Guardiões. Enquanto Asha tenta dominar seu poder sobre as cinzas, Kael perde sua humanidade para uma petrificação implacável. Com a revelação de que a guerra racial foi manipulada, a rebelião se espalha. Entre traições e sacrifícios, Asha deve decidir se será uma arma ou salvadora, usando o coração de obsidiana de Kael para decidir o futuro.
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Capítulo 3

A marcha para o Anel Inferior começou quando a aurora se filtrava pelas colunas de pedra quebradas. A trilha descia por desfiladeiros esculpidos na rocha, onde glifos antigos - meio apagados pela erosão e pelo tempo - ainda brilhavam fracamente à luz cinzenta. Asha, Kael e Lirien avançaram em silêncio, acompanhados por dois guias exilados: Yuren, um homem com a pele bronzeada pelo sol da caverna, e Maeka, uma mulher com cicatrizes rituais no rosto, como rachaduras em uma máscara outrora completa.

"Eles não vivem em um lugar fixo", disse Yuren enquanto desciam por uma passagem estreita. "Eles se movem como fogo sob a terra. Nunca repetem seu assentamento. Nunca deixam raízes. São como aquilo que veneram: aquilo que queima e se desintegra, mas deixa uma memória."

"E por que concordaram em nos receber agora?", perguntou Asha, com o olhar fixo nos penhascos.

"Porque você carrega o fragmento", respondeu Maeka sem se virar. "Porque você despertou um dos Corações."

Ninguém mais falou.

A jornada durou horas e, à medida que desciam, o ar ficava mais denso, carregado de minerais e umidade quente. O chão vibrava levemente, como se o mundo ainda respirasse sob seus pés. Kael caminhava mais devagar, seu braço direito agora quase completamente coberto de obsidiana. Asha ofereceu o dela em apoio, mas ele balançou a cabeça levemente. Orgulho ou medo de se tornar um fardo? Talvez ambos.

Finalmente, a passagem se abriu para uma caverna que parecia sobrenatural. A pedra era moldada em curvas que lembravam chamas paradas no meio de uma dança. No centro, uma estrutura de rocha derretida servia de altar: uma espiral negra e polida, incrustada com fragmentos vermelhos como brasas ainda acesas. Ao redor dela, figuras encapuzadas observavam em completo silêncio.

"Bem-vindos ao núcleo dos Filhos do Fogo Quebrado", anunciou Maeka. "Não se aproximem do altar sem permissão. Aqui, a memória queima viva."

Uma das figuras deu um passo à frente. Era um velho de pele acinzentada, olhos fundos e sobrancelhas tão brancas quanto a cal do teto. Suas vestes eram bordadas com fios de cobre oxidado que formavam um símbolo espiralado: o mesmo que Asha vira gravado nas bordas de seu bracelete Eolina.

"É você quem se lembra?", perguntou ele, sem rodeios.

"Eu sou Asha", respondeu ela. "Portadora de um fragmento de Coração. E busco respostas."

O velho a observou por um longo momento, como se quisesse lê-la além das palavras. Então, assentiu.

"Eu sou Ezkhar, o último Guardião quebrado. Aqui não pedimos permissão para memórias. Nós as confrontamos."

Asha sentiu uma pontada no peito. O termo "Guardião" havia parado de soar sagrado há muito tempo. E, no entanto, aquele velho não se parecia com os opressores do templo, nem com os juízes de cinzas que sentenciavam com fogo. Havia algo desgastado nele. Algo que parecia ter sobrevivido a muitas verdades.

"Kael", disse ela, apontando para o guerreiro que mal conseguia ficar de pé. "Ele está... mudando. A obsidiana o está consumindo. Acreditamos que ele esteja ligado ao fragmento que eu carrego."

Ezkhar se aproximou de Kael lentamente. Ele o estudou sem tocá-lo. Então, colocou a mão no próprio peito e disse:

"Não é uma maldição. É uma inversão."

"O que isso significa?", perguntou Asha, tensa.

