
Me conquiste
Capítulo 3
O que foi? — Seus olhos estão ansiosos. Eu estou quase achando que foi uma péssima ideia ter vindo até a escola, dizer que eu odeio dar aula e que nunca mais eu quero me obrigar a seguir os passos de terceiros. Ou corrigindo, os passos da minha mãe. — Aconteceu alguma coisa com a sua vó? Ou com o infeliz do seu irmão? — Não chame Otávio de infeliz. E não, graças a Deus, não aconteceu nada com eles. É sobre eu voltar a dar au... — Eloíse... Meu Deus, menina! — Nilce, a coordenadora, cruza a porta, gritando e interrompendo-me. — Você voltou?! Que ótimo, à sos eu já não estava conseguindo dizer nada para o Mariano, agora, com ela aqui, que eu não digo mesmo. Continua preso na garganta. — Ontem, a sua mãe e eu estávamos discutindo sobre o seu retorno. E acabei de ser informada que você estava na escola. Vai voltar a dar aulas, por favor? Mariano me observa esperançoso, como a coordenadora Nilce. — E-eu... eu... na verdade... — droga, eu estou lascada. O que dizer a eles? — Não... não retornarei — opto de uma vez pela franqueza e vejo o olhar dos dois recaírem. — Eu apenas gostaria de rever a escola. — Ah, que pena. Uma pena mesmo. Esperava vê-la recuperada. Mariano está chateado, triste comigo. E a situação me acarretou sapos na goela. Eu engulo em seco e levanto-me. — Eu já me sinto recuperada, Nilce, porém... eu quero um momento sem pressões. A hora certa chegará! — A hora certa? — Mariano questiona baixo e irônico. — Bom eu deixarei vocês conversando sem interrupções. E retorne, Eloíse. Esta escola, as crianças, todos nós temos enorme afeição por seu trabalho e dedicação. Desejo felicidades! E se a minha felicidade for longe das salas de aula? — eu penso na resposta, após ela fechar a porta e me deixar com o Mariano. — Não compreendo você, Eloíse. Está recuperada, todavia, não deseja voltar a dar aula? Quer distância da sua profissão? Faz dois anos que não leciona, nem pensa no caso. Eu não devo mais enganar o meu noivo, nem a mim própria. Eu respiro fundo e peço para ele me acompanhar até a piscina de natação. — Eu preciso te confessar tudo, sem rodeios — finalmente, comento, caminhando, sem encará-lo nos olhos. — Eu estou a todos ouvidos, diga?! — Ele para, cruza os braços e me faz levantar a cabeça. — Ficará chateado, ou até bravo. Só que eu... — aperto meus dedos — eu não quero mais ser professora. Eu precisava te dizer, Mariano, ser professora pedagoga sempre foi o desejo da minha mãe. Eu nunca quis me formar nesta profissão! — O quê? Só pode estar de zoeira — ele ri. — Você não gosta de ser professora? É isto? Meus nervos fervem, parece que eu acabei de contar uma piada de mau gosto. — Sim, eu odeio ser professora! É isto! — Não, não, você está de brincadeira. Sempre brincalhona. — Tudo bem, eu não esperava que “meu noivo” me compreendesse logo de início. Entretanto, só me ouve... por favor? — Ele não interfere e eu continuo. — Desde que eu era menina, meus pais deixavam explícito de que eu deveria seguir a profissão da mamãe, que eu deveria ser professora, pois o sonho dela era promissor. Criaram expectativas. E tanta, que eu não pude decepcioná-los. Eu entrei na faculdade, fiz o curso, me formei, trabalhei, dei aula, todos ficaram felizes.... — pauso. — [...] porém, não estava. Nunca esteve feliz, odiava! Fingia! Surpreendida, eu tento priorizar o controle emocional. — Você não está me entendendo, ouvindo... não compreende. Eu confesso, eu nunca estive feliz presa dentro de uma escola barulhenta. Mas eu amava as crianças. Eu amava elas, carinho nunca faltou. O meu sonho, a minha felicidade, o meu bem estar... estes sim faltaram de sobra. Mariano passa a mão no rosto, negando tudo o que eu disse. Eu estou chocada, não esperava a incompreensão logo dele. — Eloíse, a morte do seu pai ainda é recente. Você está desabilitada, desistindo por conta do luto. E pelo que aconteceu na sua vida... — É exatamente pelo que aconteceu na minha vida! — triste e magoada, eu fragilizo. — Eu não posso acreditar que não me escuta, que não me compreende. Você não pensa na minha felicidade? — Eu penso na minha e na sua felicidade. Por isso eu nunca deixei de estar presente com você em cada decisão! — Mas não apoia o meu sonho de modelar. Sabia que eu sempre tive este sonho. E o ignorou! — Sim, não vou ser hipócrita. Contudo, a beleza acaba. É patético querer desistir de lecionar para tirar fotinhas do corpo! Eu sorrio, sentindo meu sangue borbulhar de raiva, de afronta. — Que ótimo, meu amor! Porém, quer saber de uma coisa? Eu farei o que me der na telha. Como a minha melhor amiga me disse ontem, eu não devo dar ouvidos a você e nem a minha mãe. Eu devo fazer o que me torna bem! E não tenha dúvidas de que farei! Eu viro as costas. Trêmula, quase chorando de ódio, mágoa. Eu amo tanto o Mariano, só que o que ele jogou no ventilador foi como levar um soco no estômago. Seria idiotice eu desistir de anos de faculdade para correr atrás de um sonho imprevisível, patético? Que droga! Por que não podemos ver o futuro? Prever a merda do destino? Eu saio por pouco correndo no corredor dos professores, viro na saída do pátio e perto da porta da coordenação, eu não vejo a Nilce... e trombo de frente com o corpo dela. Ela segura rápida o meu quadril e eu, a sua cintura. — Meu Deus, Nilce! Me perdoe, eu não vi você. Se machucou? — Não, está tudo bem — responde, recompondo-se.
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