
Melodia Quebrada, Coração Ferido
Capítulo 2
A música parou, mas os aplausos continuaram ecoando no auditório, uma onda de som que me atingia em cheio, mas não me aquecia. No palco, sob as luzes ofuscantes, Pedro Costa sorria, segurando o troféu de "Compositor do Ano". Aquele troféu deveria ser meu. A música que acabara de ganhar, "Ecos da Meia-Noite", era minha. Cada nota, cada palavra, cada suspiro da melodia nasceu no meu estúdio, nas madrugadas insones. Mas, como sempre, Pedro a lançou um dia antes.
Meu nome é Ricardo Alves, e por três anos, fui a sombra anônima por trás do sucesso de Pedro Costa. Ninguém acreditava em mim. Para o mundo, eu era o invejoso, o plagiador desesperado que tentava pegar carona na genialidade de outro. A internet me destruiu. "Ladrão", "sem talento", "aproveitador". As palavras piscavam na tela do meu celular, dia e noite, uma torrente de ódio que transbordava para o mundo real. Fãs de Pedro me confrontavam na rua, me xingavam em restaurantes. Perdi contratos, amigos e a confiança da indústria.
Meu gerente, Léo, um amigo leal, tentou de tudo. Contratou peritos digitais, advogados, mas não havia provas. Nenhum vazamento, nenhum hacker. Minhas composições simplesmente apareciam, polidas e prontas, no portfólio de Pedro, sempre vinte e quatro horas antes do meu lançamento agendado. Era como se ele vivesse no futuro, ou dentro da minha cabeça.
A pressão se tornou insuportável. A gravadora me deu um ultimato. Minha família, que sempre me apoiou, começou a sentir o peso. Meu pai, um empresário rígido do ramo da construção, nunca entendeu completamente minha paixão pela música, mas via o sofrimento nos olhos da minha mãe. Dona Clara, minha mãe, era meu porto seguro. Ela acreditava em mim incondicionalmente.
Para limpar meu nome, meu pai usou seus recursos. Gastou uma fortuna em uma campanha de relações públicas, tentando reverter a maré de negatividade. Ele moveu processos caros contra os maiores portais de fofoca. Foi um erro. A mídia, sentindo o cheiro de sangue, dobrou a aposta. Publicaram histórias falsas sobre os negócios do meu pai, acusando-o de fraude. A investigação que se seguiu paralisou suas empresas. O estresse o consumiu.
Uma noite, recebi uma ligação do hospital. Meu pai sofrera um infarto fulminante no escritório. Ele não resistiu. O mundo desabou sobre mim. A culpa me esmagou como uma tonelada de concreto. Minha música, minha carreira, meu fracasso haviam matado meu pai. Minha mãe, antes uma mulher vibrante, definhou. O brilho em seus olhos se apagou, substituído por uma tristeza profunda e silenciosa.
Eu estava no fundo do poço. A música morreu dentro de mim. O estúdio ficou em silêncio, coberto de poeira. A depressão me envolveu em seu abraço frio. Pedro Costa, enquanto isso, estava no auge, sua foto em todas as capas de revista, sua música em todas as rádios. Minha música.
Numa noite chuvosa, olhei para o frasco de comprimidos na minha mão. A dor era demais. O rosto decepcionado do meu pai, a tristeza da minha mãe, a traição da minha ex-namorada, Juliana, que me abandonou no pior momento para se aliar a Pedro... tudo girava em minha mente. Eu só queria que parasse. Engoli os comprimidos, um por um, sentindo um alívio amargo. A escuridão me recebeu.
Mas então, uma luz. Uma sacudida violenta. Abri os olhos, ofegante, o coração batendo descontrolado. Eu não estava em um hospital, nem no limbo. Estava na minha cama, no meu antigo apartamento. O sol da manhã entrava pela janela, forte e claro. Meu celular vibrava na mesa de cabeceira. Era Léo.
"Ricardo! Acorda, cara! Você não vai acreditar no que o desgraçado do Pedro Costa fez de novo!"
Meu sangue gelou. A voz de Léo, a luz do sol, o layout do quarto... tudo era familiar. Eu olhei para a data no celular. Era o dia do lançamento de "Ecos da Meia-Noite". O dia do prêmio. O dia que marcou o início do fim. De alguma forma, inexplicavelmente, eu tinha voltado. Eu tinha recebido uma segunda chance.
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