"Obsidiana é memória solidificada. Nos tempos antigos, os Guardiões mais poderosos selavam partes de si mesmos dentro dela. Conhecimento, emoções, até memórias. O que você carrega no peito", disse ela, apontando para o fragmento de cinza que Asha protegia com uma bandagem de couro, "não é apenas um coração. É uma chave." E ao segurar você, ao protegê-la, ele está se tornando um recipiente. Não é que ele esteja perdendo sua humanidade. É que ele está assumindo outra forma.

"E isso pode ser impedido?", perguntou Kael, com a voz seca.

"Não sem consequências", respondeu Ezkhar. "Mas pode ser canalizado."

Os Filhos do Fogo Quebrado começaram a se reunir em um círculo ao redor do altar. Uma delas, uma jovem com tatuagens de cinzas do pescoço aos nós dos dedos, deu um passo à frente.

"O ritual de contenção pode ajudar vocês", disse ela. "Mas se o interrompermos errado, o que vocês carregam pode se quebrar. E vocês também."

Kael olhou para Asha. Seus olhos ainda estavam fixos nos dela. Asha assentiu.

"Então faremos", disse ele.

Ezkhar estendeu uma tigela feita de pedra e cinzas e, com uma faca ritual, cortou a palma da mão. O sangue negro que caiu na tigela faiscou ao contato.

"Aqui, o sangue queima", disse ele. "Porque não esquecemos o que somos."

Os Filhos começaram a entoar um cântico baixo e gutural. Kael foi conduzido ao centro do círculo, onde a torre do altar parecia pulsar, como se respondesse à sua presença. Asha estava do lado de fora do círculo, com as mãos tensas e os nós dos dedos brancos.

Lirien, ao seu lado, murmurou:

"Se der errado, pode se solidificar completamente."

"Não vai dar errado", disse Asha, mais para si mesma do que para o outro.

O cântico se intensificou. Os Filhos do Fogo Quebrado começaram a traçar símbolos com fogo líquido ao redor do altar. O ar estava impregnado de um aroma metálico, como se o próprio tempo estivesse enferrujando. Kael respirava pesadamente. Seu braço petrificado começou a emitir um leve brilho avermelhado. Veios de obsidiana se inflamaram, como se o interior estivesse queimando.

Asha sentiu seu fragmento pulsar em resposta.

"Ele e o coração estão sincronizados", disse Ezkhar. "Está funcionando."

Mas naquele instante, um estalo seco foi ouvido. Uma rachadura se formou na pedra sob os pés de Kael. Não uma rachadura na terra. Nele. Em sua carne. Em sua alma.

Asha correu em direção ao altar, mas Lirien a segurou.

"Se você o interromper agora, ele se quebrará completamente!"

"Eu não me importo!" Asha gritou. "Ele não é uma relíquia, é um ser humano!"

Kael olhou para cima. Seus lábios mal se moveram, mas Asha o entendeu mesmo assim:

"Não."

O brilho aumentou. As veias vermelhas se entrelaçaram, fundindo-se, como raízes vivas. Então, de repente, elas se apagaram.

O silêncio se instalou.

Kael caiu de joelhos.

Asha correu até ele. Lirien não a impediu desta vez. Quando o alcançou, ela o segurou com os dois braços. O corpo de Kael tremeu, mas seus olhos estavam abertos. Não havia mais obsidiana avançando. Ela havia parado bem na base do seu pescoço.

"Kael?", ela sussurrou.

Ele assentiu fracamente.

"Eu ainda estou aqui."

Asha sentiu um nó na garganta.

Ezkhar se aproximou, mais devagar, como se cada passo contivesse séculos.

"Você parou de se mover. Por enquanto. Mas há um preço."

"Qual é?", perguntou Kael.

"Seu vínculo com ela é mais profundo agora. Você não está mais apenas protegendo o fragmento." Você o segura. Se ela cair... você também.

Kael assentiu. Sem sombra de dúvida em seu rosto.

Asha não sabia se se sentia aliviada ou apavorada.

"E eu?", perguntou ela. "O que devo fazer para evitar que isso o mate?"

Ezkhar olhou para ela e, pela primeira vez, sorriu levemente.

"Lembre-se. E desperte os outros fragmentos. Somente quando todos os Corações estiverem reunidos o equilíbrio poderá ser restaurado. Não haverá cura sem verdade."

Asha olhou para o fragmento escondido em seu peito.

Ela sabia que aquilo era apenas o começo.

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