
Melodia Quebrada, Coração Ferido
Capítulo 3
O suor frio escorria pela minha testa. Minhas mãos tremiam enquanto eu segurava o celular. A voz de Léo do outro lado da linha era uma mistura de raiva e incredulidade, exatamente como eu me lembrava.
"Ricardo? Você tá aí? O cara lançou uma música chamada 'Sussurros da Madrugada'. É a sua música, cara! A melodia, a letra... ele só mudou o título! Como isso é possível?"
Eu desliguei sem responder. Minha respiração estava curta, presa na garganta. Levantei-me da cama, as pernas bambas. Fui até o espelho do banheiro. O rosto que me encarava era o meu, mas mais jovem, sem as linhas de exaustão e desespero que a tragédia havia gravado nele. Toquei meu próprio reflexo, sentindo a pele, o calor. Era real. Eu estava vivo. Eu tinha voltado.
A sensação de pânico daquele pesadelo que foi minha vida passada voltou com força total. As manchetes, os comentários de ódio, o rosto sem vida do meu pai no caixão, o olhar vazio da minha mãe. Não. Eu não podia deixar aquilo acontecer de novo. Desta vez, seria diferente.
Peguei o celular e liguei para Léo.
"Léo, cancela o lançamento."
"O quê? Ricardo, você ficou louco? A gente precisa lançar! Temos que mostrar que a música é sua, que ele roubou!"
"Não, Léo. Não vai adiantar. Só vai piorar as coisas. Eles vão me acusar de plágio de novo. Vão me destruir. Cancela tudo. Agora."
Houve um silêncio do outro lado. Léo estava chocado. Ele não entendia. Como poderia?
"Ricardo, o que tá acontecendo com você? A gente investiu tudo nisso. A gravadora vai nos matar!"
"Eu não me importo com a gravadora. Confia em mim, Léo. É a única maneira."
Minha voz estava firme, carregada com o peso de uma vida que só eu tinha vivido. Léo, apesar de sua confusão, sentiu minha determinação.
"Ok, Ricardo. Ok. Vou ligar para a gravadora. Mas você vai me dever uma grande explicação."
Desliguei e respirei fundo. O primeiro passo estava dado. Eu havia mudado o roteiro. Mas a imagem de Pedro Costa sorrindo com meu troféu não saía da minha cabeça. Como ele fazia aquilo? Não era um vazamento normal. Era algo mais, algo que desafiava a lógica.
Liguei a TV. Lá estava ele, em um programa matinal, falando sobre sua "nova e inspiradora" composição. Ele falava com uma confiança irritante, descrevendo o processo criativo com detalhes que eram meus, que pertenciam às minhas noites solitárias no estúdio. Ele roubava não só minha música, mas minha alma.
Lembrei-me da primeira vez. Uma canção simples, "Caminhos de Areia". Eu a mostrei apenas para uma pessoa antes de planejar o lançamento: Juliana Mendes, minha namorada na época. Uma semana depois, Pedro Costa lançou uma música idêntica. Na época, achei que fosse uma coincidência bizarra. Depois, aconteceu de novo. E de novo. Cada vez que eu estava prestes a lançar algo grande, ele aparecia na minha frente.
Na minha vida passada, a campanha de difamação não me atingiu apenas profissionalmente. Léo, por me defender com unhas e dentes, também foi manchado. Sua reputação como gerente foi arranhada, e outros artistas começaram a se afastar dele. A gravadora me processou por quebra de contrato e danos à imagem da empresa. Meus pais, ao tentarem me defender, tornaram-se alvos. O império que meu pai construiu com tanto esforço ruiu por minha causa.
Não desta vez. Desta vez, eu não seria a vítima. Eu tinha a vantagem do conhecimento. Eu sabia o que ia acontecer. E eu ia usar isso para proteger a mim e àqueles que eu amava. O jogo havia mudado. Eu não ia mais jogar para ganhar. Eu ia jogar para não perder. E para descobrir a verdade, não importava o quão sombria e inacreditável ela fosse.
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